Chuva e calor

El Niño não afeta todo o Brasil da mesma forma; entenda o que muda em cada região

Aquecimento das águas do Pacífico interfere na circulação da atmosfera e pode alterar chuvas, temperaturas e a ocorrência de eventos extremos

seca e chuva 2026
Imagem: Conexão Safra/gerada por IA

O El Niño pode aumentar a frequência de temporais e enchentes no Sul, favorecer temperaturas mais elevadas e chuvas irregulares no Sudeste e prolongar os períodos de estiagem no Norte e no Nordeste. Os efeitos, porém, variam conforme a região, a época do ano e a interação do fenômeno com outros sistemas atmosféricos e oceânicos.

A análise é da meteorologista do Instituto Climatempo Josélia Pegorim. Segundo ela, o El Niño é um fenômeno climático natural e periódico, caracterizado pelo aquecimento acima do normal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, principalmente nas porções central e leste, próximas às costas do Peru e do Equador.

Mesmo distante do Brasil, o aquecimento modifica a circulação da atmosfera em escala global. As alterações atingem o comportamento dos ventos, o transporte de umidade e a formação das nuvens de chuva em diferentes partes do planeta.

Como resultado, algumas áreas podem receber mais chuva do que o habitual, enquanto outras enfrentam períodos mais secos e temperaturas elevadas. O fenômeno também pode influenciar a frequência de ondas de calor, temporais, enchentes e estiagens.

Pegorim ressalta, no entanto, que os impactos não seguem uma fórmula única. “Embora existam padrões típicos associados ao El Niño, nenhum evento é exatamente igual ao outro. A intensidade dos impactos depende da força do fenômeno, da época do ano e da interação com outros sistemas atmosféricos e oceânicos”, explica.

Sul

A Região Sul está entre as áreas brasileiras mais afetadas pelo El Niño. Durante a primavera e o início do verão, o fenômeno costuma favorecer chuvas acima da média e aumentar a frequência de temporais.

Esse cenário eleva o risco de enchentes, alagamentos, cheias de rios e deslizamentos de terra, principalmente em áreas vulneráveis. De acordo com Pegorim, os grandes volumes de chuva que atingiram o Rio Grande do Sul em julho de 2026 e provocaram enchentes em áreas do estado foram os primeiros impactos do atual episódio no Sul do país.

Sudeste

No Sudeste, onde está o Espírito Santo, os efeitos costumam se tornar mais perceptíveis durante a primavera e o verão. A tendência é de temperaturas acima da média e maior frequência de ondas de calor, que também podem se tornar mais prolongadas.

O início da estação chuvosa pode apresentar irregularidade, com risco de períodos de estiagem em algumas áreas. O calor também tende a aumentar a demanda por água e energia elétrica.

Centro-Oeste

No Centro-Oeste, o El Niño pode atrasar o início das chuvas regulares, prolongar o período seco e favorecer temperaturas mais elevadas.

Temporais podem ocorrer no começo da primavera e criar uma falsa impressão de que a estação chuvosa já se estabeleceu. A ausência de precipitações regulares mantém elevado o risco de queimadas e incêndios florestais.

Nordeste

Os impactos no Nordeste costumam ser mais evidentes na porção norte da região, principalmente durante o verão e o outono. O El Niño pode reduzir a duração da quadra chuvosa e prolongar significativamente a estiagem. “É como se um período seco emendasse no outro”, afirma Pegorim.

As temperaturas também podem permanecer acima da média, com redução da disponibilidade de água em rios e reservatórios. A agricultura dependente da chuva está entre as atividades mais expostas a esse cenário.

Norte

Na Região Norte, especialmente na Amazônia, o El Niño costuma favorecer condições mais secas e quentes. Entre os possíveis efeitos estão a redução das chuvas, as estiagens prolongadas e o aumento do risco de queimadas e incêndios florestais.

A queda no nível dos rios pode afetar o transporte fluvial, o abastecimento de água e atividades econômicas que dependem da navegação.

El Niño não foi a causa direta dos ventos no Sudeste

Pegorim também esclarece que os ventos superiores a 100 quilômetros por hora registrados no Rio de Janeiro e em São Paulo no dia 29 de julho não foram causados diretamente pelo El Niño.

O episódio ocorreu durante a passagem de uma frente fria. O contraste entre a massa de ar frio que avançava do Sul e o ar quente predominante no Sudeste favoreceu a formação de uma frente de rajada.

Esse tipo de sistema se forma no limite entre o ar frio produzido por uma tempestade e o ar quente localizado à frente dela. A chuva e o ar resfriado pela evaporação descem rapidamente da nuvem e provocam rajadas intensas.

O El Niño pode contribuir para que determinados padrões atmosféricos se tornem mais frequentes ou intensos, mas não deve ser apontado isoladamente como responsável por cada temporal, onda de calor, enchente ou período de seca registrado no país.

Sobre o autor Fernanda Zandonadi Desde 2001, Fernanda Zandonadi atua como jornalista, destacando-se pelo alto profissionalismo e pela excelência na escrita de suas reportagens especiais. Tem um conhecimento aprofundado em agronegócio, cooperativismo e economia, com a habilidade de traduzir temas complexos em textos de grande impacto e relevância. Seu rigor e qualidade na apuração e narração de histórias do setor garantiram que seu trabalho fosse constantemente reconhecido pela crítica especializada, o que a levou a conquistar múltiplas distinções e reconhecimentos em premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos

Comentários 0

Carregando comentários…