Festival de Inverno de Guaçuí

Almir Sater prova café do Caparaó e diz: “É um dos melhores que já tomei”

Em Guaçuí, onde se apresentou no Festival de Inverno, cantor e compositor falou sobre café, pecuária, música e a relação com a terra

Foto: Agência Drop

O café do Caparaó surpreendeu Almir Sater. Acostumado a percorrer o Brasil com a música e a experimentar sabores regionais por onde passa, o cantor e compositor não economizou elogios ao provar cafés produzidos na região durante sua passagem pelo Espírito Santo. “O café daqui é dos melhores que eu já tomei”, afirmou.

A experiência foi tão positiva que ele disse ter feito encomenda para levar o produto a São Paulo, onde a família mantém um café-bistrô. Sater esteve em Guaçuí para se apresentar na oitava edição do Festival de Inverno de Guaçuí. Mas a conversa foi além do palco. Com a mesma naturalidade com que fala da viola, ele tratou da vida no campo, da pecuária, da produção rural, da liberdade conquistada com o trabalho e da relação quase espiritual que mantém com a terra.

Confira a entrevista concedida à editora da Conexão Safra, a jornalista Kátia Quedevez

Você está no Espírito Santo para um show em Guaçuí, no Festival de Inverno. A conversa passa pela música, mas também pelo agricultor, pelo pequeno produtor e por quem move o país. Essa ligação com o campo vem de onde?

É verdade. Eu sou de um lugar chamado Mato Grosso. Nasci no Mato Grosso de quando ainda era o grande Mato Grosso, antes de ser dividido em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, em uma cidade chamada Campo Grande. Então, o DNA do produtor rural já está no meu sangue. Sou produtor rural, sou pecuarista e gosto muito desse ofício. Acho que gosto mais de ser um homem da terra do que ser músico. E olha que ser músico é um negócio muito bom.

Como é a sua atividade na pecuária?

É uma atividade muito forte para mim. Eu sou criador. A gente faz cria, recria e trabalha com todo o processo. Temos uma propriedade voltada para a cria e outra para a engorda. Hoje eu consigo dizer não para show. Faço o que eu quero. E quem me dá essa liberdade é o meu ofício de produtor rural.

A pecuária vive um bom momento?

Almir Sater: A pecuária está vivendo um bom momento no Brasil. Eu gosto muito de criar. A terra ensina muito a gente. Na pecuária, se você coloca um touro sadio com uma vaca sadia, a chance de nascer um animal é muito grande. Na música não é assim. Às vezes você passa a tarde inteira tentando fazer uma canção, e a música não vem. Então, juntar as duas coisas é muito bom.

A tecnologia mudou muito a rotina do pecuarista. Você percebe isso na prática?

A pecuária procurou se intensificar. Na minha região, muitas fazendas foram sendo transformadas em agricultura, por causa do bom momento da soja e do milho. Grandes criadores arrendaram fazendas ou passaram a produzir grãos. Com isso, começou a ter menos gado. E economia é isso: quando todo mundo faz a mesma coisa, o preço cai; quando a oferta é menor do que a procura, o preço sobe.

E como você vê esse movimento hoje?

Vejo a agricultura em um momento difícil. Escuto muitos relatos de produtores com dificuldade para pagar arrendamento e financiamento. É o efeito de muita gente fazer a mesma coisa ao mesmo tempo. Já a pecuária que eu faço é meio amadorística, no bom sentido. Para competir com a agricultura, muita gente começou a intensificar demais, a colocar comida no cocho, a fazer o animal chegar ao ponto em 100, 120 dias. Isso custa muito. Eu faço uma cria tradicional. Meus animais comem capim e sal mineral. Acho que boi tem que comer capim.

Como você concilia a agenda de shows com a rotina no campo?

Em tudo existe safra e entressafra. Na música também. A minha safra musical vai de maio a novembro. Nesse período, eu me dedico mais aos shows e fico na Serra da Cantareira, onde moro com a minha família. Quando sobra tempo, vou para a fazenda. Temos pessoas muito boas que ajudam nas propriedades. Na entressafra, de dezembro a maio, eu vou para a fazenda e fico lá uns 90 dias com a minha mulher.

A pecuária permite esse ritmo?

A pecuária permite um olhar um pouco mais espaçado. Lavoura não permite. Lavoura é para profissional. A pecuária, pelo menos esse tipo que eu faço, aceita um pouco mais essa presença alternada. Se eu não olhar o gado esta semana, olho na semana que vem. Somos felizes assim.

você costuma brincar que a pecuária é melhor do que a música. É brincadeira ou tem um fundo de verdade?

É brincadeira. Na verdade, eu vivo de música. Foi a música que me deu a pecuária. Foi a música que me deu tudo que tenho. E o prazer de fazer uma música é muito maior do que o prazer de mandar um boi para o frigorífico. Não tem nem comparação.

Essa relação com os animais mudou ao longo do tempo?

Ultimamente, estou criando certa resistência a mandar boi para o frigorífico. Uma vez, um senhor me disse que a mão que toca não pode ser a mão que mata. Achei aquilo bonito, e a frase ficou martelando na minha cabeça. Depois conversei com minha mulher, com pessoas e entidades espirituais em que confio, e ouvi que eu estava produzindo comida. Mesmo assim, a frase ficou. Hoje tenho preferido vender o animal semipronto. Aí o comprador faz o que quiser com ele.

Você já conhecia os cafés capixabas?

Conhecia um pouco da área do café conilon. Agora estou nessa área do café arábica. Sou fã do café arábica, até pelo meu sangue árabe, pelas influências. Experimentei aqui em Guaçuí um café do Cacá, de vários jeitos diferentes, e todos eram muito bons. Tanto que já estamos encomendando.

O café também faz parte da rotina da sua família?

Minha mulher tem um café em São Paulo, um bistrô, meio padaria, onde eles brincam de alta gastronomia. Então, em cada lugar que a gente vai e encontra produção de café, procuramos levar um pouco para experimentar. Compramos o café em grão, cru mesmo, e torramos em casa naquelas bolas, à moda antiga. A gente se diverte com isso.

E o café do Caparaó entrou nessa lista?

Entrou. O café daqui é dos melhores que eu já tomei.

Sobre o autor Kátia Quedevez Kátia Quedevez é jornalista desde 1992 e diretora de comunicação com forte atuação no Espírito Santo. Com formação em Jornalismo e Mestrado em Administração de Empresas com foco em Inovação, ela dirige a editora Conexão Safra, uma referência na produção de conteúdo sobre o agronegócio capixaba em diversas mídias. Sua experiência profissional é versátil, abrangendo liderança comercial, produção e assessoria de comunicação nos setores público e privado, e atuação como professora universitária. Ver mais conteúdos