Relatório IMBR Agro

El Niño na safra 2026/2027: saiba como ficarão as chuvas em cada região e qual será o mês mais crítico

Centro-Oeste e Sudeste podem ter déficit hídrico justamente durante o plantio, mesmo com acumulado positivo ao fim do período analisado

El Niño
Imagem: Conexão Safra/IA

O avanço do El Niño durante o segundo semestre de 2026 deverá provocar cenários opostos de chuva nas regiões brasileiras ao longo da safra 2026/2027. Enquanto Norte e Nordeste tendem a enfrentar volumes abaixo da média histórica, o Sul poderá registrar excesso de precipitação. No Centro-Oeste e no Sudeste, o principal risco está na distribuição irregular: apesar de o acumulado total permanecer positivo, pode faltar chuva justamente durante a semeadura.

As projeções fazem parte de um relatório da IMBR Agro que analisa o comportamento esperado da precipitação e da temperatura entre julho de 2026 e abril de 2027. O estudo utiliza projeções do Oceanic Niño Index, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, e dados climáticos do ERA5.

Segundo o levantamento, 20 das 27 unidades da federação devem encerrar o período com chuva abaixo da média histórica. Os déficits estão concentrados principalmente nas regiões Norte e Nordeste, onde a redução da precipitação deve ocorrer acompanhada por temperaturas mais elevadas.

O Pará apresenta o maior déficit acumulado entre os estados, com projeção de 459 milímetros abaixo da média. Em seguida aparecem Roraima, com redução de 395 milímetros, e Maranhão, com 313 milímetros a menos.

No Norte, o cenário pode afetar especialmente a implantação das lavouras de soja. A cultura representa 33% do Valor Bruto da Produção agropecuária regional e deve atravessar a fase de semeadura sob uma combinação de menos chuva e temperaturas acima do padrão histórico.

O relatório classifica a exposição climática da região como alta. Além do déficit hídrico, Roraima, Pará e Rondônia devem apresentar os maiores desvios de temperatura do país, com elevações estimadas em 1,03 °C, 0,83 °C e 0,70 °C, respectivamente.

No Nordeste, a tendência também é de redução das chuvas durante etapas importantes do calendário agrícola. A soja, responsável por 32% do Valor Bruto da Produção regional, está entre as culturas mais expostas à possibilidade de atraso ou irregularidade das precipitações.

Centro-Oeste

No Centro-Oeste, o El Niño não deverá provocar necessariamente uma redução no volume total de chuva entre julho de 2026 e abril de 2027. O relatório projeta um saldo positivo de 165 milímetros para a região durante os dez meses analisados.

Esse resultado, porém, não significa ausência de risco para a agricultura. Durante a janela mais importante para a semeadura, a projeção indica um déficit de 48 milímetros.

A diferença entre o acumulado do período e as condições esperadas durante o plantio mostra que a chuva poderá ficar concentrada em determinados meses. Assim, mesmo uma temporada considerada mais chuvosa no resultado final pode apresentar períodos de escassez hídrica durante fases decisivas da produção.

A situação exige atenção principalmente nas lavouras de soja, que dependem da regularização das chuvas para o início do plantio e para o estabelecimento das plantas. A irregularidade também pode interferir na definição do calendário da segunda safra.

Sudeste terá risco para café, cana e soja

O Sudeste apresenta condição semelhante. A projeção aponta um acumulado positivo de 55 milímetros entre julho de 2026 e abril de 2027, mas indica uma redução de 99 milímetros durante a janela considerada mais sensível para as culturas regionais.

Nesse caso, a avaliação apenas do total de chuva pode esconder problemas durante etapas como a semeadura da soja, o desenvolvimento da cana-de-açúcar e fases importantes da produção de café.

No café, a distribuição das chuvas é tão importante quanto o volume acumulado. Períodos secos ou chuvas irregulares durante a florada, o pegamento dos frutos e o enchimento dos grãos podem afetar a produtividade, mesmo que a precipitação volte a aumentar nos meses seguintes.

O relatório não apresenta um cenário uniforme para todos os estados ou culturas do Sudeste, mas alerta que o saldo positivo ao final dos dez meses não elimina a possibilidade de déficit hídrico durante etapas decisivas do ciclo produtivo.

Sul terá excesso de chuva durante período sensível

Na região Sul, o comportamento esperado é o oposto. Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná devem registrar os maiores excedentes de precipitação do país.

A projeção indica 542 milímetros acima da média no Rio Grande do Sul, 433 milímetros em Santa Catarina e 383 milímetros no Paraná. O aumento das chuvas está associado ao padrão normalmente observado durante episódios de El Niño.

O excesso deverá alcançar inclusive a janela mais sensível para a produção de soja, principal cultura agrícola da região. Nesse caso, o risco deixa de estar relacionado à falta de água e passa a envolver dificuldades para o plantio, entrada de máquinas nas propriedades e realização de tratos culturais.

A umidade elevada também pode favorecer doenças nas lavouras e comprometer operações de colheita, dependendo da intensidade e da frequência das precipitações.

Novembro será o mês mais crítico

Novembro de 2026 é apontado como o período de maior risco climático para a safra brasileira. Nesse mês, os estados com previsão de chuva abaixo da média devem acumular, juntos, um déficit de 905 milímetros.

Ao mesmo tempo, a temperatura média do país poderá ficar 0,98 °C acima do histórico, o maior desvio mensal previsto pelo levantamento. Novembro também deverá apresentar a maior diferença entre a unidade da federação mais seca e a mais chuvosa.

Considerando todo o período entre julho de 2026 e abril de 2027, as 27 unidades da federação devem registrar temperaturas superiores à média histórica. O aumento médio projetado para o país é de 0,47 °C.

A combinação de calor, redução das chuvas em parte do território e excesso de precipitação em outras áreas mostra que os impactos do El Niño deverão variar conforme a região, a cultura e a fase do calendário agrícola.

O estudo destaca que produtores, cooperativas, seguradoras e agentes do mercado precisam observar não apenas o volume total de chuva esperado, mas também os meses em que os déficits ou excedentes devem ocorrer. A concentração ou a ausência de precipitação durante períodos sensíveis pode causar perdas mesmo em regiões que terminem a safra com acumulados próximos ou superiores à média.

Sobre o autor Fernanda Zandonadi Desde 2001, Fernanda Zandonadi atua como jornalista, destacando-se pelo alto profissionalismo e pela excelência na escrita de suas reportagens especiais. Tem um conhecimento aprofundado em agronegócio, cooperativismo e economia, com a habilidade de traduzir temas complexos em textos de grande impacto e relevância. Seu rigor e qualidade na apuração e narração de histórias do setor garantiram que seu trabalho fosse constantemente reconhecido pela crítica especializada, o que a levou a conquistar múltiplas distinções e reconhecimentos em premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos

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