Anuário do Agronegócio Capixaba 2025

A nova safra dos citros do ES: recuo, desafios e força produtiva

A produção de laranja no Espírito Santo encerrou 2024 com retração após dois anos de alta. Os produtores do estado colheram 19,8 mil toneladas, queda de 18% em relação a 2023. A redução reflete a diminuição da área colhida, que passou de 1.803 para 1.690 hectares, e a queda do rendimento médio, que recuou de […]

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Foto: divulgação/Freepik

A produção de laranja no Espírito Santo encerrou 2024 com retração após dois anos de alta. Os produtores do estado colheram 19,8 mil toneladas, queda de 18% em relação a 2023. A redução reflete a diminuição da área colhida, que passou de 1.803 para 1.690 hectares, e a queda do rendimento médio, que recuou de 13.447 kg/ha para 11.749 kg/ha.

Os dados mostram que a cadeia apresentou crescimento consistente entre 2017 e 2023, período em que a área aumentou 35% e a produção avançou 31%. O ponto mais alto da série foi em 2023, com 24,2 mil toneladas. Em 2024, o desempenho menor está associado a condições climáticas adversas e à variação natural das lavouras, mas não altera a tendência de estabilidade da citricultura capixaba ao longo da década.

Entre 2014 e 2024, a produção manteve-se relativamente equilibrada, variando entre 15 mil e 24 mil toneladas, com rendimento médio sempre próximo de 13 mil kg/ha.

A atividade permanece distribuída em diferentes regiões. Em 2024, Pinheiros liderou a produção, com 3.040 toneladas (15,31%), seguido por Linhares (1.800 t), Jerônimo Monteiro (1.710 t), São Domingos do Norte (1.060 t) e Marataízes (1.050 t). Juntos, esses cinco municípios concentraram 43,6% de toda a laranja produzida no estado.

Limão: estabilidade e avanço da área

A cadeia do limão no Espírito Santo registrou leve retração em 2024, mas manteve o padrão de crescimento que marcou a última década. O estado produziu 20,6 mil toneladas — volume inferior ao de 2023, quando a colheita atingiu 21,8 mil toneladas, mas ainda acima da média observada entre 2014 e 2019.

Foto: Wenderson Araujo – Sistema CNA/Senar

A área colhida, por sua vez, seguiu em expansão. Em 2014, o cultivo ocupava 563 hectares; em 2024, atingiu 980 hectares, o maior patamar da série histórica. Esse avanço indica aumento do interesse pela cultura, fortalecido pela adaptação do limoeiro às condições climáticas capixabas e pela diversificação da fruticultura regional.

O rendimento médio apresentou oscilação ao longo da década. Após alcançar picos próximos de 23 mil kg/ha entre 2015 e 2021, o indicador recuou para 21.027 kg/ha em 2024, reflexo de variações climáticas e da alternância natural das plantas cítricas.

A produção é concentrada em polos consolidados do Norte e Noroeste do estado. Em 2024, São Mateus liderou com 4.360 toneladas (21,16%), seguido por Linhares (3.133 t), Itarana (2.475 t), Pinheiros (2.400 t) e Pedro Canário (1.800 t). Juntos, esses cinco municípios responderam por 68% do total produzido no Espírito Santo.

Mesmo com leve queda na safra de 2024, a citricultura de limão permanece em trajetória de fortalecimento no estado, com expansão de área, crescente diversificação territorial e bom nível de produtividade.

Tangerina: eficiência nas montanhas

A produção de tangerina no Espírito Santo encerrou 2024 com retração após três anos de estabilidade. O estado colheu 27,5 mil toneladas, queda em relação às 31,6 mil toneladas registradas em 2023. A redução acompanha a diminuição da área colhida, que passou de 1.376 para 1.344 hectares, e o recuo do rendimento médio, que caiu para 20.481 kg/ha.

Foto: Wenderson Araujo – Sistema CNA/Senar

A série histórica revela grande variação ao longo da década. O ponto de maior produção foi 2020, quando o estado alcançou 37,9 mil toneladas. Desde então, a tangerina mantém um padrão de produtividade elevado — entre 20 mil e 23 mil kg/ha — e uma área plantada relativamente estável, oscilando pouco acima de 1.300 hectares.

A cultura é caracterizada por forte concentração regional. Em 2024, Domingos Martins respondeu sozinho por quase metade de toda a produção estadual, com 13.260 toneladas (48,17%). Na sequência aparecem Santa Leopoldina (2.240 t), Marechal Floriano (2.131 t), Conceição do Castelo (1.854 t) e Alfredo Chaves (1.220 t), que completam o núcleo produtivo das áreas altas do Espírito Santo.

As condições de altitude, clima ameno e tradição de cultivo fazem da região um território especialmente favorável à tangerina, garantindo frutos de qualidade e rendimento estável mesmo em anos de alternância natural das plantas.

Desafios e retomadas

Segundo Flávio de Lima Alves, pesquisador do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), entre 2001 e 2008, a citricultura capixaba enfrentou um dos períodos mais críticos de sua história, marcado pela erradicação de pomares devido à pinta preta e pela necessidade de substituir o porta-enxerto limão-cravo, altamente suscetível à morte súbita que avançava sobre pomares de São Paulo e Minas Gerais. 

Apesar de existir controle para a pinta preta, a doença ainda preocupa técnicos e agricultores; por outro lado, o Espírito Santo permanece livre do greening, cuja transmissão depende de um inseto associado à murta e não encontrado no território capixaba. 

Para o pesquisador, além dos desafios fitossanitários e do alto custo de produção — pressionado pela escassez e pelo preço da mão de obra —, pesa também a falta de orientação alimentar da população. “Estimular o consumo de frutas cítricas é, segundo ele, parte essencial da retomada da competitividade, sobretudo diante da concorrência de produtos vindos de outros estados”.

Produtores capixabas recorrem à subenxertia para salvar pomares de laranja

Um problema silencioso, mas de grande impacto para a citricultura capixaba, tem mobilizado produtores capixabas, especialmente de Linhares. Mudas de laranja comercializadas com porta-enxertos inadequados, resultando em incompatibilidade entre copa e cavalo e comprometendo o desenvolvimento das plantas. Em alguns casos, citricultores têm sido obrigados a realizar subenxertia para evitar a perda total dos pomares.

A situação foi registrada recentemente em um pomar de Linhares. Mudas de Valência Tuxpan (uma variedade de laranja doce tardia, desenvolvida pela Embrapa como alternativa à clássica laranja-pera) enxertadas em porta-enxerto índio (Citrandarin Índio), apresentaram problemas graves de compatibilidade. Segundo Flávio de Lima Alves, pesquisador do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), a falha é recorrente sempre que a combinação genética não é adequada.

O problema se traduz em troncos rachados, engrossamentos anômalos e falhas de condução, sinais clássicos da incompatibilidade entre copa e cavalo. Ele acontece também entre as cultivares de laranja-pera e os porta-enxertos híbridos: Citrandarins Riverside, Índio, San Diego, e Citromello Swingle.

“A inadequação de enxertia fez com que produtores de Linhares fossem obrigados a subenxertar milhares de árvores após receberem mudas com porta-enxerto incorreto”, explica o pesquisador.

Para evitar perdas, segundo o pesquisador, é necessário um trabalho intensivo de subenxertia. A técnica trata de adicionar um segundo porta-enxerto (um cavalo) abaixo do enxerto principal. Isso cria um sistema radicular duplo para melhorar a resistência a doenças do solo ou salvar plantas danificadas. No procedimento usado nos laranjais capixabas, dois novos cavalos são colocados lateralmente no tronco para restabelecer o fluxo de seiva e devolver estabilidade à planta.

Foto: Wenderson Araujo – Sistema CNA/Senar

Mudas e subenxertia de laranja

Segundo o pesquisador, a combinação Valência Tuxpan x Índio tem apresentado problemas onde quer que tenha sido plantada. Por isso, ele reforça a necessidade de o produtor adquirir mudas somente em viveiros certificados, que garantem rastreabilidade e seleção adequada das combinações copa-cavalo. A subenxertia, ressalta, apesar de eficaz como medida corretiva, demanda mão de obra especializada, tempo de recuperação e custo adicional. Isso reforça a importância da escolha correta dos materiais genéticos desde o início.

“O Espírito Santo possui viveiros com longa tradição na produção de mudas cítricas de alta qualidade. Não há necessidade de importar mudas de outros estados. O fundamental é que o produtor faça o planejamento do pomar. Além disso, recomendo encomendar as mudas com, no mínimo, um ano e meio de antecedência ao plantio. É preciso evitar, a todo custo, a compra de mudas de última hora, especialmente de regiões externas”, avalia Flávio de Lima Alves.

Ele alerta também que as mudas sem procedência podem gerar outros problemas graves. “Hoje, milhares de estabelecimentos comercializam mudas terceirizadas, o que dificulta a fiscalização. Esse tipo de prática representa um risco enorme para a citricultura capixaba como um todo. Ela aumenta a possibilidade de introdução inadvertida do greening, uma das doenças mais destrutivas da cultura”, conclui.

Sobre o autor Fernanda Zandonadi Desde 2001, Fernanda Zandonadi atua como jornalista, destacando-se pelo alto profissionalismo e pela excelência na escrita de suas reportagens especiais. Tem um conhecimento aprofundado em agronegócio, cooperativismo e economia, com a habilidade de traduzir temas complexos em textos de grande impacto e relevância. Seu rigor e qualidade na apuração e narração de histórias do setor garantiram que seu trabalho fosse constantemente reconhecido pela crítica especializada, o que a levou a conquistar múltiplas distinções e reconhecimentos em premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos

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