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Onde está o valor de um café especial? Esse questionamento tem impulsionado mudanças profundas na cadeia do café nacional. Não à toa, este ano a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) lançou o novo protocolo oficial para avaliação sensorial do produto no Brasil, o Sistema “Coffee Value Assessment” (CVA).
A ferramenta foi destacada durante a Semana Internacional do Café (SIC), em Belo Horizonte. O CVA coloca em prática o que muita gente já estava identificando no dia a dia: a qualidade precisa ir muito além da pontuação. O consumidor busca cafés que carreguem história. E isso o Brasil tem de sobra.
Outra mudança com o protocolo é que os atributos também terão lugar de destaque. “Se o café tem 87 pontos, ele pode ser 87 com uma acidez alta, mas ele também pode ser 87 com perfil chocolate. Isso precisa ser informado para o consumidor. A ideia é, no protocolo, trazer o descritivo”, explica o vice-presidente da BSCA, Luiz Roberto Saldanha.

O objetivo é que a percepção de valor seja dada pelo consumidor, não mais pelo provador. “Afinal, quem paga a conta? Quem é que manda? O consumidor. E é quem deveria estar nos direcionando. Agora, nós estamos olhando para ele”, concluiu o vice-presidente da instituição.
A ideia é que, adicionando mais camadas ficará mais fácil de o consumidor identificar aquilo que realmente quer e perceber valor no produto, para além do preço concreto. Entre essas informações estão rastreabilidade, modo de produção, perfil sensorial, entre outros. “Café especial é o relacionamento, então o cliente quer saber como é que foi produzido, onde foi produzido. Vai querer informação e se você não tiver uma rastreabilidade robusta e real, você não consegue mostrar isso”, arrematou Saldanha.
A jornada de construção do valor
Essa nova forma oficial de avaliar os cafés abre um campo fértil para regiões como o Caparaó, que carrega uma história robusta e ainda mais relevante em 2025. Não por acaso, oito dos dez melhores arábicas do “Coffee of the Year 2025” nasceram lá, fazendo com que o nome do território ressoasse com força na premiação realizada no último dia do evento, na capital mineira.
Mas foram mais de dez anos até chegar em um pódio recheado de sabores e histórias de qualidade. E no centro da narrativa estavam produtores e pesquisadores, ambos curiosos para desvendar o que o Caparaó já começava a oferecer.
Diversas instituições marcaram esse caminho. Do lado mineiro, a Emater, do lado capixaba, o Incaper. Mas uma em comum apostou em uma abordagem diferente: a Caparaó Jr.

Empresa formada por alunos do Curso Superior de Tecnologia em Cafeicultura do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), campus Alegre, com orientação dos professores e servidores técnicos-administrativos, a Caparaó Jr. atua na prestação de serviços de agronomia e consultorias a atividades agrícolas voltadas para a cafeicultura.
Fundada em maio de 2010, atende a mais de 1.600 produtores rurais da região do Caparaó e de seu entorno, tendo entre os parceiros associações e prefeituras. “A Caparaó Jr. foi lançada porque já tínhamos entendido que existia essa demanda por profissionais que fizessem atendimentos na prática, em campo”, relata João Batista Pavesi Simão, um dos fundadores da empresa e, à época, professor de cafeicultura do Instituto Federal.
No início, a empresa trabalhou muito com produtividade. E a pesquisa aplicada tornava a prática extensiva dos alunos uma forma de promover o desenvolvimento regional. “Ao mesmo tempo que favorecia o produtor atendido, era um laboratório para o estudante”, lembra Pavesi.

Uma das revoluções logo no primeiro ano da Caparaó Jr. foi o uso de um estudo socioeconômico baseado em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os pesquisadores identificaram uma grande parte da população semianalfabeta. Essa era a raiz de um problema que se estendia e impactava até a produtividade na região. Na época, o arábica tinha uma média de produtividade de 13 sacas por hectare; enquanto na cultura do canéfora era de cerca de 17 sacas por hectare.
Em 2015, a produtividade subiu para 40 sacas por hectare para o arábica, e 60 sacas por hectare de canéfora. “Hoje, o conilon pode chegar a 140 sacas por hectare com sistema de irrigação. Mas ainda tem espaço para crescer, com o uso da fertirrigação, por exemplo”, relata Pavesi.
Já a qualidade passou a ser trabalhada entre 2013 e 2014, com a sementinha do café especial sendo plantada ainda em 2012. Na ocasião, os pesquisadores foram chamados a uma reunião na sede da propriedade de Onofre Lacerda, em Pedra Menina (Dores do Rio Preto). “Eles queriam entender a qualidade que já estavam produzindo”.
Na época, Manoel Protázio de Abreu se propôs a investigar a qualidade também. Daí, nasceu o estudo “Grãos do Caparaó”, que somou 13 municípios e 110 famílias, cada uma delas enviando suas amostras para análise de qualidade.
Na secagem e pós-colheita, uma mulher. “Altilina Lacerda fez todo o trabalho de secagem em 2014 e 2015 para este estudo”, revelou Pavesi. E o resultado foi surpreendente: das cem amostras, 93 eram de café especial, segundo os provadores.
Entendendo agora o potencial da região do Caparaó, 16 municípios, entre mineiros e capixabas, se juntaram para criar a Associação de Produtores de Cafés Especiais do Caparaó (Apec). Em 2021, o Caparaó foi reconhecido como Denominação de Origem.
O crescimento foi acompanhado de perto pelo projeto Caparaó Jr., que ganhou sede própria dentro do Ifes, além de laboratórios móveis e outras ferramentas. “Hoje, o projeto atende de Ouro Preto até Guarapari. De Marechal Floriano a Matipó”, destaca o professor. A empresa júnior também extrapolou os limites do Sudeste e oferece serviços de análises para produtores de Rondônia, de Maciço do Baturité e até de Goiás.
E não foi só a vida dos cafeicultores que mudou com essa jornada em busca de mapear onde estava o valor do café especial do Caparaó. “A palavra-chave do trabalho no campo é confiança. E a Caparaó Jr. me ajudou a ser mais professor. Ensinou a me reinventar, ter novos desafios. Nós fomos voluntários de 2010 até o ano passado. Agora, me aposentei e continuo com eles como consultor voluntário. E mudei da cidade para a roça por causa dessa garotada. Comecei a ver outros valores da vida”, concluiu Pavesi.
Além disso, a lista de jovens impactados pelo trabalho no Caparaó, e que hoje se destacam no café especial, é extensa. Deneval Júnior, Larissa Sodré, Willians Valério, Amanda Lacerda. Cada um teve sua história marcada pela ciência e se lembra bem disso. “A sucessão familiar só acontece se o jovem estiver motivado”.
Como não existem coincidências, as histórias de boa parte desses produtores já se misturaram a uma das principais premiações do país, o “Coffee Of The Year”.
Histórias de valor
E lembra do Seu Manoel Protázio, que foi um dos responsáveis pelo foco em qualidade? Como muitas vezes o fruto não cai longe do pé, este ano quem ganhou o COY na categoria arábica foi o neto dele, o Guilherme Abreu. “Eu tenho 17 anos, mas desde pequeno eu acompanho meu pai no trabalho. Eu sempre estou olhando o que ele faz, para buscar aprender. E há dois anos ele me deu uma lavoura. A partir daí eu fui pegando mais gosto ainda e fui buscando sempre estar melhorando”, contou ele.

Seja Protázio ou Abreu, os nomes dessa família figuram há anos no cenário de cafés especiais, mas esta foi a primeira vez que eles conquistaram o lugar mais alto do pódio. “É uma alegria muito, muito grande essa vitória. Isso é o reconhecimento do trabalho. E fico muito feliz em saber que eu consegui realizar um sonho que era do meu pai, que sempre teve esse sonho de ganhar o COY. Graças a Deus, este ano eu pude estar realizando esse sonho dele”, revelou.
E o caminho de construção até esse sonho foi longo. “Nos anos de 2007 e 2008, meu avô já mexia com um café, só que era café commodity, um café que não tinha muita qualidade. Como meu pai e meus tios não quiseram ir para fora estudar, eles tinham que buscar uma forma de conseguir mais dinheiro no café”, lembra ele.
Além dos aprendizados com a Caparaó Jr., a família buscou mais. “Eles iam para outras cidades que já mexiam com café especial, participavam de palestras e aprendiam. Assim, trouxeram esse conhecimento para cá e foram colocando em prática no nosso sítio. A partir do ano de 2012 já conseguiram trabalhar com café especial e foram ganhando os primeiros prêmios”.
Em 2025, o café campeão foi um cereja descascado, mas, segundo o vencedor, o segredo não está na variedade nem em outro detalhe tangível. “A técnica que a gente usa é cuidar com muito carinho e amor, mexer o café na hora certa. Porque se fazendo com amor e carinho tudo fica bom”.
Outro ingrediente imprescindível para ele é cuidar do entorno. “O meio ambiente também é essencial, a terra. Se ela não estiver boa, nós não vamos conseguir produzir”, explicou o rapaz, que concilia o trabalho na lavoura com os estudos. “Eu ajudo meu pai depois que eu chego da escola. Vou me formar este ano. Então eu auxilio no plantio, na adubação, na limpeza das lavouras, na colheita de café, ajudo no terreiro. Faço de tudo na lavoura”, orgulha-se.
Outra família que foi movida pela curiosidade e vontade de inovar é a de Deneval Vieira, de Iúna. E neste ano, os frutos vieram triplicados. A família conquistou três dos dez melhores cafés no ranking do COY na categoria arábica. “Não trabalhamos para fazer café para concurso. Isso é consequência. Fazemos excelentes cafés porque dedicamos o máximo ao nosso trabalho”, destacou Douglas Vieira, que teve o café vice-campeão neste ano.
Até essa conquista, foram longos anos de dedicação. “Eu estou aqui trabalhando desde quando eu nasci. Minha paixão, na verdade, é pela agricultura, né? Tenho prazer em colocar a muda na terra, em ver ela crescendo, produzindo”.
Apesar de já produzirem muito antes disso, foi em 2010 que a família descobriu a possibilidade do café especial e passou a processar a ideia. O patriarca queria algo para agregar um valor àquele trabalho. “As grandes viradas de chave da nossa vida foram em 2010, quando no primeiro prêmio que participamos, ficamos em 4o lugar; em 2015, quando fomos para a SIC, e em 2018, vencemos o COY!”, elencou Douglas.
Para começar a fazer essa revolução pessoal, Deneval buscou apoio na cooperativa de cafeicultores da região, a Coocafé, e um dos funcionários pediu para que ele levasse uma amostra de café recém-colhido. Só então a família recebeu a orientação e as explicações sobre cada grão: os frutos imaturos, verdes, boias e aqueles que eram mais maduros.
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Somente aí a família entendeu que precisaria mudar muita coisa no manejo, em uma lavoura que tinha altos, baixos e muita desuniformidade na maturação dos grãos. Começaram, então, a jornada de aprendizado constante para entender o que, afinal, era um café especial – e o principal – como produzi-lo!
Em 2010, veio o primeiro lote de café especial, no concurso da cooperativa local. “Nós ficamos em 4o e é um troféu que está aqui guardado na casa do meu pai até hoje. Representa muito, quase igual ao COY dele de 2023, no qual a gente foi campeão”, explicou Douglas.
Mas esse seria apenas o primeiro marco. Eles ainda conheceriam outros cafeicultores que focaram em qualidade e já estavam conquistando o Brasil, como Clayton Barrossa, da Fazenda Ninho da Águia (Alto Caparaó).
Ainda em 2015, Deneval e a mulher, Rosa, foram se aventurar na SIC, em Belo Horizonte. Sem reservas em hotel, apoio e sem nem mesmo ter credencial para o evento. Mais uma vez, amigos no caminho ajudariam a família não só a entrar, mas a conhecer um novo mundo que se abria. “A Carla Fernanda, do Sebrae, encontrou meus pais e ajudou com tudo. Ela ficou marcada na nossa história. Temos várias pessoas que estiveram ao nosso lado. E meu pai chegou em casa falando dessa premiação e observou, então, que o Coffee of the Year era um concurso que seria fundamental para darmos uma virada de chave, ganhar nome.”, contou Douglas.
Conforme avançavam, os irmãos começaram a provar café e receber a visita de compradores estrangeiros de grandes marcas como Five Elephant e a The Barn. E foram estudando e conquistando cada vez mais espaço.
Hoje, a torrefação Muda, na França, é uma das principais parceiras da família. Mais uma prova de que o relacionamento é parte do valor agregado ao café especial, já que a marca é de um belga que passou tempos na propriedade da família.
“Abrimos as portas de coração para ele e depois soubemos que ele estava atrás de um café inesquecível e esse café tinha sido produzido por nós. Quando voltou para a França, ele batizou a torrefação por causa da muda de 785, que levou daqui. Para nós, é como se fosse um Cordilheiras, lá na França, na região de Lille”, contou o produtor.
A família também exporta para países como a Austrália e Noruega, e tem um casal parceiro no Chile. “Passa um filme na nossa cabeça. Porque foi muito difícil até aqui. Trabalhamos muito, meu pai viajou muito e investiu nisso. Foi buscar coisas novas e conhecimento”, lembrou Douglas.
E essas inovações se expressaram também por meio da torrefação própria, que deu espaço ao Café Cordilheiras. Um dos mais recentes lançamentos é o Café da Ester, batizado em homenagem à filha de Douglas. “Todos os meus filhos sempre tomaram café especial sem açúcar. A Ester me pedia muito um café com o nome dela, demonstra todo carinho e tem essa desenvoltura. Então separei o lugar mais alto da lavoura e de lá fizemos o café dela”, explicou.
E a escolha deu sorte. Afinal, o Sítio Café da Ester conquistou o 4° lugar neste ano no COY, categoria arábica. Resultado: a família toda subiu ao palco nos três momentos em que foram laureados. “Ficamos muito emocionados e ela também. E aí já estávamos no palco quando anunciaram que o segundo era nosso também. Nunca tinha acontecido de uma família vencer com três cafés. E para o município de Iúna foram quatro”, comemora Douglas.
Agora, o objetivo é focar na venda de café torrado no Brasil e fortalecer os laços com os parceiros no exterior. “Muita gente vem nos visitar e fica surpreso, porque a propriedade não é muito grande. Mas o diferencial está nas pessoas, não nas estruturas”, declarou o produtor.
Já na categoria Canéfora, a campeã do COY teve uma alegria extra. Carolinna Bridi venceu o prêmio e dividiu o pódio com um produtor especial: seu pai, Luis Carlos que ficou em 3o lugar neste ano. “Eu até agora não desci das nuvens”, alegra-se Luis Carlos Gomes, pai de Carolinna.
E não é para menos. O cafeicultor trabalhou anos cultivando arábica e investindo na qualidade do conilon, quando essa ideia ainda parecia descabida para muitos. “A gente já vinha fazendo um trabalho que é muito relevante e faltava essa coroa. Esse título. E valeu a pena esperar porque ela veio de uma forma que tem um simbolismo tão grande. Por estarmos, minha filha e eu, sendo premiados”.
Apesar do trabalho de pioneirismo da família, Luis conta que ainda assim ficou admirado com o carinho que recebeu, “As pessoas mandavam mensagem, eu não imaginava que estivessem olhando tanto, torcendo tanto. Esse campeonato está vindo depois de uma longa história de trabalho, é um gostinho diferente, né? E renova a esperança”, detalha o patriarca.
Carolinna, uma das filhas do casal Luis Carlos e Maria Rosalina, tem 36 anos e já são décadas acompanhando o trabalho dos pais na lavoura. “O prêmio traz uma satisfação muito grande e coroa muitos anos de trabalho, não encerra um ciclo, nos dá ânimo para continuar e indica que estamos no caminho certo”, contou.
A empreendedora cursou Direito e, há cerca de nove anos, decidiu se aproximar ainda mais da produção dos cafés especiais. “Eu faço a condução do processo de reflorestamento e sustentabilidade da fazenda e compartilho com meu pai estratégias relacionadas aos cafés especiais, como o pós-colheita, controle e prova de lotes e torra”, destacou.
A família produz em uma propriedade centenária, localizada em Santa Teresa, a uma altitude entre 580 e 820 metros, onde seguem cultivando tanto arábica quanto canéfora.
Além do trabalho na produção, Carolinna segue se dedicando a cursos e a estudar outros idiomas. “É preciso reservar um tempo para atividades que enriquecem o conhecimento e nos atualizam das diversas demandas de mercado. Faz parte do negócio evoluir, inclusive em aspectos que não estão diretamente relacionados ao café, mas que contribuem para o crescimento da fazenda. Conhecimento nunca é demais”, destaca ela.
O aprimoramento tem motivo. Tanto o arábica quanto o conilon de qualidade continuam em ascensão e a família não quer perder a dianteira da história. “Com as mudanças climáticas, estão limitando muito a produção do café arábica e o conilon, com o advento da qualidade, está galgando novos mercados e ocupando o vácuo”, explica Luis Carlos.
E, se em 2002, quando iniciaram o trabalho com conilon, ainda faltava tecnologia, a família decidiu tornar sua própria lavoura uma espécie de campo de experimentos. “Começamos a fazer testes de seleção, mas por nossa conta e risco. Com o passar do tempo, fomos adquirindo conhecimento e amizades no meio acadêmico. Trocando figurinhas, aprendendo com eles e, de certa forma, também eles aprendendo com a gente”, conta ele sobre os períodos em que produtores, pesquisadores, incluindo equipes do Incaper, e consultores se somaram em prol da qualidade do café na região.
Na época, muito era identificado a partir da experiência de mercado do arábica. “Vimos algumas exigências em relação ao arábica e a gente imaginou, lá atrás, ‘se o arábica pede isso, em algum momento vão pedir isso para o conilon também’. E começamos a selecionar plantas que se encaixavam nessas exigências do mercado”, explica Luis Carlos.
Em 2010, o cafeicultor conta que sentiu que o conilon de qualidade finalmente estava se consolidando. “Quando foi realizado o primeiro curso de R-Grader em Vitória, me pediram uma amostra de conilon para utilizar no curso. Foi o primeiro realizado no Brasil”, conta ele sobre o sistema de avaliação sensorial e classificação de cafés da espécie canéfora.
“Eles ficaram impressionados com a pontuação e ali tivemos certeza de que o conilon tinha potencial para ter a mesma qualidade que o arábica”, revela.
Até chegar nessa validação, Luis Carlos viu e participou de muitas inovações. Entre elas, embarcou grãos que chegaram até Portland, nos Estados Unidos, e teve seu café se destacando em blends da grande indústria. Isso sem falar nas conquistas coletivas.
“Nós, produtores, juntamos e levamos para a cooperativa a demanda de ajuda para esse trabalho que já estávamos fazendo pela qualidade do conilon. E dali surgiu o primeiro concurso de café com conilon especial, conilon descascado, do Espírito Santo [atual Prêmio Pio Corteletti, da Nater Coop]”, lembra.


Fotos: Alexandre Rezende/Nitro
Outros projetos precursores de qualidade desses produtores passaram por empresas como Nestlé e Melitta. “Foi desenvolvido um protocolo para fazer as fermentações com consultoria do Ensei Neto, que bancamos”, revelou ele. “Depois, continuamos o trabalho e em 2023 foi lançado, pela grande indústria, o primeiro café canéfora especial e fermentado com esse protocolo”, orgulha-se.
Se antes, muitas coisas do arábica eram replicadas para o conilon, hoje Luis Carlos explica que também é possível fazer o caminho inverso. “As técnicas de fermentação que usamos aqui, levamos do conilon para o arábica”, conta.
Tão inovador e revolucionário quanto o conilon capixaba, os robustas amazônicos mexeram no tabuleiro do jogo da cafeicultura há alguns anos. E seguem trazendo destaques como Angélica Alexandrino Nicola, do Sítio São Sebastião, de Seringueiras, em Rondônia, que conquistou o 2º lugar no Coffee of the Year 2025 na categoria Canéfora.

Com apenas 3 hectares de lavoura produtiva e 1,5 hectares em formação, Angélica e sua família se somam ao núcleo familiar da cunhada para produzir cerca de 260 sacas ao ano.
A produtora trabalha com cafeicultura focada em grãos especiais desde 2023, quando se mudou para o sítio e passou a completar o grupo. Porém, o restante da família já estava focado em qualidade desde 2021.
A família participa do COY desde 2022 e essa foi sua melhor colocação no prêmio. “A premiação traz mais visibilidade e reconhecimento para um trabalho que desenvolvemos desde 2021”, detalha ela.
Além do COY, a família também ficou entre os cafés campeões no Concurso Concafé, chegando ao 3° lugar no quesito Sustentabilidade. “A cada ano nós buscamos nos aperfeiçoar e melhorar a qualidade e sustentabilidade, buscando novas formas de manejo”.
Diversidade: do campo às pessoas
Para além de cuidar do que ainda está em pé, o reflorestamento é um caminho que parece se fazer cada vez mais necessário. No caso da Fazenda São Bento, a decisão de reflorestar parte da fazenda partiu da matriarca e das filhas.
“Minha mãe, minha irmã e eu fomos assistir ao documentário O Sal da Terra, sobre a vida de Sebastião Salgado. O documentário retrata a trajetória do fotógrafo e como iniciou a criação do Instituto Terra. Fomos inspiradas por essa iniciativa e resolvemos que faríamos como ele e a esposa. Então, em meados de 2015, começamos o processo de reflorestamento da propriedade. Já recuperamos cerca de 12 hectares de mata e estamos implementando cerca de 40 hectares com plantio e regeneração natural”, detalha Carollina Bridi.
O pai acredita que a ideia de reflorestamento foi sendo maturada por anos a fio. “Elas saíram para estudar e quando voltavam, de férias, viam que tinha menos árvores. Era um sentimento que ficava reprimido dentro delas. E aí minha esposa com as filhas resolveram fazer o caminho inverso. Tirar algumas áreas mais íngremes de café, e reflorestar”, explica Luis Carlos.
Para ele, a qualidade está em um âmbito muito mais amplo, não só na qualidade sensorial. “Tem muitas outras coisas envolvidas”, destaca ele. A linha de raciocínio casa com o novo protocolo da BSCA.
Para a família, também é importante o cuidado com os seres que habitam o território, desde insetos como as abelhas que fazem a polinização do café, até toda a flora e a fauna. “É possível isso acontecer sem prejuízo econômico. E mais, o consumidor muitas vezes quer remunerar quem trabalha com sustentabilidade”, conclui ele.
Para Carolinna, a diversidade humana também é peça-chave para fazer girar a engrenagem verde da sustentabilidade real. “Vejo muitas mulheres em diversas etapas da produção do café, o que é muito positivo pois é uma rede que colabora e se fortalece para enfrentar o machismo que ainda persiste. Além disso, vejo que as mulheres trazem para a cultura uma visão mais integrada e sustentável, e cada vez mais homens e mulheres veem o valor que a diversidade agrega. O caminho é longo, mas a perspectiva é positiva”, concluiu ela.
Lá em Rondônia, quem parece concordar com as ações práticas é Angélica e sua família. “Nossa produção não é orgânica, porém buscamos formas mais sustentáveis, como manejo de mato, de recursos hídricos, uso de adubação com matéria orgânica como palha de café ou cama de frango. Isso contribui com o aumento da produtividade da lavoura”, destaca.
Além de ações mais pontuais, tem se tornado mais comum a escolha por técnicas mais completas como a agricultura regenerativa e agroflorestal.
Para Luiz Roberto Saldanha, vice-presidente da BSCA, as exigências que o país já atende, incluindo sustentabilidade, rastreabilidade, o Código Florestal e a legislação trabalhista, já colocam o Brasil em um patamar completamente diferente das demais origens. “Alguns países consumidores, incluindo a União Europeia, estão buscando essa consistência e transparência. E, hoje, ter essa sustentabilidade comprovada, não só falada, tem aberto cada vez mais espaço para o Brasil”, lembra o executivo.
Se a produção sustentável se espalha por todo território nacional, alcançando estados diversos, como Ceará e Acre, em Rondônia a sustentabilidade tem sido o coração do trabalho há alguns anos.
A partir da maior floresta tropical do mundo, uma comitiva apresentou seu trabalho atual e perspectivas futuras para manter os cafés robustas em harmonia com seu entorno. Durante uma apresentação cheia de cores e vivacidade na SIC, pesquisadores da Embrapa Rondônia se uniram a cafeicultores para lembrar que a sustentabilidade real precisa de cultivos diversos.
“Uma indicação geográfica não se faz só com um produto”, apontou Juan Travain, um dos líderes da cafeicultura em Rondônia, durante sua fala no palco.
Para tornar a ideia mais concreta, eles mostraram na prática como é possível extrair o máximo de cada item produzido, sem desperdício e com inovação também na mesa. Os produtos, feitos com subitens do café, incluíram a já conhecida cáscara, um chá feito com cascas do fruto do café, cookies e infusões com cada uma das cascas enviadas, kombucha, dermocosméticos e até uma farinha que pode ser base para panificação.
E mais do que a floresta em pé, os robustas Amazônicos levaram um show de diversidade para o palco da SIC 2025, para defender que a sustentabilidade precisa ser diversa. Por isso, catimbó e outros ritmos do Norte do País foram estrelas na apresentação, que também contou com a participação de produtores indígenas.
Além da apresentação dos robustas Amazônicas, eles também estiveram da SIC participando de concursos e expondo seus cafés em estandes como os de Rondônia e do Acre.
Além das etnias indígenas que vêm se destacando e movimentando a cafeicultura, quando se fala em pluralidade no café é preciso lembrar também do trabalho da população negra nessa construção. Visando esse reconhecimento, existem hoje iniciativas como a do Café Di Preto, fundado por Raphael Brandão.
A microtorrefação compra cafés produzidos por pessoas negras e utiliza embalagens que também homenageiam grandes nomes brasileiros. “Eu acho que tem que aumentar trabalhos como o do Raphael e de outros negros no café. Ele vem realmente ajudar os produtores negros a conquistarem espaço, porque muitas pessoas são muito retraídas”, acredita Luis Carlos.
Para ele, é preciso falar mais sobre a presença da população negra na cadeia do café atualmente. “Sei que o Rapha, no início, teve muita dificuldade para encontrar ou receber indicações de um produtor negro. Eu sinto que muitas pessoas lá ficavam também com receio de falar ‘O Luis Carlos é um produtor negro’, entendeu? Sem saber como isso seria recebido por mim também”, explica o cafeicultor, sobre o tabu que ainda envolve a identidade negra no campo e no café como um todo.
Hoje, o produtor vê com satisfação que há mais pessoas negras ocupando posições de destaque como torrefadores e baristas, mas ainda sente falta dessa representatividade no campo. “Falta espaço para os produtores negros, talvez um trabalho que os ajude a se posicionarem. São coisas que acredito que vão acontecer. Nós fundamos a associação em Santa Teresa justamente para buscar essas oportunidades que aparecem, como participação em concursos e iniciativas desse tipo”, explica.
Para Luis Carlos, o avanço também depende da coletividade. “Eu sempre acho que é preciso compartilhar informações; nunca guardo para mim. Muitas pessoas falavam que eu sou muito generoso, que às vezes precisava me segurar mais. Eu respondo que conhecimento é feito para ser partilhado. Dividindo é que a gente cresce”, afirma.
Brasil, mostra a tua cara
Se o Brasil tem tantas histórias incríveis, sustentabilidade na produção e ainda muito espaço para crescer em diversidade, o que falta para mudar de vez o olhar de quem enxerga o país apenas como produtor de volume?
“Qual é o nosso problema? É que quem compra, que é o profissional que sabe de café, entende o quanto o Brasil é profissional e, por isso, compra mais. Mas o grande público consumidor ainda não sabe. Nós estamos nos comunicando mal. Temos o Código Florestal mais exigente do mundo. Temos uma legislação trabalhista que, comparada com as demais, é das mais rigorosas. Mantemos sistemas de rastreabilidade e certificações socioambientais. É muito robusto. Mas o grande público não sabe disso”, aponta o vice-presidente da BSCA.
Uma das formas de reverter essa percepção é aproximar compradores das origens e estimular que essas histórias sejam contadas. Uma dessas ações foi promovida pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) na SIC 2025, que trouxe 24 compradores estrangeiros vindos de países como Estados Unidos, Portugal, Polônia, Rússia, Emirados Árabes Unidos, África do Sul, Índia e China.
Outro comprador presente no evento foi Otávio Sandrin, gerente comercial da Capricórnio Coffees. “O Brasil tem uma vantagem competitiva muito forte em relação a outras origens, porque temos vários terroirs dentro de um único país. Isso é incrível. São diversas regiões e perfis sensoriais, sabores diferentes. E isso impressiona”, avalia.
Segundo Sandrin, os cafés brasileiros têm ganhado cada vez mais visibilidade lá fora. “Participamos de vários eventos no exterior e vemos o mercado buscando esses cafés e se impressionando com a qualidade do café brasileiro.”
Quando necessário, o trader costuma conduzir exercícios de cupping às cegas com clientes e parceiros. “Na hora em que ele prova, não falamos a origem. E, quando revelamos que é um café do Brasil, eles ficam chocados. Dizem que poderia ser uma bebida da Etiópia, do Quênia. E a gente fica orgulhoso do trabalho dos produtores brasileiros.”
Além da qualidade, Sandrin reforça outro diferencial: “O Brasil tem o componente da consistência. Quando o cliente prova algo, ele quer voltar ao mesmo lugar e repetir aquela experiência. O Brasil consegue entregar isso.”
Para Saldanha, a forma como o Brasil é visto lá fora evoluiu muito, especialmente a partir dos anos 2000. “A mudança é gigantesca. Com a extinção do IBC na década de 1990, os fundadores da BSCA tiveram a visão de que o Brasil também tinha cafés especiais e precisava mostrar isso. E os primeiros impactos foram ouvir dos compradores, que provavam esses cafés e diziam: ‘Mas isso não é café do Brasil!?’”.
Ainda assim, há uma longa trilha para mostrar todo o potencial e a pluralidade do país. “O trabalho nas lavouras, a tecnologia genética com o meio ambiente, as novas gerações — filhos, filhas e produtores voltando para as propriedades, colaboradores sendo treinados — tudo isso está criando um pacote de mais qualidade, mais consistência e mais perfis”, lembra o executivo.
Ele reforça que, embora o comprador profissional já tenha esse entendimento, o consumidor final ainda não tem. “E é aí que mudanças como o novo protocolo do CVA entram. O novo padrão carrega rastreabilidade e sustentabilidade para que essas informações cheguem ao consumidor final”, completa o vice-presidente da BSCA.
E isso vale não só para consumidores estrangeiros, mas também para os brasileiros que começam a descobrir o valor de um café especial.
Para Sandrin, é animador ver que a cena do café especial está mudando também no Brasil. “Muitas pessoas costumam dizer que o café bom é todo exportado. Mas eu consigo provar que não. Há muitas torrefações que fazem um trabalho magnífico. Há algumas semanas, participamos do concurso de café do Norte Pioneiro do Paraná, por exemplo, e arrematamos vários lotes — e um já vai ficar aqui. É uma cultura que precisamos desenvolver, e muito trabalho tem sido feito. Vem mudando. Estamos nessa luta também para mudar”, conclui.





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