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O Pacífico Equatorial voltou ao radar dos meteorologistas. Um relatório do Climate Prediction Center, o Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos, ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica do país, aponta que o El Niño deve se formar em 2026 e pode ganhar força entre o fim do ano e o início de 2027. O documento indica que, no trimestre de novembro de 2026 a janeiro de 2027, há chances praticamente iguais, de 25%, para um El Niño moderado, forte ou muito forte.
A previsão reacende a comparação com o El Niño de 2015/2016, um dos eventos mais intensos já observados desde 1950. Em estudos científicos, o episódio aparece entre os três mais fortes do registro histórico, embora não tenha sido considerado, de forma inequívoca, o maior de todos. Por isso, ele costuma ser tratado na divulgação climática como um “Super El Niño”, expressão informal usada para eventos de intensidade excepcional.
A comparação, no entanto, exige cautela. O relatório atual não afirma que o próximo El Niño será igual ao de 2015/2016. O que existe, por enquanto, é uma probabilidade relevante de que o fenômeno alcance intensidade forte ou muito forte no fim de 2026. A intensidade final dependerá da evolução das temperaturas do oceano, dos ventos e da resposta da atmosfera nos próximos meses.
Segundo o documento, as condições de neutralidade devem predominar entre abril e junho de 2026, com 80% de chance. Já no trimestre de maio a julho, o El Niño passa a ser o cenário mais provável, com 61% de probabilidade, podendo persistir pelo menos até o fim de 2026.
Outra projeção do próprio Centro de Previsão Climática indica que a transição de La Niña para neutralidade ocorreria no curto prazo, com neutralidade favorecida até maio-julho. A partir de junho-agosto, o El Niño aparece como provável, com 62% de chance, mantendo-se como tendência até o encerramento de 2026.
O boletim mostra que a La Niña perdeu força. Entre agosto de 2025 e o início de janeiro de 2026, as águas mais frias que a média se fortaleceram em partes do Pacífico Equatorial. Desde janeiro, porém, esse resfriamento enfraqueceu gradualmente. A partir de fevereiro, águas mais quentes começaram a aparecer no extremo leste do Pacífico e, desde março, avançaram para áreas próximas à Linha Internacional de Data.
Os dados semanais mais recentes reforçam esse aquecimento. A região Niño 4 registrou anomalia de 0,5°C, a Niño 3.4 marcou 0,2°C, a Niño 3 ficou em 0,3°C e a Niño 1+2 chegou a 0,9°C. Esses números ainda não caracterizam, sozinhos, um El Niño consolidado, mas indicam mudança no padrão oceânico depois do período de La Niña.
Nas camadas mais profundas do Pacífico, o sinal também é de aquecimento. O relatório aponta que, nos últimos dois meses, as temperaturas subsuperficiais acima da média se fortaleceram no Pacífico Equatorial centro-leste e leste. Esse calor acumulado abaixo da superfície pode alimentar a evolução do fenômeno, caso seja transferido para a superfície e combinado com mudanças persistentes nos ventos.
O El Niño de 2015/2016 serve como referência porque teve forte aquecimento no Pacífico e impactos globais expressivos. Segundo artigo publicado no Bulletin of the American Meteorological Society, o evento esteve entre os mais fortes desde 1950, rivalizando com episódios históricos como os de 1982/1983 e 1997/1998. O estudo também destaca que o evento de 2015/2016 teve características próprias: o aquecimento foi mais marcante no Pacífico centro-oeste, enquanto o Pacífico leste ficou relativamente menos aquecido do que em outros grandes episódios.
Essa comparação exige mais estudos e dados, porque eventos de El Niño não são todos iguais. Segundo a agência dos Estados Unidos, estudos climáticos diferenciam episódios em que o aquecimento mais intenso ocorre no Pacífico central daqueles em que ele se concentra no Pacífico leste. Essa diferença na localização das anomalias de temperatura da superfície do mar pode alterar a resposta da atmosfera e os padrões de chuva. Por isso, mesmo que o El Niño previsto para 2026/2027 alcance intensidade forte ou muito forte, ainda não é possível afirmar que ele terá o mesmo comportamento do evento de 2015/2016.
No Brasil, os efeitos típicos do El Niño incluem maior risco de seca nas regiões Norte e Nordeste e aumento da chuva na Região Sul. O Cemaden, órgão federal responsável pelo monitoramento de desastres naturais, também aponta que episódios do fenômeno podem favorecer extremos de temperatura, escassez hídrica, quebra de safras, redução de reservatórios, impactos na geração de energia e dificuldades para a navegação fluvial.
O órgão destaca ainda que condições de seca combinadas com ondas de calor aumentam o risco de incêndios em pastagens e florestas, especialmente em áreas do Sudeste e do Centro-Oeste. Já no Sul do Brasil, o excesso de chuva eleva a possibilidade de inundações, enchentes e deslizamentos de terra, com impactos também sobre a agricultura.
No episódio de 2015/2016, a Amazônia foi uma das regiões mais afetadas. De acordo com nota técnica do Cemaden, queimadas e incêndios atingiram aproximadamente 37.043 km² na região durante o período, sendo 20.049 km² em 2015 e 16.994 km² em 2016. O documento aponta que a área de florestas afetadas por incêndios superou os demais anos entre 2003 e 2014.
Caso o El Niño previsto para 2026/2027 se confirme com intensidade forte ou muito forte, o Brasil poderá voltar a enfrentar um cenário de maior atenção climática. No Norte e no Nordeste, o principal risco tende a ser a redução das chuvas, com reflexos sobre abastecimento, agricultura, rios e incêndios. No Sul, o alerta costuma se concentrar no aumento da chuva e na possibilidade de eventos extremos. No Centro-Oeste e no Sudeste, o comportamento pode variar, mas calor acima da média e irregularidade das chuvas são pontos de atenção.
Ainda assim, não é correto afirmar que o próximo El Niño será uma repetição do evento de 2015/2016. O relatório dos Estados Unidos aponta uma chance expressiva de intensidade elevada, mas não confirma um “Super El Niño”. A diferença entre previsão e confirmação é decisiva: o fenômeno está em formação provável, mas sua força real só poderá ser medida com a evolução do Pacífico ao longo dos próximos meses.
Por enquanto, o sinal mais importante é de preparação. A La Niña chegou ao fim, o Pacífico está em fase neutra e os modelos indicam provável formação de El Niño ainda em 2026. Se a projeção de intensidade se confirmar, o país terá de acompanhar com atenção os riscos para agricultura, energia, abastecimento, defesa civil e manejo do fogo.





