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Geral

Comunidade Quilombola investe em produção orgânica

por Redação Conexão Safra

em 10/09/2015 às 0h00

14 min de leitura


Os produtores de Monte Alegre em Cachoeiro de Itapemirim, encontraram nas hortaliças e na fruticultura uma boa fonte, tendo como principal base a agricultura familiar


Os alimentos orgânicos têm conquistado cada dia mais espaço nas mesas dos consumidores brasileiros e não é à toa: além de isentos de insumos artificiais como adubos químicos e os agrotóxicos, eles também estão livres de drogas veterinárias,
hormônios e antibióticos, e de organismos geneticamente modificados.

Acomunidade Quilombola de Monte Alegre, interior de Cachoeiro de Itapemirim, encontrou na produção orgânica uma boa fonte de renda, tendo como base principal a agricultura familiar. Os alimentos são vendidos na Feira Livre, realizada toda semana na sede, e para a alimentação escolar da rede municipal.

Produzir alimentos orgânicos surgiu na necessidade de impedir o êxodo rural. As propriedades da comunidade são pequenas, e com isso, é inviável o cultivo do café. Muitos moradores optaram por morar na comunidade trabalhar na cidade,
principalmente, no setor de mármore e granito. Para levá-los de volta a Monte Alegre, uma maneira encontrada pela própria comunidade foi produzir hortaliças e frutas, que são cultivadas em pequenas áreas.

De acordo com o presidente da Associação de Moradores da Comunidade Quilombola de Monte Alegre e presidente da Cooperativa da Agricultura Familiar (CAF &ndash, Cachoeiro de Itapemirim), Leonardo Marcelino Ventura, a preocupação da comunidade é estruturar a produção dos alimentos, como cerca, material de irrigação, entre outros.

“A Secretaria Municipal de Agricultura de Cachoeiro de Itapemirim é muito parceira da comunidade. Ela colocou à nossa disposição um caminhão para levar nossos produtos, tanto para a Feira quanto para outros eventos, e também para distribuir nas escolas. Pagamos uma taxa pequena, e concordo, pois acho que não tem que ser nada de graça. Além disso, são parceiros também em outros projetos, como o da construção das casas, dentro do programa ‘Minha Casa Minha Vida’ do Governo
Federal. A Secretaria de Desenvolvimento Social também nos ajuda, é muito parceira. Trabalham projetos na comunidade, visando a melhoria socioeconômica dos moradores ”, ressaltou o presidente.

O programa ‘Minha Casa Minha Vida’ beneficia 42 famílias da Comunidade Quilombola. O valor dos imóveis são de R$ 28 mil e os produtores beneficiados pagam R$ 1.200,00 divididos em parcelas de R$ 200,00 por ano. Leonardo afirmou também que a comunidade não apoia nada que seja assistencialismo, como: cesta básica, entre outros. “Não apoiamos que políticos tragam cestas básicas. A comunidade é orientada para não receber. Não podemos permitir que usem isso no futuro para fazer propaganda ”, explicou.

A comunidade possui uma agroindústria comunitária. “Hoje, duas senhoras fazem os produtos e também estão na feira. Temos várias mulheres que estão no programa da merenda escolar e como recomeçou agora, muitas já estão indo para a agroindústria para fazer os pães, biscoitos e bolos ”, finalizou Leonardo.


Orgânicos: uma fonte de renda e de vida

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O agricultor Samuel Mathias foi um dos que saiu e retornou para Monte Alegre. Mas esse não foi o primeiro caso na família. Filho de um negro e uma portuguesa, ele tem as raízes quilombolas e conta estar feliz com sua produção orgânica. “O meu pai é negro e minha mãe é portuguesa. Meu pai é nascido e criado em Monte Alegre. Ainda jovem, ele saiu para servir na Segunda Guerra Mundial e depois trabalhou por muitos anos como faxineiro na Varig, no Rio de Janeiro até retornar. Os 82 anos de vida que ele teve, com certeza viveu mais de 50 na comunidade. Minha mãe veio de Portugal com 15 anos. Seu pai comprou uma propriedade em Conceição do Castelo, que era uma área de produção de ouro. Depois de um tempo, um dos filhos ficou por lá explorando o ouro naquela região, e os outros vieram embora. Inicialmente, compraram uma terra em Cachoeiro e depois trocaram por uma propriedade na comunidade, já desmembrada da fazenda Monte Alegre. Quando meu pai voltou do Rio, conheceu a minha mãe, se casaram e ficaram aqui na comunidade. Me considero um quilombola ”, explicou o agricultor. Hoje, Mathias, como é conhecido na comunidade, trabalha em sociedade com um primo, mas trabalhou
em outras propriedades até seguir seu próprio caminho. “A única área que ganhamos um pouquinho mais é nessa de pecuária. Fiquei vários anos trabalhando em outra propriedade, só que estava produzindo para o patrão. Eu pegava R$ 1 mil no fim do mês e quando ia ver estava devendo R$ 1.100,00/R$1.200,00. Foi quando parei e comecei a observar o trabalho aqui na comunidade até montar minha horta. O primeiro ano foi devagar, o segundo foi melhorando e agora já estamos no quarto ano na Feira, além de fornecer os alimentos para a merenda escolar. A Prefeitura de Cachoeiro sempre nos dá um incentivo ”, continuou.

Mathias planta e cultiva alface, cebolinha, almeirão, chicória, taioba, salsa, couve flor e brócolis. “O orgânico não tem agrotóxicos. Aqui é água e esterco. É mais difícil produzir assim, requer cuidados, às vezes até perdemos alguma coisa. A couve, por exemplo, um descuido e quando vamos olhar, já tem uma folha perdida. Anoiteço e amanheço na horta. Tem que dar uma atenção maior, porque é daqui que está saindo a nossa renda. Cerca de 80% da renda da minha família sai da horta ”, garantiu.

“Ainda tenho que melhorar alguma coisa. Está faltando área, um pouco de tempo e maquinário. Mas, a horta dá uma renda razoável. Não sobra dinheiro, pois temos despesas, mas hoje posso falar que para mim, faça chuva ou faça sol, não importa.
Me dedico e vivo disso. Só o fato de você chegar na Feira e poder ver que as pessoas estão felizes com o produto que estamos levando, já nos faz voltar para casa felizes ”, continuou.

A rotina do produtor começa às 04h00. Como cuida da propriedade do primo, ele acorda cedo para tirar leite, depois divide o tempo com a horta e com outros afazeres. “Tem dias que não consigo ir para casa e preciso dormir por aqui, aí a esposa fica brava ”, brincou Mathias.

Ele contou ainda que molha as hortaliças duas vezes ao dia e que a média de cultivo é de 50 dias após a plantação. “Levamos tudo para a Feira. No início tínhamos receio de não conseguirmos vender, por sermos quilombolas. Mas, rompemos essa barreira e conquistamos nossos clientes ”, completou o agricultor.

Das estradas para o campo

Os agricultores Ronilso Felipe de Souza e Joacy Ferreira fizeram uma sociedade e produzem juntos, em uma horta, os alimentos orgânicos que são vendidos na Feira Livre da Agricultura Familiar de Cachoeiro de Itapemirim, e que também são repassados para a merenda escolar da rede municipal de ensino. Ronilso trabalhava como caminhoneiro e faz parte do grupo que optou por morar na Comunidade Quilombola de Monte Alegre. Ele trabalhava na sede do município. “Trabalhei no transporte escolar e viajando de caminhão. Depois que percebi que não estava tendo a renda suficiente para o sustento da família e por viajare passar dias e até meses fora de casa, o Joacy, que tinha feito um curso de orgânicos, e decidimos investir nessa área. Foi a melhor decisão de minha vida. Hoje tenho a tranquilidade de trabalhar no quintal de casa e estou junto de minha família ”, contou.


Já Joacy trabalhava em outras propriedades da comunidade. “Eu trabalhava para os outros e pensava que podia fazer isso para mim mesmo e ter meu próprio lucro. Foi quando tive o incentivo de aprender mais com os cursos. Começamos em 2010. Começamos plantando couve e cebolinha. Depois fomos expandindo ”, ressaltou Ferreira.

Depois que eles começaram a vender na Feira, surgiu a necessidade de plantar e cultivar mais variedades. “Plantamos tomate, couve flor, repolho, vagem, beterraba, cenoura. Hoje, produzimos de tudo. Nossa região não permite plantar folha o ano todo. Então, no período do verão, plantamos quiabo, jiló, mandioca, entre outros ”, explicou Ronilso.

“Mudar de atividade foi uma diferença muito grande. O Joacy já trabalhava aqui, e eu ficava 30 dias fora de casa e quase não voltava com dinheiro, por causa das despesas, sem contar os acidentes nas estradas. Hoje, não. Estou dentro de casa, saio, olho a horta e pronto ”, continuou o agricultor.

“Além da Feira e da merenda escolar, também vendemos para dentro da comunidade e estamos entregando em mercados de Cachoeiro. Produzimos tudo aqui: adubo, repelente. A compostagem é toda retirada da própria horta. Fazemos nossas mudas, e agora queremos produzir nossa própria semente. Nossa intenção é fazer para vender também as sementes para outros produtores ”, ressaltou Joacy.

De acordo com eles, não é difícil identificar os alimentos que não são orgânicos. “Insetos e ervas daninhas só dão em hortas que não têm agrotóxicos. Quando uma horta não tiver insetos, é porque não é orgânico. O produto orgânico tem um sabor diferente ”, completou Ronilso.



Cooperativa transforma a vida dos agricultores

O cooperativismo é um movimento, filosofia de vida e modelo socioeconômico capaz de unir desenvolvimento econômico e bem-estar social. Seus referenciais fundamentais são participação democrática, solidariedade, independência e autonomia. Exemplos de união e força que se transformaram em sucesso estão espalhados em vários segmentos: agropecuária, saúde, consumo, crédito, ensino e transporte.

A Cooperativa de Agricultura Familiar (CAF-Cachoeiro) surgiu com o objetivo de oferecer melhores condiç&otilde,es a esses produtores. Hoje com 65 associados, eles começaram com 50 agricultores familiares, que constituíam a chamada Associação de Agricultores Familiares de Cachoeiro de Itapemirim (Afaci).

Eles apostaram no cooperativismo com a principal ferramenta para a conquista de novas oportunidades e geração de renda. De acordo com o presidente Leonardo Marcelino Ventura, a Cooperativa é uma referência para os agricultores. “Nossa categoria era muito enfraquecida e depois que nos unimos, fomos conquistando nossos espaços. O cooperativismo não te faz pensar no individual e sim, no coletivo ”, comentou.

A CAF Cachoeiro foi fundada em 2003 e é filiada à União Nacional das Cooperativas da Agroindústria Familiar e Economia Solidária do Espírito Santo (UNICAFES), com o intuito de representar os agricultores na maioria de suas comercializaç&otilde,es, além de garantir a representação e a inserção no mercado de grupos como
assentados, quilombolas, mulheres e jovens. Além disso, a cooperativa também é responsável pela comercialização na Feira Livre da Agricultura Familiar. “Os funcionários da prefeitura recebem um tíquete-feira no valor de R$ 15,00 por semana, e eles são usados em nossa feira. Isso assegura os funcionários e nós, pequenos produtores ”, explicou Leonardo.

Segundo ele, individualmente, seria impossível acessar o mercado. &quot,Fizemos vários convênios com a Prefeitura e isso só foi possível através da Cooperativa. Sem ela, dificilmente conseguiríamos. A cooperativa nos traz esse fortalecimento ”, completou o presidente.


Tradiç&otilde,es e costumes

A estudante de biologia Sara PachecoVentura disse que a cultura de
Monte Alegre também passa pelas plantas medicinais

A estudante de biologia do CCA-Ufes, Sara Pacheco Ventura realiza uma pesquisa para a faculdade para catalogar as plantas medicinais existentes na comunidade e quais são usadas pelos moradores quilombolas. “A nossa cultura também passa pelo uso de plantas medicinais. É uma questão natural as pessoas terem no quintal essas plantinhas. Se não tem aquilo que precisam, eles recorrem a um vizinho. Esse conhecimento vai passando de pai para filho, se estendendo dentro das geraç&otilde,es. As crianças já não sabem sobre isso, e então, comecei a levar isso a eles. A cultura do uso dessas plantas ainda está bem viva ”, disse Sara.

De acordo com a estudante, o uso dessas plantas, em alguns casos, está relacionada com a religião dos africanos. “Por enquanto, estamos terminando o levantamento de todas as espécies de uso da comunidade. Geralmente, as duas plantas mais usadas são o saião e o boldo, que estão relacionadas
com doenças como resfriado ou gripe. Mas, tem outras que descobrimos, que estão relacionadas com a religião dos negros, usadas em banhos e na umbanda, religião de matriz africana que predominava aqui. Além disso, fomos descobrindo que são elementos fundamentais de remédios que usamos hoje ”, explicou.

Sara disse que a pesquisa revela que, mesmo com o uso de plantas medicinais, o usuário conhece a dosagem necessária. “Isso vem da história. Ainda vamos fazer estudos para a comprovação química das propriedades medicinais dessas plantas. A maioria já foi citada como planta medicinal em outros estudos e até mesmo pela Agência Nacional de Saúde (Anvisa), e outras não. Temos umas plantas aqui usadas de forma medicinal e lá fora, não tem valor nenhum. Um exemplo é a liga osso, uma planta que não é comum do Espírito Santo. É a primeira discrição dela aqui. Quando alguém quebra uma perna ou sofre uma torção,
faz um banho de liga osso. São coisas que respaldam a nossa pesquisa e enriquece ainda mais a comunidade ”, garantiu a estudante.

“O retorno dessa pesquisa é, principalmente, focar na escola da comunidade, nas crianças. Todo esse levantamento vai virar um material com a proposta de criar uma horta medicinal dentro do ambiente escolar e para que depois as crianças possam identificar em casa. Só vamos fazer esse retorno quando tivermos a comprovação que essas espécies realmente tem esse potencial medicinal ”, concluiu Sara.

História e cultura em Monte Alegre

O Caxambu, dança popular africana, faz parte da cultura da Comunidade Quilombola de Monte Alegre

A Comunidade Quilombola de Monte Alegre está localizada a 37 quilômetros do centro de Cachoeiro de Itapemirim. A comunidade foi formada no final do século XIX, por volta de 1888, ano da Abolição da Escravatura no país. “Aqui era uma grande fazenda, chamada Fazenda Monte Alegre, que junto com outras duas, formava a propriedade da família Amorim. O patriarca da família, José Pires de Amorim, era dono de uma fazenda chamada Fazenda Boa Esperança, que hoje é conhecida como Fazenda Cafundó. Um filho dele era dono da Fazenda Barra do Mutum, que fica aqui do lado e que produziu a cachaça Moça. E aqui, era a fazenda Monte Alegre, do outro filho. E, na fazenda Monte Alegre, como nas outras duas, tinham escravos. Quando houve a abolição em 1888, os mais de 100 escravos saíram daqui. Muitos foram para lugares diversos, não sabemos para onde foram. Meu bisavô, o Marcelino Ventura, e os irmãos ficaram no interior da fazenda. Só que o dono da fazenda não tinha mais como ficar com tantos escravos, porque a partir de então, ele teria que pagar a mão de obra .

E esses negros, com o dinheiro que já juntavam para comprar a liberdade, compraram partes da fazenda e começou então, a surgir a comunidade ”, explicou Leonardo Marcelino Ventura, presidente da Associação de Moradores da Comunidade Quilombola de
Monte Alegre.

A comunidade é composta por 150 famílias num total de 700 habitantes. A capoeira e o Caxambu – dança popular africana de letra simples e forte significação, mantém viva as tradiç&otilde,es do local. Além disso, Monte Alegre tem opç&otilde,es de caminhadas em trilhas ecológicas, onde podem ser observados árvores nativas e a observação de nativas e aproximadamente 300 aves silvestres.

“Temos aqui três religi&otilde,es predominantes: umbanda, catolicismo e evangélicos. Cada um na sua religião, não marcamos nada durante as reuni&otilde,es, cultos e celebraç&otilde,es para não atrapalhar o outro. Nos respeitamos e isso é fundamental. Ainda precisamos de algumas coisas, como uma estrada com acesso melhor. Tivemos muitas conquistas e queremos conquistar mais para receber os turistas ”, completou Leonardo.


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