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A produção de abacaxi no Espírito Santo registrou leve crescimento em 2024, mantendo a tendência de estabilidade observada na última década. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sistematizados pela Conexão Safra, o estado colheu 44,7 milhões de frutos em 2024, volume superior ao de 2023 (43,8 milhões). A área colhida permaneceu em 2.250 hectares, nível praticamente constante desde 2014.
A série histórica mostra oscilações moderadas na produção ao longo dos anos, com picos em 2014 (50 milhões de frutos) e 2019 (50,3 milhões). O rendimento médio em 2024 chegou a 19.888 kg/ha, acima do registrado em 2023 (19.505 kg/ha), mas ainda abaixo dos melhores resultados da década, como os 21.932 kg/ha de 2014.
O comportamento estável indica um setor consolidado, com cadeias produtivas regionalizadas e forte especialização territorial — uma característica marcante da fruticultura capixaba.
Concentração regional
A produção permanece altamente concentrada no Litoral Sul. Marataízes lidera com ampla vantagem e respondeu por 58,05% do total estadual em 2024, com 25,9 milhões de frutos. Presidente Kennedy aparece em seguida, com 29,50% (13,2 milhões). Juntos, os dois municípios foram responsáveis por quase 88% de todo o abacaxi colhido no Espírito Santo.
Na sequência, surgem Itapemirim (7,54%), São Mateus (2,10%) e Jaguaré (1,04%). O cenário reforça a vocação produtiva da faixa mais costeira do estado, impulsionada por clima favorável, tradição agrícola e infraestrutura voltada à fruticultura tropical.
Nova geração de Jupi
As pesquisas em torno do abacaxi também avançam. Pesquisadores do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) estão desenvolvendo mudas de abacaxi da variedade Jupi com maior resistência à fusariose, doença fúngica que compromete produtividade e qualidade no principal polo produtor da fruta no estado, que é Marataízes.
A iniciativa, coordenada pelo professor Luiz Flávio Vianna Silveira, do Campus Alegre, integra o programa Fortalecimento da Agricultura Capixaba (FortAC) e tem como meta revitalizar uma variedade tradicional e muito apreciada pelo sabor doce.
A fusariose é um problema recorrente na região, causando perdas expressivas e levando produtores a buscar mudas de outros estados, especialmente da Bahia. Essa prática, embora necessária diante das infecções, ameaça descaracterizar o perfil produtivo local. O projeto do Ifes propõe uma solução baseada em sanidade, rastreabilidade e autonomia.
Seccionamento de caule
Para combater a doença, os pesquisadores utilizam a técnica conhecida como seccionamento de caule. O método consiste em selecionar plantas matrizes aparentemente sadias, retirar todas as folhas e cortar o caule longitudinalmente para identificar qualquer sintoma da fusariose. As partes realmente livres do fungo são então desinfetadas e colocadas em canteiros de areia, onde permanecem até emitirem brotações de aproximadamente 2 centímetros.
Em seguida, as brotações são transferidas para sacolas com substrato e conduzidas até atingirem cerca de 25 centímetros de altura — estágio em que as mudas podem ser levadas a campo com segurança.
A estratégia alia inovação e fortalecimento territorial. Ao recuperar a sanidade da variedade Jupi, o Ifes busca restabelecer uma identidade produtiva associada ao Litoral Sul Capixaba, garantindo competitividade e continuidade à cultura.

Tecnologia capixaba redefine o calendário do abacaxi
Uma inovação desenvolvida pelo Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) promete mudar a lógica de produção do abacaxi no Espírito Santo. A pesquisa, conduzida pela agrônoma Sara Dousseau Arantes, apresenta uma solução para um dos principais entraves da cultura: a floração natural desuniforme, que compromete o planejamento da colheita e reduz a rentabilidade dos produtores.
A tecnologia utiliza a aviglicina (AVG), substância capaz de inibir a produção de etileno — o hormônio vegetal que desencadeia a floração. Aplicada no momento adequado, antes do inverno, a AVG permite ao produtor controlar quando a planta floresce e, consequentemente, escolher a melhor janela de mercado para ofertar os frutos.
Segundo Sara Dousseau, o estudo nasceu da necessidade de evitar a concentração da floração entre junho e agosto, período em que a natureza interfere diretamente no ciclo da cultura. O resultado são colheitas irregulares, estoque desordenado e queda nos preços, já que a maior parte da produção chega ao mercado entre novembro e janeiro. “Com essa tecnologia, foi possível ajustar o manejo do abacaxizeiro para produzir frutos com qualidade nas épocas de melhor preço para os agricultores”, explica.
Resultados do estudo
Realizado entre 2019 e 2020, em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o experimento ocorreu na Fazenda Experimental do Incaper em Sooretama, no norte do Estado — uma das regiões mais tradicionais na produção do fruto. O trabalho testou as cultivares ‘Pérola’, amplamente usada por agricultores familiares, e ‘Vitória’, desenvolvida pelo próprio Incaper e resistente à fusariose.
A aplicação correta da aviglicina apresentou taxa de inibição de até 80% da floração natural, permitindo a indução artificial no momento mais estratégico. Isso abriu espaço para colheitas entre abril e junho, fase historicamente marcada por preços mais elevados.
O estudo aponta que a dose de 100 mg/L de AVG é suficiente para oferecer controle sem prejudicar o desenvolvimento das plantas nem a qualidade dos frutos. Concentrações mais altas ampliaram o período de controle, mas causaram fitotoxicidade, reduzindo crescimento e massa dos abacaxis — o que reforça a necessidade de manejo preciso e acompanhamento técnico.
Planejamento e assistência são decisivos
Controlar a floração é também uma ferramenta para escalonar a produção ao longo de todo o ano, reduzindo riscos e ampliando a previsibilidade dos cultivos. No entanto, ainda existem desafios. A aviglicina não possui registro específico para o abacaxi no Brasil, e os produtores precisam adquirir a substância na forma pura, preparando a solução de aplicação. “É um processo que exige conhecimento técnico, protocolos de segurança e acompanhamento profissional”, destaca a pesquisadora.
A tecnologia, porém, é considerada acessível para a agricultura familiar. A dose recomendada tem baixo custo relativo, desde que acompanhada de boa assistência técnica, especialmente no que diz respeito à diluição correta, cronograma e condições climáticas.
O Incaper mantém estrutura de orientação por meio de seus Escritórios Locais de Desenvolvimento Rural, onde engenheiros agrônomos e técnicos agrícolas capacitados oferecem suporte a agricultores interessados em adotar a prática.





