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Edneia e José Braz Ortelan não precisam provar o café para perceberem se alguma coisa saiu do caminho. Dentro da estufa, eles observam a cor dos grãos, sentem o aroma liberado durante o processamento e acompanham a secagem como quem aprendeu a reconhecer, nos pequenos sinais, o resultado de um trabalho feito durante meses. Uma fermentação inadequada, uma demora no revolvimento ou umidade acima do ponto podem comprometer a qualidade de toda a produção.
“Na prática, apenas ao observar, entrar na estufa ou sentir o aroma do café no processo de despolpa, já conseguimos identificar se há algo errado ou se o procedimento foi realizado corretamente”, conta Edneia.
O conhecimento não veio de manuais. Foi construído no trabalho diário, em uma propriedade rural de Santa Teresa, na região serrana do Espírito Santo. Ali, cada lote de café carrega uma história iniciada antes do casal, de seus filhos e dos equipamentos usados atualmente na produção.
O café é cultivado pela família há mais de um século. A trajetória atravessa cinco gerações, desde João Ortelan, avô de José, até Mariana, neta do casal, que ainda não completou dois anos e já vive no mesmo sítio onde seus antepassados trabalharam, formaram famílias e encontraram sustento. “A nossa produção de café é centenária, uma tradição que vem desde o meu avô”, diz José Braz.
Entre uma geração e outra, o lugar precisou mudar para permanecer. A produção convencional deu espaço aos cafés especiais. Uma estufa foi construída, equipamentos foram comprados, os filhos estudaram Agronomia e um deles voltou definitivamente para trabalhar com os pais. O que antes era uma propriedade conduzida por um casal que temia envelhecer sem sucessores passou a incorporar conhecimento técnico, venda direta e uma marca própria.
A experiência da família Ortelan mostra que a continuidade de uma propriedade rural não depende apenas de transmitir a posse da terra. Exige renda, estrutura, conhecimento, participação dos filhos e capacidade de transformar uma atividade antiga em um negócio que também faça sentido para uma nova geração.
Esse desafio vai além dos limites do sítio. O Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) tem ampliado estudos sobre juventude rural e projetos de vida diante das dificuldades de sucessão nas propriedades capixabas. O estado possui cerca de 150 mil jovens vivendo no meio rural, segundo o instituto. Pesquisas na área apontam que autonomia, formação profissional e participação nas decisões influenciam a permanência dos sucessores na atividade agrícola. Na família Ortelan, a sucessão começou a tomar forma quando os filhos deixaram o sítio para estudar.
Uma história ligada à terra
A memória mais antiga reconstruída pela família chega a João Ortelan, avô de José Braz. Ele era casado com Ana Passamani, que morreu em decorrência de complicações no parto do filho caçula, Ervídio Ortelan, pai de José.
João ficou viúvo com quatro filhos, entre eles o recém-nascido. Mais tarde, casou-se novamente e teve outros três. A segunda esposa assumiu a criação das sete crianças, reunindo os filhos das duas uniões em uma mesma família sustentada pelo trabalho rural.
Pioneira na imigração italiana
A trajetória da família ocorreu em um município cuja formação também está ligada à ocupação da terra por imigrantes. Os primeiros grupos vindos do norte da Itália chegaram ao Espírito Santo em 1874. Parte deles se estabeleceu no Núcleo Timbuí, que daria origem a Santa Teresa. A distribuição de lotes realizada em 26 de junho de 1875 tornou-se um dos marcos históricos do município. Em 2018, a Lei Federal nº 13.617 reconheceu oficialmente Santa Teresa como pioneira da imigração italiana no Brasil.
Foi naquele território montanhoso, marcado pela agricultura familiar, que o café se manteve como fonte de renda ao longo das décadas. Atualmente, Santa Teresa produz tanto arábica quanto conilon. O município ocupa a 12ª posição estadual na produção de arábica e a 15ª na de conilon, segundo dados do Incaper.
Voltemos à história de José. Ele cresceu dentro dessa rotina e continuou no cultivo depois de se casar com Edneia. Em outubro, o casal completará 38 anos de união. Durante quase todo esse período, os dois trabalharam diretamente na lavoura.
Enquanto os filhos estudavam, eram eles que administravam os serviços do sítio. Plantavam, colhiam, selecionavam os grãos e acompanhavam a comercialização. O tamanho reduzido da propriedade limitava a escala, mas também permitia que a família controlasse de perto as etapas da produção.
“Desde que nos casamos, sempre trabalhamos com a cafeicultura. Eu e meu esposo cuidamos de tudo, desde o plantio até os cuidados pós-colheita”, afirma Edneia.
A decisão que mudou a produção
A transformação começou por volta de 2011. Técnicos da Nater Coop que acompanhavam a propriedade identificaram qualidade nos grãos produzidos pela família, mesmo quando o café ainda era comercializado como produto convencional.
José já era cooperado havia aproximadamente uma década. As visitas técnicas e o Prêmio Pio Corteletti, concurso promovido pela cooperativa para avaliar cafés de seus associados, aproximaram o casal do mercado de especiais.
“A parceria com a Nater Coop é fundamental. Foi lá que tudo começou”, afirma José.
Segundo ele, o incentivo técnico ajudou a família a enxergar uma possibilidade que ainda não fazia parte da rotina da propriedade.
“Os técnicos sempre visitavam a nossa propriedade e, ao observarem o nosso manejo, comentavam que nossos grãos eram muito bons e nos incentivavam a produzir cafés especiais”, relata.
O estímulo trouxe um problema prático. Produzir café especial exigia mais do que separar os melhores grãos no fim da colheita. Era necessário reorganizar etapas, controlar a secagem, adquirir equipamentos e mudar procedimentos que a família repetia havia anos.
Edneia e José construíram uma estufa própria e compraram máquinas para descascar e preparar o café. O investimento foi realizado gradualmente, de acordo com as possibilidades da propriedade.
“Após esses incentivos, tomamos a iniciativa de comprar os equipamentos necessários e iniciar a produção”, conta José.
Depois da colheita, apenas os frutos maduros são selecionados. Os grãos passam pelo descascamento e seguem para a estufa como café cereja descascado. Durante a secagem, precisam ser revolvidos constantemente para reduzir o risco de fermentações indesejadas.
Em uma propriedade maior, esse processo poderia ser mecanizado e realizado em grandes volumes. No sítio dos Ortelan, o trabalho permanece ligado à presença diária da família.
“Como a nossa propriedade é pequena e a produção não é muito grande, conseguimos realizar o processo de secagem na nossa própria estufa. O trabalho exige muita atenção”, explica Edneia.
A participação dela não se resume a uma ajuda ocasional. Edneia acompanha a produção, identifica alterações nos lotes e atua nas decisões da propriedade. Seu relato também expõe uma parte do trabalho rural que nem sempre aparece nas estatísticas ou nos registros formais.

“O olhar e o cuidado feminino fazem muita diferença, principalmente nessa etapa de observação dos detalhes. Eu gosto muito desse trabalho. Sempre vivi na roça e, para mim, cuidar do café é uma terapia.”
Os resultados apareceram nas avaliações técnicas. Em 2024, José Braz Ortelan conquistou o segundo lugar na categoria conilon do Prêmio Cafés Especiais de Santa Teresa e ficou em terceiro na avaliação de sustentabilidade. Na edição de 2025, voltou ao segundo lugar entre os cafés conilon e permaneceu entre os três primeiros na categoria sustentabilidade.
Os concursos não avaliam apenas a bebida pronta. No quesito sustentabilidade, técnicos visitam as propriedades e verificam práticas relacionadas ao uso de insumos, à conservação do solo e da água, à biodiversidade e à organização do processo produtivo. Em 2024, o prêmio recebeu 59 amostras apresentadas por 35 produtores do município.
A assistência técnica também levou a família a rever a gestão de resíduos e o armazenamento de defensivos agrícolas. Com a orientação do técnico Cássio de Faria Venturini, do Incaper, o depósito desses produtos foi transferido para uma área isolada dos demais equipamentos.
Plásticos, papéis, latas e outros resíduos passaram a ser separados. O uso de defensivos foi mantido apenas quando recomendado por agrônomo ou técnico, com respeito à dosagem e ao período de carência.
“Não significa que não os apliquemos, mas trabalhamos estritamente de acordo com as recomendações. O uso desses produtos funciona como o de um medicamento. Você só deve tomar o que o médico receita, sem extrapolar a dose”, compara José.
As mudanças não eliminam os impactos ambientais da produção nem tornam a propriedade isenta de riscos. O uso de defensivos permanece, ainda que reduzido e acompanhado tecnicamente. A sustentabilidade, naquele sítio, não aparece como uma condição já alcançada, mas como uma sequência de ajustes que ainda depende de trabalho, investimento e fiscalização.
A volta do filho
Durante anos, a principal incerteza da família não estava na lavoura. Edneia temia que, com o envelhecimento do casal, a propriedade deixasse de produzir. Os equipamentos poderiam perder a utilidade, e o sítio que sustentou gerações corria o risco de ficar sem alguém disposto a assumir a atividade.

José e Edneia decidiram que os filhos deveriam estudar antes de escolher se permaneceriam na propriedade. Bruno, o mais velho, e André, o caçula, formaram-se em Agronomia.
“O nosso primeiro desejo era que eles estudassem e tivessem uma formação acadêmica. Ambos cumpriram esse objetivo”, afirma José.
Bruno casou-se, teve uma filha e permaneceu morando no sítio. A presença dele e da pequena Mariana mantém a família próxima, embora sua renda principal venha de outra atividade.
André também saiu. Depois da graduação, trabalhou durante seis meses no Rio de Janeiro. A empresa em que estava planejava transferi-lo para o sul do Espírito Santo. Ele voltava para casa apenas nos fins de semana.
Quando soube da possível transferência, perguntou ao pai se poderia regressar definitivamente ao sítio. Queria usar na propriedade o que havia aprendido durante a faculdade.
Para José, o pedido representou mais do que o retorno de um filho. “Foi uma felicidade imensa para nós. Ele disse que gostaria de praticar na propriedade tudo o que aprendeu na faculdade. Desde então, mantemos essa parceria alegre”, diz.
A volta de André não significou apenas substituir a mão de obra dos pais. Ele passou a participar da gestão, da modernização dos equipamentos e das decisões sobre o futuro do café. O conhecimento acadêmico entrou em uma rotina moldada pela experiência acumulada por José e Edneia.

“Nós temos uma excelente parceria de trabalho. Nós nos ajudamos mutuamente, e é uma grande alegria tê-lo conosco”, afirma José.
Esse encontro entre gerações é apontado por estudos sobre sucessão rural como um dos fatores que favorecem a continuidade das propriedades. A permanência tende a ser mais viável quando os jovens possuem espaço para decidir, desenvolver projetos próprios e participar da administração, em vez de ocupar apenas a posição de ajudantes dos pais.
No sítio dos Ortelan, a sucessão ainda ocorre enquanto os pais continuam ativos. Não houve uma retirada imediata de José e Edneia nem a entrega completa da gestão ao filho. Os três trabalham juntos e dividem responsabilidades em um processo gradual.
“Antes, eu me preocupava. Pensava que, à medida que fôssemos envelhecendo, nossos equipamentos e a propriedade acabariam virando sucata”, afirma Edneia. “Com o retorno do meu filho, ele está assumindo os negócios conosco, trazendo um fôlego jovem e renovando a nossa produção.”
Da cooperativa ao consumidor
A produção especial também abriu caminhos comerciais que não existiam quando José assumiu a lavoura. O café convencional continua sendo entregue à Nater Coop. Já uma parcela dos lotes de maior qualidade é beneficiada e comercializada pela própria família, por meio da marca Café Ortelan.
José é cooperado desde o início dos anos 2000. A cooperativa permaneceu como canal de comercialização do café tradicional, enquanto os especiais abriram espaço para uma relação direta com o consumidor.
“Em relação à comercialização, nós vendemos o café tradicional para a Nater Coop, cooperativa da qual sou membro desde 2001 ou 2002, somando já cerca de 20 anos de parceria”, conta.
A Nater Coop mantém há mais de uma década o Prêmio Pio Corteletti, voltado aos cafés produzidos por cooperados. A iniciativa funciona como estímulo à melhoria dos lotes e cria uma porta de entrada para agricultores que ainda comercializam a maior parte da safra como café convencional. Na edição de 2025, o concurso chegou ao 15º ano.
Para os Ortelan, o apoio técnico teve peso maior do que a premiação. Foi a presença dos profissionais na propriedade que ajudou o casal a reconhecer o potencial dos grãos e compreender quais mudanças seriam necessárias para acessar outro mercado.
“Além da Nater Coop, o Incaper de Santa Teresa sempre esteve ao nosso lado, oferecendo apoio sempre que possível. Essas duas instituições são de extrema importância em nossa jornada na cafeicultura”, diz José.
As vendas da marca própria começaram a ganhar alcance no fim de 2025. Em 2026, a família passou a utilizar também a Shopee para comercializar o café diretamente ao consumidor.
“Começamos a expandir as vendas no final de 2025. Atualmente, também estamos entregando e vendendo o nosso produto na Shopee. Começamos a utilizar essa plataforma este ano e acredito que estamos avançando bem”, afirma.
A entrada em plataformas digitais amplia o mercado, mas ainda não resolve as limitações de uma produção pequena. Embalagem, divulgação, logística e entrega passam a integrar uma rotina que antes terminava quando o café era vendido à cooperativa.
José pretende elevar gradualmente a participação dos especiais até que eles representem cerca de 80% da produção da propriedade. A meta depende da qualidade da safra, das condições climáticas, da capacidade de processamento e da existência de compradores dispostos a pagar mais pelo produto.
“Ainda estamos caminhando e evoluindo, mas já produzimos uma quantidade excelente de café especial. Recentemente, adquirimos novos equipamentos para melhorar ainda mais a qualidade do nosso produto”, afirma.
O sítio permanece pequeno. A rotina continua começando antes do amanhecer e, em determinados períodos da safra, termina depois do anoitecer. A produção de cafés especiais não reduziu o trabalho. Ao contrário, acrescentou etapas, controles e responsabilidades. O que mudou foi a possibilidade de obter maior valor com uma área limitada e construir um negócio capaz de interessar à geração seguinte.
“Nós tentamos fazer sempre o melhor. Acredito que, quando procuramos fazer o melhor, estamos buscando o melhor para nós mesmos. Por isso, nosso foco não está na grande quantidade, mas sim na qualidade em primeiro lugar”, afirma José.
Na estufa, Edneia ainda revolve os grãos e observa cada alteração. José acompanha a lavoura e planeja novos investimentos. André aplica no sítio o conhecimento que buscou fora. Bruno volta para casa depois do trabalho, enquanto Mariana cresce a poucos metros das plantações.
A menina ainda não sabe se seguirá a história da família. A sucessão rural não é uma obrigação que possa ser imposta a cada descendente. No sítio dos Ortelan, porém, ela deixou de ser apenas uma preocupação com o futuro. Tornou-se uma escolha possível.






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