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O Espírito Santo registrou um aumento nas notificações de mortandade de abelhas nos últimos anos. Depois de um longo período sem registros formais, três ocorrências foram notificadas em 2023, nos municípios de Santa Teresa, Colatina e Linhares. Desde então, o número de comunicações ao Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf) tem aumentado: até 1º de setembro de 2025, o órgão já havia atendido 15 notificações, das quais 14 permitiram a coleta de amostras e seis apresentaram resíduos de agrotóxicos como agente causador da morte dos animais.
A relação entre a aplicação de agrotóxicos e a mortandade de abelhas é um tema sensível e, segundo especialistas, exige mais conscientização e cooperação no campo. Apicultor há mais de 30 anos e presidente da Associação de Apicultores de Aracruz (Apiara), Lomir José da Silva diz que o problema é real e já é sentido na rotina de quem depende das abelhas para manter a produtividade.
Ele explica que o conilon é uma cultura de polinização cruzada e depende fortemente das abelhas para garantir qualidade e aumento de produtividade. “A florada é muito rica em néctar e atrai muitas abelhas. Quando colocamos colmeias para polinização, a quantidade de abelhas na área aumenta ainda mais”, afirma.
Para Lomir, falta sensibilidade e informação aos produtores sobre o impacto do uso inadequado de defensivos agrícolas. Ele destaca que boas práticas básicas — como não aplicar produtos durante a florada ou priorizar aplicações noturnas — já reduziriam drasticamente os riscos.
“Há uma conversa sobre isso, mas é superficial. Falta orientação constante, massificada. Não adianta falar uma vez no dia de campo e depois nunca mais. O produtor faz uso dos defensivos às vezes sem necessidade, sem orientação e sem pensar que a abelha é uma parceira dele”, critica.
Engenheiro agrônomo e apicultor há mais de 40 anos, Fábio Mora Passos endossa o que diz Lomir. “Falta consciência por parte dos produtores quanto ao respeito às normas de pulverização, para que não ocorra a contaminação e a morte das abelhas. E, por outro lado, falta suporte técnico dos órgãos responsáveis por informar, mobilizar e fiscalizar”, explica Passos.
Fábio diz ainda que está acostumado a perder animais sempre que leva as abelhas para polinizar lavouras de café, o que não ocorre com a polinização em outras culturas, como no eucalipto, por exemplo. “Toda vez que coloco as colmeias em cafezais acontece a morte das abelhas; às vezes mais, às vezes menos, mas sempre morrem. Já perdi 40 colmeias de uma só vez. Acredito que a conscientização é o caminho para equilibrar apicultura e agricultura”, relata.
Lomir defende uma aproximação maior entre entidades, governo, técnicos, apicultores e produtores rurais. “A parceria é fundamental. O apicultor precisa do produtor, e o produtor precisa das abelhas. É uma relação de benefício mútuo. Mas precisa haver responsabilidade na aplicação, bom senso e mais educação no campo”, completa.
Sobre os questionamentos dos apicultores quanto à falta de fiscalização e de mobilização para orientar os produtores, o Idaf explicou, por meio de nota, que “em outubro de 2024, o órgão, em parceria com o Ministério Público do Espírito Santo, por meio do Centro de Apoio Operacional da Defesa do Meio Ambiente (Caoa) e do Fórum Espírito-Santense de Combate a Impactos de Agrotóxicos e Transgênicos (Fesciat), iniciou uma campanha de conscientização sobre a importância das abelhas e a necessidade de notificar mortandade e doenças. A iniciativa incluiu materiais educativos, ações em redes sociais e ampla divulgação na imprensa”.
A nota informa ainda que o órgão possui uma gerência de educação sanitária e ambiental que realiza ações rotineiras em todo o Estado, como palestras em escolas e faculdades, participação em eventos agropecuários, entrega de material educativo e dias de campo com a comunidade e produtores rurais.

Como proceder em caso de mortandade das abelhas
O Idaf reforça aos apicultores a obrigatoriedade de informar ao órgão a mortandade de abelhas — ou ainda a suspeita de doenças nesses animais — com a maior rapidez possível, já que o tempo é decisivo para a coleta de amostras válidas. Esse procedimento, segundo o Instituto, é essencial para que o serviço oficial avalie o ocorrido e, se necessário, adote as medidas sanitárias preconizadas para o controle.
Ao receber uma notificação, uma equipe inicia a fiscalização na propriedade para descartar doenças ou pragas de notificação obrigatória, conforme normas do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA). Somente após essa etapa é feita a coleta de abelhas para análise de multirresíduos de agrotóxicos, quando os critérios técnicos são atendidos.
Quando o laudo comprova que a morte foi causada por intoxicação por defensivos agrícolas, um fiscal é designado para apurar as condições locais, na tentativa de identificar o possível produtor rural que deu causa à intoxicação dos animais e orientar produtores e apicultores. Porém, de acordo com o Idaf, em muitos casos, a identificação do responsável pela aplicação irregular é dificultada pela falta de informações precisas. Quando o órgão identifica o infrator, ele é autuado. A multa pode chegar a R$ 23 mil.
Para notificar o Idaf, acesse o e-Sisbravet ou procure o Idaf em seu município.
Boas práticas
No período da florada do café, o processo de polinização é mais intenso; por isso, é importante evitar a aplicação e redobrar os cuidados. O Idaf orienta que os produtores observem alguns itens para evitar a contaminação, como, por exemplo: seguir as orientações do rótulo, da bula e da receita agronômica, fazer a aplicação somente se as condições climáticas estiverem favoráveis e evitar aplicar os defensivos em horários de visitação das abelhas.





