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*Foto: Leandro Fidelis (*As imagens têm direito autoral)
Matéria publicada originalmente 27/09/2021
Vacas tratadas a “pão de ló” para garantir mais leite e queijos com fórmula francesa. Referência há 21 anos em frangos e suínos criados sem adoção de insumos químicos, a Estação Agroecológica Domaine Île de France, em Domingos Martins, na região serrana capixaba, adota uma dieta especial como parte dos investimentos que colocam a unidade como pioneira em leite orgânico no Espírito Santo.
Além do capim e do farelo de soja e milho, as seis fêmeas da raça Jersey consomem uma torta que é um luxo, feita com casca de laranja, e a planta ora-pró-nobis, incluída como alimentação alternativa nessa alta de preço dos principais insumos, tudo para melhorar a qualidade do leite.
A Domaine representa o Estado no projeto “Observatório do Leite Orgânico”, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que realiza o mapeamento e a caracterização dos sistemas de produção no país, catalisando informações sobre esse modelo de produção com cada vez mais adeptos no setor produtivo.
O empresário Joaquim Ferreira Silva Filho (66) obteve a certificação orgânica da IBD em 2002. Nesta última iniciativa, por conta da produção diferenciada de leite, alega que foram quase cinco anos aguardando a autorização sanitária para iniciar a atividade. A “burocracia” do órgão sanitário estadual para implantar o sistema impediu, inclusive, investir em um rebanho maior de vacas Jersey, conta Joaquim. No entanto, ele pretende triplicar a produção no próximo ano de olho no aumento da demanda local.
Pastejo rotacionado
Dessa forma, a fazenda mantém as vacas em pastejo rotacionado, cada uma produzindo média de 13 litros de leite por dia. Dos 21 alqueires da propriedade composta por 60% de mata atlântica, um alqueire é dedicado à pecuária leiteira. “Aqui os animais ficam soltos e é a natureza que manda na produção. Nosso laticínio é mínimo, atendemos somente sob encomenda na nossa loja em Vitória. Já recebi proposta de uma grande indústria, mas a produção ainda é incipiente”, diz Joaquim Silva, atual vice-presidente da Associação Brasileira de Orgânicos (Brasilbio).
O leite orgânico é matéria-prima para os produtos da marca de lácteos Vrai (“verdade”, em francês). A Domaine fabrica queijos do tipo Minas, Frescal e Tomme, além de bebidas lácteas e iogurtes. Assim, mensalmente, são produzidos 400 litros de lácteos por mês, vendidos na loja da Estação Agroecológica e na Enseada do Suá, na capital capixaba.
Além disso, o complexo da Estação Agroecológica conta com restaurante, pousada e mirante. A Domaine Île de France é a primeira fazenda do Brasil na criação de frango orgânico e única do Espírito Santo com ovos produzidos neste sistema, e também investe em cogumelos Shitake. A produção do fungo é de 150 kg por semana e será certificada em 2022. Todos os empreendimentos estão sendo incrementados para fomentar o turismo rural e são um convite para conhecer o sistema orgânico nas montanhas.

José de Paula Souza, o “Zezão” (63), é funcionário da Domaine.
Otimismo na produção de leite orgânico
O empresário Joaquim Silva está otimista com a contribuição da Embrapa por meio do Observatório do Leite Orgânico. “O projeto vai estabelecer o novo marco da produção de leite orgânico do Brasil. Minha expectativa é positiva e espero que possa beneficiar outros parceiros orgânicos”, ressalta.
O Observatório irá reunir, em uma única plataforma, dados e informações sistematizadas sobre a cadeia agroalimentar do leite orgânico. Assim, a expectativa é realizar uma ampla caracterização e monitoramento territorial das fazendas de leite orgânico, com dados sobre o tamanho do rebanho, produtividade, ambiente e avaliação da eficiência dos sistemas. Além disso, a plataforma conterá dados sobre fornecedores de insumos como grãos e sementes orgânica e medicamentos.
A produção de leite orgânica é diferenciada, principalmente por não adotar insumos químicos e pela dificuldade em adquirir bioinsumos. Então, o Observatório fará uma intermediação entre os elos da cadeia produtiva, com informações sobre canais de distribuição e circuitos de comercialização.
Mas, na elaboração da pesquisa da Embrapa, foram destacados o pouco conhecimento em manejo orgânico e a falta de consultoria técnica especializada, além da necessidade de se reduzir a burocracia do processo de certificação, com maior clareza das normas e menor custo. Assim, entre os principais desafios identificados, destacam-se a dificuldade de comercialização da produção, além da escassez e alto preço dos insumos orgânicos, como milho e soja.
Aumento da oferta
De acordo com Fernanda Machado, pesquisadora da Embrapa Gado de Leite, embora a produção de leite em sistemas orgânicos represente um percentual muito pequeno em relação à produção total de leite, o Brasil apresenta condições técnicas e ambientais para o aumento da oferta de leite e derivados orgânicos.
Ela alerta que aspectos mercadológicos, relacionados à disponibilização de insumos, comercialização da produção, demanda por assistência técnica especializada, além questões burocráticas relacionadas à certificação podem limitar esta oferta. “Os desafios dos atores da cadeia produtiva são grandes e o Observatório surge como uma ferramenta para vencê-los”, conclui. (*Com informações da Embrapa)





