Mais lidas 🔥

Biodiversidade capixaba
Nova espécie vegetal é descoberta na região serrana do Espírito Santo

Cotações
Café, boi e hortifrúti: confira as cotações do dia 10 de agosto

Cotações
Café, boi e hortifrúti: confira as cotações do dia 07 de agosto

Cafeicultura sustentável
Estudo mostra como práticas simples podem tornar cafezais mais sustentáveis

Turismo e gastronomia
Rota das Especiarias promete movimentar o turismo em São Mateus

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) encontrou anomalias em 23 dos 38 peixes analisados no litoral norte do Espírito Santo. O índice de 60,5% é o maior já registrado em peixes costeiros no Brasil, segundo a comparação apresentada pelos autores.
Os exemplares da espécie Stellifer naso, conhecida como cabeçudo-preto ou tambor-estrela, foram coletados em maio de 2022 na foz do Rio São Mateus, próximo aos municípios de Conceição da Barra e São Mateus. O trabalho foi publicado na revista científica Ocean and Coastal Research.
As alterações foram identificadas nos otólitos sagitais, pequenas estruturas localizadas no ouvido interno dos peixes. Elas participam de funções como equilíbrio, orientação espacial e percepção sonora. Portanto, o estudo não descreve apenas deformações externas visíveis no corpo dos animais.
Os pesquisadores encontraram alterações de diferentes formas, tamanhos e níveis de complexidade. As anomalias apareceram principalmente na região central inferior dos otólitos e em uma área interna ligada à recepção dos estímulos sonoros.
O percentual supera os resultados reunidos em pesquisas anteriores realizadas no litoral brasileiro. Até então, o maior índice apresentado na literatura científica era de 27,1%, observado nos otólitos de bagres da espécie Cathorops spixii.
“Comparando com outros trabalhos similares no Brasil e também expandindo para outras regiões, o nosso trabalho teve resultado bem acima da média em quantidade de peixes com anomalias, o que possivelmente está relacionado às marcas do desastre”, afirma o pesquisador Jonas Andrade-Santos, do Museu Nacional da UFRJ.
Possível relação com o desastre de Mariana
Os autores levantam a hipótese de que a elevada incidência esteja relacionada à contaminação ambiental provocada pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, em novembro de 2015. Os rejeitos de mineração atingiram o Rio Doce e chegaram ao litoral capixaba.
O cabeçudo-preto vive principalmente em águas estuarinas e permanece próximo ao fundo, em contato com sedimentos. Essa característica pode aumentar a exposição da espécie a contaminantes acumulados ou remobilizados no ambiente marinho.
Pesquisas anteriores citadas no artigo já identificaram contaminação por metais em peixes de áreas afetadas pelos rejeitos e registraram sinais de ferro nos otólitos. Para os autores, esses resultados ajudam a sustentar a necessidade de investigar uma possível ligação com o desastre.
A relação, no entanto, ainda não foi comprovada. Não existem amostras de cabeçudos-pretos coletadas na mesma região antes de 2015 que permitam comparar a frequência das anomalias antes e depois do rompimento.
Além disso, fatores como alterações de temperatura, variações de salinidade e processos fisiológicos ou genéticos também podem interferir na formação dos otólitos. A pesquisa ainda não realizou a análise química das estruturas deformadas para identificar quais minerais estão acumulados nelas.
O estudo também não avaliou a segurança dos peixes para consumo nem investigou riscos diretos à saúde humana.
Novas análises
A equipe pretende analisar a composição química dos otólitos, procurar possíveis deformações externas nos animais e repetir as coletas nos próximos anos. O monitoramento poderá indicar se as alterações permanecem e se o ecossistema apresenta sinais de recuperação.
Os pesquisadores também defendem mais investimentos em coleções biológicas, que preservam amostras de diferentes períodos e permitem comparar mudanças ambientais ao longo do tempo.
“Mais do que um diagnóstico de contaminação, o estudo reforça a necessidade de diálogo entre a ciência e a sociedade para garantir a segurança do ecossistema e das populações locais”, acrescenta Andrade-Santos.





Comentários 0