Cenário incerto

Safra de conilon frustra expectativa de recorde e produtores relatam perdas de até 40% no norte do Espírito Santo

Colheita de 2026 era esperada como superior à supersafra do ano passado, mas cafeicultores apontam quebra em lavouras, atraso na maturação e preocupação com qualidade e renda

Safra conilon
Foto: reprodução/ arquivo Conexão Safra

A safra 2026 de café conilon começou sob forte expectativa no Espírito Santo. Depois de um ciclo considerado de alta produção em 2025, o mercado esperava uma nova colheita volumosa, com possibilidade de superar o resultado anterior. No campo, porém, a percepção de parte dos produtores é diferente. Com o avanço da colheita, relatos vindos principalmente do norte capixaba apontam queda de produtividade, atraso na maturação dos frutos e preocupação com a renda da atividade.

O cenário ainda não está fechado, já que a colheita segue em andamento. Mesmo assim, produtores de municípios importantes para o conilon relatam perdas relevantes em relação ao ciclo anterior. Em algumas áreas, a quebra estimada gira em torno dos 40%, segundo especialistas e cafeicultores ouvidos pela reportagem.

Para Marcus Magalhães, presidente do Sindicato dos Corretores de Café do Estado do Espírito Santo e especialista em mercado do agronegócio, a diferença entre o que era projetado e o que começa a aparecer nas lavouras já mudou o humor do setor.

“Na realidade, existia uma expectativa muito grande do mercado de que o Espírito Santo realmente colheria na safra 2026 mais do que na última. Mas em algumas regiões produtoras está havendo uma quebra de safra que pode chegar a 20%, 30%, até 40%, principalmente no norte do Espírito Santo. No sul do estado não há essa realidade, mas no norte capixaba e no sul da Bahia há uma clara frustração dos produtores com relação à safra”, afirma.

Em Vila Valério, o produtor e prestador de serviço de secagem e pila de café Henrique Müller acompanha a colheita tanto na propriedade da família, localizada na divisa entre Vila Valério e Jaguaré, quanto entre clientes atendidos na região. Segundo ele, a redução é percebida de forma generalizada.

“A quebra tem ficado acima de 40%, chegando a 50% em alguns casos, segundo relatos de nossos clientes. Achavamos que teríamos queda de 30% nossa lavoura, mas já estamos estimando chegar aos 40%. Observamos que todas as lavouras têm quebra em relação a 2025. O produtor que tem lavoura nova produzindo este ano talvez aproxime do que produziu no ano passado. Mas se for na mesma lavoura, com plantas mais velhas, tem quebra. Na verdade, não conheço aqui na região alguém que irá produzir a mesma quantidade do ano passado, mesmo com lavouras novas”, relata.

A queda na produção tende a afetar também as decisões de manejo para o próximo ciclo. Com menos café para vender, parte dos produtores já avalia reduzir despesas no campo. “Vai ser um ano difícil. Talvez tenhamos que diminuir o investimento, principalmente com adubação. Porém, isso pode afetar a safra de 2027”, afirma Müller.

Em Rio Bananal, maior produtor de conilon do Espírito Santo, de acordo com o Anuário do Agronegócio Capixaba de 2025, produtores de diferentes localidades relatam queda acima do esperado. No Córrego Mário Freire, o cafeicultor e prestador de serviço de secagem e pila, Rodrigo Tessarolo, afirma que a perda aparece tanto nas áreas próprias quanto nas lavouras de clientes.

“As minhas lavouras têm quebra de produção. Em algumas, a queda é de 50%; em outras, até 70%. Dos nossos clientes, é a mesma coisa, uns 50%”, afirma.

Na localidade de Timirim, também em Rio Bananal, o cafeicultor Éric Saiter diz que já esperava uma redução depois da safra forte do ano passado, mas não na intensidade observada agora.

“Em relação ao ano passado, a média é de uma queda de 50%. O que vai nos ajudar um pouco é que temos lavouras novas, mas, ainda assim, no todo, a produção vai cair pela metade. A gente esperava diminuição de produção, mas reduziu bem mais do que esperava”, relata.

No Córrego São Vicente, em Rio Bananal, o cafeicultor e prestador de serviço de secagem e pila, Rafael Boldrini, cita a diferença no rendimento de áreas que, no ano passado, tiveram resultado expressivo e agora entregaram volume muito menor.

“A produção na roça está bem abaixo do ano passado. Em uma área em que, no ano passado, tiramos dez secadores, este ano tiramos dois, três. A produção está muito fraca. Em uma área nossa com seis mil pés de café, em que no ano passado colhemos 900 sacas, este ano deu 200”, afirma.

Perda geral

A frustração não se limita ao norte capixaba. O produtor Miguel Schumacher, de Pinheiros, também acompanha fazendas no sul da Bahia e relata perdas nas duas regiões.

“Hoje eu já posso dar certeza, nas fazendas que eu e meu primo cuidamos, em Pinheiros, de queda acima de 30%, podendo chegar a 40% em muitas áreas. Não está fácil. Tem áreas que têm café, que está produzindo uma quantidade razoável, mas em outros trechos está caindo. Sabemos que hoje a nossa realidade no estado não é de superprodução. O conilon, tanto no Espírito Santo como no sul da Bahia, está quebrando 30% no mínimo”, afirma.

Na avaliação da Cooabriel, maior cooperativa de café conilon do Brasil, a safra também deve ficar abaixo do ciclo anterior. O presidente da cooperativa, Luiz Carlos Bastianello, afirma que ainda é cedo para fechar um percentual, mas a tendência inicial aponta para redução na produção geral.

“A safra 2026 de café conilon deve ser ligeiramente menor que em 2025, embora ainda seja prematuro estimar o percentual dessa redução, já que a colheita está na fase inicial. Neste momento, a perspectiva é de uma redução entre 10% e 15% na produção geral, em comparação com o ciclo anterior”, afirma.

Bastianello pondera que parte da explicação está no comportamento natural das lavouras após um ano de carga elevada. Além disso, novas áreas entrando em produção ajudam a compor o volume geral, mas não necessariamente compensam o desempenho menor das lavouras mais exigidas em 2025.

“Nas lavouras que tiveram alta produção em 2025, a expectativa é de menor potencial produtivo neste ciclo, devido à bienalidade das plantas. Quando o cafeeiro produz muito em um ano, tende a não formar copa suficiente para repetir o mesmo desempenho no ciclo seguinte, o que é um comportamento natural das plantas. Cabe observar que a entrada de muitas lavouras em fase de produção contribui para elevar os números gerais para a safra 2026. Ainda assim, esse movimento não deve ser suficiente para alcançar os níveis de produção do conilon registrados no ano anterior”, afirma.

A recepção da safra na cooperativa, segundo ele, ocorre dentro do ritmo esperado. Neste ano, no entanto, a colheita começou mais tarde, acompanhando o atraso na maturação dos frutos. A tendência agora é de concentração maior da colheita em um período menor.

“Agora, a tendência é de uma maturação mais acelerada, o que pode concentrar a colheita em um período menor. E, nesse contexto, alguns produtores acabam iniciando a colheita antes do ponto ideal de maturação, o que pode representar quebra na produção”, afirma Bastianello.

Desgaste das plantas

A extensionista do Incaper e coordenadora do escritório de Rio Bananal, Laíz Oliveira, afirma que a quebra de safra passou a aparecer com mais força nas conversas com produtores à medida que a colheita avançou. Segundo ela, a expectativa inicial de uma safra grande precisa ser analisada à luz do desgaste das plantas depois do ciclo anterior.

“Alguns órgãos, como a Conab, apontaram para uma supersafra do café conilon no Espírito Santo este ano, com algo próximo de 15 milhões de sacas, um aumento de cerca de 5% em relação ao ano passado, que já foi uma supersafra. Pegando esse gancho, é importante lembrar que o ano passado já foi uma colheita muito alta, com uma carga muito pesada nas plantas, e muitas lavouras não conseguiram se recuperar bem depois disso”, explica.

A extensionista também aponta outros fatores que ajudaram a compor o quadro de frustração em parte das lavouras, especialmente na região norte do estado.

“As lavouras tiveram dificuldade, principalmente no pegamento da florada. Ocorreu uma onda de frio aqui no Sudeste, que se prolongou até meados de outubro, uma particularidade do último ano, e acabou impactando bastante em algumas áreas. Somado a isso, há problemas recorrentes, como pragas, cochonilha e broca, principalmente. Também tivemos muitos relatos de queda de café no final do ano. As lavouras velhas sofreram muito mais do que as lavouras novas”, afirma.

A extensionista destaca que ainda será necessário aguardar o fechamento da colheita para consolidar os números. Por enquanto, os relatos indicam perdas expressivas em parte das propriedades, mas com variação conforme a idade da lavoura, o manejo e a localização.

“Apesar da expectativa de uma safra grande em nível estadual, principalmente pelo aumento da colheita do café arábica, dada a bienalidade da planta, muitos produtores aqui da nossa região norte relataram que a colheita está atrasada, que o café está demorando a amadurecer no pé e quebra de produção. Em alguns casos, chegando a 25%, 30%, 40%. Cada um chega falando um número e agora precisamos aguardar o avanço e o fechamento da colheita para conseguir consolidar esses números com mais precisão”, afirma.

Qualidade dos grãos

Além do volume menor, a qualidade do café também preocupa. A colheita ocorre em um período sensível, em que chuva fora de hora e falhas na secagem podem comprometer o padrão do grão. Para Marcus Magalhães, esse risco vale tanto para o conilon quanto para o arábica.

“Um dos grandes medos do produtor, não só de conilon, mas de arábica também, é chuva na hora da colheita, porque ela macula um pouco a qualidade do café. Mesmo que ajude a planta, com relação à qualidade realmente fica comprometido, porque chuva fermenta café nos terreiros e não dá uma qualidade tão boa quanto o mercado precisa. Isso vale para conilon e para arábica”, afirma.

Segundo Marcus, a preocupação com o clima vai além da ocorrência ou não de chuva. A intensidade dos eventos climáticos tem ampliado os riscos no campo.

“As chuvas atualmente não têm sido como eram no passado, chuvas molhadeiras, chuvas produtivas. Hoje, quando chegam, chegam de forma avassaladora, com raios, trovões, granizo e ventanias. Em muitos casos, se pegam as lavouras num momento de colheita ou de florada, podem jogar café no chão e jogar as flores longe. Hoje o clima é um fator altamente imprevisível”, afirma.

Os problemas de pós-colheita também podem ter reflexo direto no produto final. Quando o café recebe umidade acima do ideal, o processo de secagem exige mais cuidado. Se for mal conduzido, pode alterar características percebidas pelo consumidor.

“Muitos produtores, às vezes, para tentar adequar a umidade que o grão pegou durante o processo de colheita com a chuva, aumentam as temperaturas nos secadores. Aí acaba ficando um café com gosto de fumaça, gosto de verde, um gosto complicado. Então, realmente, esse problema da lavoura pode chegar à xícara”, afirma Marcus.

Para ele, a percepção do consumidor tornou o controle de qualidade ainda mais importante. A perda no campo ou no pós-colheita pode afetar a aceitação do produto e o posicionamento do café no mercado.

“Eu sempre falo que um bom café é uma conjugação de um bom produto com um bom processo. Não adianta você ter um processo excelente com café ruim, e não adianta ter um café excelente com processo ruim. Quando há perda de qualidade no grão, em função de adversidades climáticas e problemas de pós-colheita, essa perda chega, com certeza, ao produto final”, afirma.

Nas gôndolas dos supermercados

No mercado, a frustração de parte da safra já entra no radar dos preços. Marcus avalia que o cenário de adversidades climáticas em regiões produtoras deve dificultar quedas no varejo ao longo de 2026.

“Esse cenário de adversidades climáticas que algumas regiões produtoras estão enfrentando já reflete nas bolsas internacionais. O mercado desenha que testou o fundo do poço e agora deve se consolidar em outro patamar, um pouco acima do que foi testado em passado recente. Ou seja, não vejo, no varejo, baixa de preço de café, muito pelo contrário. Acho que, no melhor dos mundos, os preços se mantêm e, sinceramente, não posso descartar, no decorrer de 2026, a prevalecer essa imprevisibilidade climática, novas subidas de preço no varejo outra vez”, afirma.