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Em novembro, o International Chocolate Awards, considerado o “Oscar do Chocolate”, anunciou as marcas vencedoras da edição 2025. Entre elas estava uma fabricante brasileira que utiliza como matéria-prima as amêndoas de cacau produzidas em Linhares.
A notícia é excelente — embora não exatamente uma surpresa. Desde 2017, quando o cacau do produtor Emir de Macedo Gomes, da Fazenda São Luis, ficou entre os 18 melhores do mundo no Salão do Chocolate, em Paris, o Espírito Santo passou a ganhar visibilidade internacional.

Foi assim que Ricardo Campos, da Miroh Chocolate Makers, de Gramado (RS), conheceu as amêndoas produzidas por Emir. Há cerca de cinco anos, em busca de matéria-prima premiada, ele pesquisava fornecedores na internet quando descobriu a Fazenda São Luis.

Ricardo acaba de conquistar a medalha de prata na categoria “Barras de chocolate ao leite com inclusões ou pedaços” com a barra 42% Leite com Banana e Castanha de Caju, no International Chocolate Awards 2025.
Mas esse não foi o único prêmio conquistado graças ao cacau capixaba. O mesmo chocolate recebeu bronze na etapa continental da competição, realizada em Nova York. E os reconhecimentos continuam: em 2022, a Miroh levou ouro em Seattle, nos Estados Unidos, no Northwest Chocolate Festival; já em 2023, ganhou bronze novamente no International Chocolate Awards.
“Trabalhar com as amêndoas de Linhares é uma experiência espetacular. Fiz uma triagem até chegar ao perfil do cacau SJ02, que compro aqui, e que agrada muito aos clientes. As amêndoas de Linhares não perdem em nada para as que compro de outros países”, afirma Ricardo.
Ele lembra também que, em 2022, quando venceu o ouro em Seattle como melhor chocolate ao leite, competiu com chocolates bean to bar do mundo inteiro. Já no International Chocolate Awards 2025, disputou com produtores de outros 14 países.
Ana Ruzzarin, da Cocolateria Negro Doce, de Caxias do Sul (RS), também acumula troféus com chocolates feitos a partir do cacau linharense. Assim como Ricardo, ela pesquisou o mercado antes de escolher seu fornecedor e chegou à Fazenda São Luis.
“O cacau de Linhares é muito bom, tem um sabor forte e um aroma inigualável. É uma amêndoa rica, com características marcantes que contam a história de um povo. O cacau de Linhares colocou Caxias do Sul na rota dos melhores chocolates do mundo”, destaca Ana Ruzzarin.
Em 2022, a Negro Doce levou bronze com o chocolate 50% ao leite de coco em Londres; em 2023, ficou em 3º lugar no mundial na Alemanha; e em 2024, conquistou bronze com um blend de amêndoas de Linhares, Bahia e Pará.
Para Emir, ver chocolates feitos com suas amêndoas ganhando o mundo é motivo de alegria.
“É a sensação de que o trabalho está sendo bem realizado, de que tratamos nossas amêndoas com cuidado e dedicação. Produzimos um produto de excelência, que está nos permitindo conquistar reconhecimento internacional. Isso nos enche de prazer e orgulho”, afirma.
Segundo ele, o sucesso das amêndoas linharenses se deve ao fato de que “o cacau de Linhares tem uma característica única e singular, que talvez venha do terroir. Por isso somos a primeira região a conquistar uma Indicação Geográfica. Isso também está ligado à cultura, ao saber fazer e, claro, ao cuidado no manejo”.
Legado
Assim como a Fazenda São Luiz, a Fazenda Guarani, em Bebedouro, da produtora Ana Claudia Milanez Rigoni, também acumula prêmios nacionais e internacionais. Em 2021, a chocolateria La Brigaderia de Paris, da França, ganhou medalha de prata no International Chocolate Awards, na etapa continental realizada na Europa, na categoria “Micro-batch – plain/origin dark chocolate bars”.
Para Ana Claudia, o segredo do sucesso está no legado de dedicação e amor pelo cacau herdado de seu pai, Laurindo Rigoni, além do manejo adequado.

“Meu pai era um engenheiro agrônomo apaixonado pelo cacau. Ele foi plantando, selecionando as melhores amêndoas e clonando para melhorar as lavouras. Nós demos continuidade. E isso inclui fazer o básico bem-feito: oferecer tudo que a planta precisa em nutrição e tratamento”, destaca.
Ela afirma ainda estar muito feliz por continuar o trabalho iniciado pelo pai.
“Meu pai era uma pessoa boa, que ajudava todo mundo. Tenho orgulho de seguir essa história e de contar aos meus filhos quem ele foi. Para mim, é motivo de muito orgulho dar continuidade ao trabalho dele.”
Com amêndoas produzidas às margens do Rio Doce, na região de Perobas, sentido Regência, a Ana Bandeira Chocolates Brasil também acumula títulos. Em 2022, levou ouro em duas categorias no Chocolate Alliance, no Northwest Chocolate Festival, nos Estados Unidos: Ao Leite (barra 60% ao leite) e Inclusão (barra Caffè Latte). Em 2023, repetiu o ouro na categoria Ao Leite.

Diferentemente dos casos anteriores, a Ana Bandeira produz chocolates com o próprio cacau colhido na fazenda da família — o chamado processo “da árvore à barra”. Alexandre Augusto de Deus Pontual, diretor da empresa, é neto de Ana Batista de Deus, que empresta seu nome à chocolateria, e de Sebastião Bandeira, cacauicultor que sempre prezou pela qualidade e, complementa o nome da marca.
“Minha família produz cacau desde os meus bisavôs. Meu avô Sebastião sempre se preocupou em produzir amêndoas da melhor qualidade possível. Quando fui estudar na Europa, percebi que, embora dominem a fabricação de chocolate, eles não entendiam de cacau. Foi aí que percebi que havia algo errado nessa história”, conta Alexandre.
Ao retornar ao Brasil, ele propôs à família transformar parte da produção em chocolate. Estudaram, se dedicaram ao aprendizado e, em 2018, começaram a desenvolver o plano de negócios. Em 2019, fizeram cursos na Bélgica e, em 2020, abriram a empresa, inicialmente apenas com vendas on-line devido à pandemia.
Hoje, a chocolateria possui lojas nos Estados Unidos e em Vitória.
“Primeiro abrimos a loja nos Estados Unidos e, em 2023, inauguramos a loja própria em Vitória. Eu não queria cair na armadilha de sempre vender para fora aquilo que temos de melhor”, ressalta.
Ciente do legado que carrega, Alexandre fala como é fazer parte dessa trajetória que une trabalho, produção, qualidade e família. “É muito gratificante trabalhar dando continuidade ao trabalho dos meus bisavós e avós. Em Linhares tem pessoas que só me chamam de ‘neto do Bandeira’. É um sentimento diferente, quando o seu trabalho envolve a sua própria história. Minha avó e meu avô são assuntos quase diariamente. Quem conversa sobre os avós no trabalho? É um privilégio trabalhar com isso”.
O peso da Indicação Geográfica
O pesquisador do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) Campus Linhares, Faiçal Gazel, que atua com inovação em produtos derivados de cacau e oferta cursos e capacitações em chocolateria, aponta dois fatores que justificam o sucesso das amêndoas linharenses.
O primeiro é o conhecimento acumulado pelos produtores.
“São décadas de experiência: como plantar, como cuidar, adubar, manejar antes da colheita e, principalmente, como trabalhar a amêndoa. Esse saber fazer, aliado à pesquisa, tem ampliado ainda mais a qualidade. Os produtores têm buscado conhecimento no mundo todo para entender onde podem melhorar. É um processo construído ao longo do tempo”, explica.
O segundo fator é a Indicação Geográfica (IG). “A IG de Linhares está fortemente associada ao terroir da região do Baixo Rio Doce, uma área de deposição sedimentar que reúne características únicas. Essas amêndoas têm um terroir sensorial mais interessante, são melhor avaliadas e possuem identidade própria.”
O cacau em amêndoas produzido em Linhares recebeu a primeira Indicação Geográfica de cacau em amêndoas do Brasil. O registro comprova a origem, a qualidade e a identidade de um produto único, resultado do clima, do solo e do trabalho de quem cultiva. O selo garante que apenas as amêndoas produzidas no município, seguindo padrões rigorosos, podem adotar o nome da região.






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