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A produção de mel no Espírito Santo alcançou 846 mil quilos em 2024, gerando um valor de R$ 12,3 milhões, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado confirma a tendência de crescimento gradual da apicultura capixaba, que tem se fortalecido com o avanço tecnológico, a diversificação dos sistemas produtivos e o aumento da demanda por produtos naturais.
Produção em alta
Nos últimos dez anos, a produção estadual de mel cresceu 3,9%, enquanto o valor da safra subiu 68,4% — reflexo da valorização de produtos apícolas e do aumento das exportações. Em 2014, o Espírito Santo produziu 813,9 mil quilos, movimentando R$ 7,3 milhões. Após uma queda em 2016, o setor retomou o ritmo de crescimento e atingiu, em 2024, seu maior valor de produção da série histórica.
O desempenho é atribuído à capacitação técnica dos apicultores e incentivo ao manejo sustentável, fatores que garantem maior produtividade e qualidade do mel capixaba.

Municípios líderes
Os principais polos apícolas do estado estão distribuídos entre a faixa litorânea e a região Serrana, com destaque para Aracruz, Fundão e Marechal Floriano, responsáveis pelas maiores produções em 2024. Aracruz liderou com cerca de 90 mil quilos, seguido por Fundão (81,8 mil quilos) e Marechal Floriano (80 mil quilos).
Na sequência aparecem Domingos Martins (51,4 mil kg), São Mateus (50 mil kg), Colatina (38 mil kg), São Domingos do Norte (37 mil kg), Boa Esperança (32,8 mil kg), São Gabriel da Palha (30 mil kg), Santa Maria de Jetibá (30 mil kg) e Santa Teresa (25,5 mil kg).
Esses municípios combinam áreas de Mata Atlântica preservada e diversidade florística, condições ideais para a produção de méis silvestres e multiflorais de alta.
Mel capixaba: desafios, sabores e a urgência de proteger as abelhas nativas
Elas são pequenas, discretas e fundamentais para a vida na Terra. Responsáveis pela polinização de grande parte dos alimentos e por manter florestas vivas, as abelhas enfrentam um declínio preocupante em todo o mundo. No Espírito Santo, um movimento crescente de meliponicultores, pesquisadores e ambientalistas têm atuado para proteger espécies nativas, fomentar a produção de mel e conscientizar a população.

A bióloga Camilla Zanotti Gallon, sommelier de mel e diretora da Associação dos Meliponicultores do Espírito Santo (AME-ES), fala dos desafios da atividade, comenta a queda no número de polinizadores e revela as curiosidades sensoriais de diferentes méis produzidos no estado — incluindo o mel da uruçu-capixaba, espécie única no mundo e ameaçada de extinção.
O Espírito Santo tem potencial para produção de mel nativo?
Tem, e muito. O estado reúne uma grande diversidade de abelhas e floradas. Hoje já existe produção de mel, própolis e derivados da cera, e estamos em crescimento. A meliponicultura ainda é uma atividade emergente, mas com enorme potencial, especialmente porque muitas espécies se destacam tanto na produção de mel quanto na polinização agrícola.
Por que as abelhas nativas são tão importantes para a agricultura?
Elas são os principais polinizadores da natureza. Além de garantir frutos, legumes e a qualidade do café — inclusive influenciando o sabor da bebida — contribuem para a regeneração de florestas. Muitos produtores já utilizam colmeias próximas a cultivos como o café para aumentar a produtividade. Estudos mostram que a polinização das abelhas melhora tanto o tamanho quanto a qualidade dos grãos.
As pessoas têm sentido falta de abelhas no campo. Elas estão realmente desaparecendo?
Infelizmente, sim. O declínio dos polinizadores é real e está ligado ao desmatamento, ao uso de agrotóxicos e às mudanças climáticas. Há países que já recorrem à polinização manual — algo caro e insustentável. Isso mostra o quanto precisamos proteger as abelhas agora.
O uso de agrotóxicos é o maior problema?
É um dos principais fatores. Muitos defensivos usados para controlar pragas também atingem abelhas. Por isso, defendemos políticas públicas e acordos entre vizinhos: combinar horários de aplicação, ajustar manejos e conscientizar para que a produção agrícola não prejudique os polinizadores. Sustentabilidade é o equilíbrio entre o econômico e o ambiental.
Como a paisagem capixaba influencia as abelhas?
O Espírito Santo é 100% Mata Atlântica. Isso nos dá uma riqueza imensa de floradas e espécies. Plantios margeados por mata se beneficiam diretamente das abelhas nativas — elas vivem tanto nas florestas quanto próximo das áreas agrícolas, aumentando a produtividade.
Existe risco causado por espécies de árvores exóticas?
Sim. Um exemplo é a espatódea (Spathodea campanulata), árvore africana muito usada em paisagismo, mas cujo néctar é tóxico para abelhas e até para pássaros. A AME-ES conduziu uma campanha baseada em estudos científicos e resultou na aprovação de leis municipais que estimulam a substituição da espatódea por espécies nativas.
Você é sommelier de mel. Como funcionam as diferenças de sabor, cor e textura dos méis nativos?
O universo dos méis nativos é tão complexo quanto o do café ou do vinho. A cor, a viscosidade, o aroma e o sabor variam conforme a espécie de abelha, a florada, o clima e a região — é o que chamamos de terroir. No Espírito Santo, por exemplo, os méis de uma mesma espécie podem ser diferentes entre o Norte quente e as montanhas frias.
A uruçu-capixaba é uma espécie única no mundo. O que torna essa abelha tão especial?
Ela só existe aqui, nas Montanhas Capixabas acima de 600–700 metros de altitude. É grande, muito produtiva e produz um mel singular. Por estar ameaçada, tem manejo controlado e projetos de pesquisa em andamento com Ufes, Ifes, Incaper e outras instituições. Houve grande perda de habitat e também tráfico ilegal de enxames no passado. Hoje, trabalhamos para conservar e reintroduzir a espécie.
Quais os maiores desafios para a meliponicultura capixaba?
Assim como qualquer cadeia produtiva, precisamos de organização e profissionalização dos criadores, manejo correto e específico para cada espécie, apoio técnico contínuo, estrutura para beneficiamento e comercialização e mais incentivo público e privado. A meliponicultura é sustentável, tem alto potencial econômico e pode fortalecer a agricultura familiar — mas necessita de apoio para crescer.
Para encerrar, qual é a principal mensagem sobre a conservação das abelhas?
As abelhas nativas são fundamentais para a biodiversidade, para a agricultura e para o equilíbrio ambiental. Quando consumimos mel de espécies nativas, valorizamos nossa biodiversidade e ajudamos a conservá-la. Precisamos levar esse conhecimento às escolas, às famílias e aos produtores rurais. Quanto mais gente entender a importância das abelhas, mais chances teremos de protegê-las.





