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A curiosidade de alguns produtores, aliada ao conhecimento e ao desejo do extensionista do Incaper, Sérgio Barbosa, de incentivar a produção de cafés de qualidade, deu início a um movimento que promete transformar a cafeicultura de Santa Leopoldina. Roberto Meira Klippel, Ivone Lange e Cristiano Coutinho Caldas foram em busca de informações sobre cafés especiais.
Com experiência adquirida durante um período de trabalho em Itarana, Sérgio levou Ivone, Roberto e Cristiano para conhecer o Centro de Cafés Especiais do Espírito Santo (Cecafes), em Venda Nova do Imigrante. Além da visita, o grupo levou amostras de café para análise.
A experiência revelou que Santa Leopoldina tinha potencial para produzir cafés especiais, tanto arábica quanto conilon. Como resultado, foi realizado, em 2025, o 1º Concurso Municipal de Cafés Especiais de Santa Leopoldina. A grande surpresa, segundo Sérgio, foi a pontuação do conilon vencedor: 85 pontos.
Mais do que premiar os melhores cafés, o concurso despertou nos agricultores a percepção de que era possível agregar valor à produção. Desde então, um grupo de cafeicultores passou a investir em capacitações nas áreas de torra, classificação e análise sensorial.
Os investimentos também chegaram às propriedades, por meio da adoção de boas práticas agrícolas, da aquisição de despolpadores, da construção de terreiros suspensos e estufas, de melhorias no pós-colheita — etapa decisiva para a obtenção de bebidas diferenciadas — e da criação de marcas próprias.
Segundo o extensionista, o concurso foi o principal motivador dessa transformação.
“A grande motivação é a vontade de produzir com qualidade e excelência. Quando encontramos um grupo com esse interesse e conseguimos promover cursos, excursões, concursos e capacitações e, a partir disso, as próprias famílias passam a produzir seu café, isso deixa de ser apenas uma motivação e se transforma em realização pessoal”, afirma.
Foi o que aconteceu com Ivone. Acostumada a consumir o café produzido pela família desde a infância e incentivada pela irmã, que perguntava por que ela não beneficiava o próprio café, decidiu buscar informações e colocar a mão na massa. Depois de pedir orientação a Sérgio, recorreu a um conhecido da igreja para despolpar o café e improvisou um terreiro suspenso.

“O primeiro café que fiz, sem nenhuma técnica, conseguiu mais de 85 pontos. Isso me animou ainda mais. Quando veio o concurso, fiquei em primeiro lugar na categoria arábica, com 87,75 pontos”, conta a agricultora, que mora na localidade de Caramuru, no Sítio Weissmann Blumen (“flores brancas”), nome inspirado nas flores do café, onde, segundo ela, florescem todos os seus sonhos.
Em 2025, mesmo precisando levar o café para um vizinho despolpar, Ivone beneficiou seis das 50 sacas colhidas. Neste ano, com despolpador próprio e uma pequena estufa construída na propriedade, a meta é beneficiar 20 sacas. O próximo passo será lançar a própria marca.
“Devagarzinho está surgindo a ideia da marca. Minha maior motivação é o amor pelo que faço e a valorização do meu café. Sempre vendi por um preço inferior; agora quero agregar valor e conseguir um preço melhor”, destaca a produtora, que cuida sozinha da lavoura.
Outro exemplo é o casal formado por Gabriel Machado Pupim e Lorena Simões Cerqueira Pupim. Depois de conquistarem o primeiro lugar na categoria conilon, com 85,05 pontos, decidiram investir em uma agroindústria e estão prestes a lançar a marca Grão Pupim, inicialmente com três linhas: tradicional, gourmet e especial.
A trajetória do casal com o café é diferente da de Ivone. Filho e neto de agricultores, Gabriel chegou a trabalhar com suinocultura. Há quatro anos, deixou a criação de porcos para se dedicar à cafeicultura. Hoje cultiva 50 mil pés de conilon e pretende ampliar a lavoura com mais 12 a 13 mil pés ainda este ano.
Convidado por Sérgio a participar do concurso, aceitou o desafio. O resultado superou as expectativas.
“Para nossa surpresa, o café recebeu uma excelente avaliação e conquistamos o prêmio de melhor café conilon do município. Esse resultado mudou nossa visão sobre o potencial da produção. Eu e minha esposa ficamos muito motivados e decidimos dar um passo mais ousado. Desde então, estamos investindo na agroindústria”, explica Gabriel, proprietário da Fazenda Puppim, em Mangaraí, interior de Santa Leopoldina.

Formada em Direito e servidora do Tribunal de Justiça do Estado há 11 anos, Lorena nunca havia tido contato com o meio rural. Hoje, porém, vai diariamente à fazenda. Ela conta que já conversava com o marido sobre cafés especiais, acompanhando o crescimento do setor pelas redes sociais, até surgir o convite para o concurso.
“Nossa meta agora vai além da venda do café cru. Queremos verticalizar a produção. Estamos estruturando um projeto para torrar, embalar e comercializar nossa própria marca de café especial, atendendo tanto o mercado atacadista quanto o consumidor final”, afirma.
A proposta é agregar valor à parte da produção, mantendo também a comercialização do café commodity. O casal pretende iniciar o beneficiamento de 10% da safra e ampliar esse percentual gradualmente. Paralelamente aos investimentos na agroindústria, os dois vêm buscando qualificação por meio de cursos presenciais e on-line.
“O café, que começou como uma herança e um caminho de reconstrução, tornou-se o grande projeto de vida da nossa família. Cada grão produzido em nossa propriedade carrega a força do meu avô, a visão do meu pai e a nossa busca constante pela excelência, com o propósito de entregar ao mercado um conilon de qualidade”, enfatiza Gabriel.
O segundo lugar na categoria conilon ficou com Roberto Meira Klippel, que obteve 83 pontos. Ao lado da esposa, Érika Groner, ele também investe em uma agroindústria para beneficiamento de cafés de qualidade no Sítio Lua Nova.
Criada na propriedade da família, na comunidade de Moxafongo, Érika mudou-se para o município da Serra após o casamento. Em 2011, quando surgiu a oportunidade de retornar a Santa Leopoldina, o casal decidiu recomeçar na propriedade herdada por ela.
“Em vez de pensar apenas em produzir mais café, decidimos investir em um café melhor. Queríamos um projeto que unisse nossa família, valorizando a qualidade, o cuidado com a terra e todo o trabalho realizado em cada etapa da produção”, recorda Roberto.
Para ele, o resultado do concurso confirmou que a família está no caminho certo.
“Representou muito mais do que um reconhecimento técnico. Simboliza o esforço de uma família que acreditou em um sonho, investiu em conhecimento e colocou a qualidade como prioridade”, afirma.

Depois da premiação, o irmão Ronaldo passou a integrar o projeto. Juntos, intensificaram a busca por conhecimento técnico e seguem aprimorando o manejo da lavoura enquanto estruturam a agroindústria. Roberto investiu em um despolpador e construiu uma estufa com terreiro suspenso para garantir uma secagem adequada e melhorar a qualidade do café.
“Minha produção é pequena, o que me incentivou ainda mais a trabalhar com café especial. Eu já acompanhava reportagens e buscava melhorar o manejo da lavoura, mas faltava dar o primeiro passo. Procurei o Sérgio, que me apoiou muito. Mas o que realmente fez essa ideia deslanchar foi o concurso de Santa Leopoldina”, destaca Roberto, que neste ano já despolpou 100% da produção.
Da commodity ao turismo de experiência
Cristiano Coutinho Caldas, do Sítio Dona Lica, na comunidade de Mangaraí, também apostou na produção de cafés de maior qualidade. Mas, diferentemente dos demais cafeicultores, decidiu dar um passo além: investir no turismo de experiência como forma de agregar valor à propriedade.
A proposta é aproximar o consumidor da realidade do campo. Mais do que vender café, Cristiano quer proporcionar uma vivência completa, permitindo que os visitantes conheçam a lavoura, acompanhem as etapas da produção, participem de oficinas práticas e degustem diferentes cafés.
“O turismo de experiência sempre me chamou a atenção. Depois da pandemia, percebi que muitas pessoas buscavam justamente isso: passar um tempo no campo, desacelerar e conhecer de perto como os alimentos são produzidos”, afirma.
A ideia já começou a sair do papel. Neste ano, um primeiro grupo participou da experiência na propriedade, e uma nova visita está sendo organizada para o período da florada dos cafezais.
Embora tenha seguido um caminho diferente dos demais produtores, o início da trajetória de Cristiano foi semelhante. Durante anos, a família comercializou o café da forma tradicional. Foi na pandemia, em 2020, que ele passou a questionar a qualidade do café produzido na propriedade.
A inquietação aumentou ao perceber que a própria mãe não consumia o café produzido pela família.
“Ela trocava o conilon por café arábica com atravessadores, acreditando que o conilon era naturalmente mais amargo e inferior. Em um evento de cafés especiais, conversando com outro produtor, descobri que grande parte da qualidade depende dos cuidados no pós-colheita, especialmente da secagem em terreiros suspensos. Foi ali que nasceu o objetivo de produzir um conilon diferenciado.”
Hoje, cerca de 5% da produção do Sítio Dona Lica, nome que homenageia sua avó, é beneficiada e comercializada diretamente para amigos e clientes, por meio da marca Café Dona Lica, também criada em homenagem à matriarca da família. A expectativa é ampliar esse percentual gradualmente até que metade da safra seja destinada ao mercado de cafés especiais.
Nos últimos dois anos, Cristiano investiu em conhecimento e na mudança do manejo da lavoura. O cafezal não recebe agrotóxicos, e a adubação é feita de forma orgânica. Em 2026, iniciou experimentos com cafés fermentados utilizando frutas durante o processo de fermentação, com resultados animadores.
“Estou começando a provar os cafés desta safra e fiquei impressionado com a evolução da qualidade. Muitas pessoas experimentam e perguntam se é café arábica. Nem acreditam que é um conilon”, conta.
Continuidade
Após o concurso, foi criado um grupo de WhatsApp com cerca de 40 produtores, que permanecem em contato para compartilhar experiências, esclarecer dúvidas e trocar resultados. O grupo já participou de cursos de torra, classificação e análise sensorial de cafés.
O próximo passo, segundo Sérgio Barbosa, é capacitar profissionais de bares, restaurantes, pousadas, padarias e outros estabelecimentos para preparar e servir cafés de qualidade.
“Proprietários de pousadas já foram incluídos no grupo e deverão atuar como parceiros na valorização da produção local”, afirma.
Outra frente de trabalho é a articulação com a Prefeitura para adquirir os cafés premiados e disponibilizá-los nas repartições públicas. A proposta também será apresentada ao Ministério Público, ao Poder Judiciário e à Câmara de Vereadores, buscando ampliar o consumo institucional e fortalecer o mercado local.
“Além de incentivar a produção, as próximas ações estarão voltadas à consolidação de um mercado capaz de reconhecer e valorizar a qualidade dos cafés produzidos em Santa Leopoldina”, destaca o extensionista.
Roberto Meira Klippel, integrante da diretoria da Cooperativa de Agricultores Familiares de Santa Leopoldina, também vê oportunidades para fortalecer o movimento.
“A cooperativa pode acolher esses produtores, ampliando sua atuação e oferecendo mais comodidade a quem produz cafés de qualidade. Assim, fortalecemos a cooperativa, melhoramos o escoamento da produção e aumentamos a rentabilidade dos produtores”, conclui.






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