Mais lidas 🔥

Cotações
Café, boi e hortifrúti: confira as cotações do dia 10 de agosto

Pesquisa científica
Estudo encontra anomalias em 60,5% dos peixes analisados no norte do ES

Cafeicultura sustentável
Estudo mostra como práticas simples podem tornar cafezais mais sustentáveis

Café especial
Família de Mimoso do Sul cria linha de cafés especiais inspirada na história dos produtores

Café 2027/2028
Colheita de café chega ao fim e atenções já se voltam para a safra 2027/28

O recente relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), repercutido essa semana pelo Correio Braziliense (clique aqui e veja a reportagem completa), lança um alerta contundente à comunidade internacional: o planeta já não vive uma crise, mas sim uma falência hídrica. Segundo o documento, o esgotamento crônico de aquíferos, a degradação do solo e a poluição comprometeram de forma estrutural a capacidade de suporte dos sistemas hidrológicos em diversas regiões do mundo, muitas delas próximas — ou além — do ponto de não retorno.
De acordo com o autor principal do estudo, Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH), cerca de 70% dos principais aquíferos do planeta estão em declínio, e já não se pode falar em eventos pontuais ou transitórios. Trata-se de um estado persistente de degradação ambiental, que exige não apenas gestão de crises, mas gestão de falências, com redução de demanda, adaptação e reconstrução do capital natural.
Nesse contexto, a discussão sobre água deixa de ser setorial e passa a ocupar o centro das agendas de segurança alimentar, estabilidade econômica, justiça social e cooperação internacional. Como destaca o relatório, os impactos da escassez hídrica se globalizam por meio do comércio, dos fluxos migratórios, das cadeias produtivas e das tensões geopolíticas.
A agricultura no centro do desafio — e da solução
A agricultura é simultaneamente uma das atividades mais impactadas pela falência hídrica e uma das mais estratégicas para enfrentá-la. Em especial, sistemas produtivos que dependem diretamente do equilíbrio entre solo, água e clima passam a ter um papel decisivo na reversão — ou mitigação — dos danos ambientais acumulados.
É nesse cenário que a cafeicultura brasileira, especialmente aquela orientada por princípios de sustentabilidade e regeneração, se consolida como parte relevante da solução global. O Brasil, maior produtor e exportador de café do mundo, reúne escala, diversidade de biomas, base técnica e arranjos institucionais capazes de transformar práticas agrícolas em serviços ecossistêmicos.
Programa Café Produtor de Água: água como ativo estratégico
O Programa Café Produtor de Água, articulado pelo Conselho Nacional do Café (CNC) e em execução em cooperativas associadas à entidade, é um exemplo concreto de como a cafeicultura pode contribuir para enfrentar a falência hídrica apontada pela ONU. A iniciativa reconhece o produtor rural como guardião dos recursos hídricos.
O programa tem como objetivos a preservação das vegetações nativas e matas ciliares, a proteção de nascentes e mananciais, o plantio de árvores, a recuperação de estradas rurais e a implantação de estruturas como bacias de contenção, contribuindo para evitar erosões, o assoreamento de rios e lagos e para melhorar a infiltração de água no solo.
Ao reconhecer que os benefícios ambientais gerados no campo ultrapassam os limites das propriedades rurais e alcançam centros urbanos e industriais, o Programa Café Produtor de Água adota o princípio da responsabilidade compartilhada. Por meio do Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), os produtores são compensados pelos investimentos e pelas ações de conservação ambiental que realizam, promovendo uma distribuição mais justa dos custos e benefícios ao longo da cadeia produtiva do café.
Ao integrar manejo conservacionista do solo, recuperação de áreas degradadas, proteção de matas e vegetações ciliares e uso racional da água, o programa atua diretamente sobre os fatores estruturais que o relatório da ONU identifica como críticos: degradação do capital natural e perda da capacidade hidrológica dos sistemas.
Mais do que mitigar impactos, trata-se de reconstruir funções ecológicas, aumentando a resiliência das bacias hidrográficas e criando condições para a adaptação às mudanças climáticas.
Cafeicultura regenerativa: produzir restaurando
A cafeicultura regenerativa amplia essa abordagem ao ir além da sustentabilidade tradicional. Em vez de apenas reduzir danos, propõe restaurar solos, biodiversidade e ciclos hidrológicos, transformando áreas produtivas em paisagens funcionais do ponto de vista ambiental.
Práticas como cobertura permanente do solo, diversificação vegetal, integração com sistemas agroflorestais, uso eficiente de insumos e valorização do conhecimento local contribuem para:
- aumento da matéria orgânica do solo;
- maior retenção e infiltração de água;
- redução da erosão e da compactação;
- melhoria do microclima e da estabilidade produtiva.
Esses efeitos dialogam diretamente com as conclusões do relatório da ONU, que alerta que aquíferos compactados, áreas úmidas perdidas e solos degradados dificilmente se recuperam em escalas de tempo humanas.
Contribuição global a partir do território
Ao reconhecer que a água “transcende fronteiras políticas”, como aponta o relatório, a ONU reforça a necessidade de cooperação internacional e de exemplos concretos de sucesso. Programas brasileiros de sustentabilidade na cafeicultura demonstram que é possível alinhar produção agrícola, segurança hídrica, justiça social e mitigação climática.
A experiência acumulada pelo setor cafeeiro nacional mostra que investir em água não é custo, mas estratégia — para o produtor, para o mercado e para o planeta. Em um mundo que enfrenta a falência hídrica, iniciativas como o Café Produtor de Água e a expansão da cafeicultura regenerativa colocam o Brasil em posição de liderança, oferecendo respostas práticas a um desafio global.
Outro trabalho fundamental do CNC é a busca por garantir que o Brasil tenha acesso a recursos do Fundo Global Europeu – proposto pelo G7 -, iniciativa internacional voltada ao fortalecimento e à sustentabilidade da cafeicultura, com foco especial em investimentos em irrigação e cuidado com os recursos hídricos. As articulações começaram em 2024, durante a Assembleia da Organização Internacional do Café (OIC), em Londres, e avançaram ao longo de 2025 em fóruns internacionais e reuniões institucionais com lideranças europeias, incluindo encontros no Brasil.
O CNC defende que o país seja beneficiário estratégico dos recursos. As propostas incluem repasses a fundo perdido e linhas de financiamento subsidiadas, com possível operação financeira via Sicoob, tendo o Programa Café Produtor de Água como referência internacional de sustentabilidade e manejo hídrico.
Ao estruturar uma iniciativa com viés ambiental e econômico, o CNC e as cooperativas cafeeiras do Brasil reafirmam posição de vanguarda na promoção da sustentabilidade da cafeicultura brasileira, evidenciando a contribuição do setor para o cumprimento das metas ambientais do Brasil e para a produção responsável de café e água de qualidade, em benefício de toda a sociedade.
O programa já está em execução no Sul de Minas (Cooxupé e Minasul / Sicoob Credivar), no Cerrado Mineiro (montecCer), no Espírito Santo (OCB/ES, Cafesul, Cooabriel e NaterCoop – em parceria com o Programa Reflorestar do Governo Capixada) e, em breve estará na Mogiana Paulista (Cocapec).





