Mais lidas 🔥

Inovação no campo
Do Espírito Santo para o mundo: cafeicultor está entre seis inventores convidados para festival no Vale do Silício

Biodiversidade capixaba
Nova espécie vegetal é descoberta na região serrana do Espírito Santo

Previsão do tempo
Vendaval coloca quase todo o Espírito Santo em alerta; veja as cidades que podem ser afetadas

Cotações
Café, boi e hortifrúti: confira as cotações do dia 10 de agosto

Cotações
Café, boi e hortifrúti: confira as cotações do dia 07 de agosto

A adoção de práticas sustentáveis no manejo das entrelinhas pode ajudar a conservar o solo, manter a umidade e aumentar a disponibilidade de nutrientes nos cafezais. A conclusão é do estudo “Soluções sustentáveis para a cafeicultura: manejo nas entrelinhas e plantas de cobertura do cafeeiro”, realizado em duas propriedades do distrito de Celina, em Alegre.
A pesquisa integra o livro “A Cafeicultura do Caparaó: Resultados de Pesquisas IX”, publicado em 2026 pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo (Ifes). O trabalho é assinado por Lucas de Souza Melo, Maurício Novaes Souza, Jéferson Luís Ferrari e Marco Aurélio Costa Caiado.
Os pesquisadores acompanharam o manejo do Sítio Pedacinho da Serra e do Sítio Sumidouro Curty. Foram realizadas observações em campo, registros fotográficos e análises comparativas de indicadores do solo. O trabalho avaliou práticas como cobertura vegetal viva, uso de palha de café, consórcio com palmito, rotação com milho, mecanização e controle de plantas espontâneas.
Os resultados indicaram que a sustentabilidade da produção não depende de uma única técnica, mas da combinação de práticas adaptadas às condições de cada propriedade. Segundo os autores, manter o solo coberto reduz a exposição ao impacto da chuva, ajuda a controlar a erosão, regula a temperatura e diminui a perda de água por evaporação.
Cobertura viva protege o solo
No Sítio Pedacinho da Serra, localizado a 660 metros de altitude, na comunidade de Córrego Serra Danta, o manejo das entrelinhas é mecanizado e utiliza cobertura vegetal viva. A propriedade também mantém o cultivo consorciado de café com palmito.
A cobertura viva é formada por plantas que permanecem entre as fileiras do cafezal. Gramíneas, leguminosas e algumas espécies espontâneas ajudam a proteger o terreno, favorecer a infiltração da água e reduzir o escoamento superficial.
Quando essas plantas são roçadas, os resíduos permanecem sobre o solo e passam a funcionar como uma camada de proteção. A decomposição também contribui para o aumento da matéria orgânica e para a ciclagem de nutrientes.
O consórcio do café com palmito foi apontado como uma alternativa com benefícios econômicos e ambientais. Além de diversificar a produção e criar outra possibilidade de renda, o sistema amplia a presença de diferentes espécies na lavoura.
Os pesquisadores alertam, no entanto, que o consórcio precisa ser acompanhado. As culturas podem competir por água e nutrientes, tornando necessárias análises periódicas do solo e adequações na adubação.
No Pedacinho da Serra, a análise encontrou pH de 5,3, matéria orgânica de 1,5% e saturação por bases de 47,3%. O teor de potássio foi de 116 miligramas por decímetro cúbico. Os resultados indicaram a necessidade de ajustes na adubação e de estratégias para aumentar a matéria orgânica.
A avaliação mostra que a cobertura vegetal contribui para a proteção física do solo, mas não substitui a correção e o fornecimento de nutrientes exigidos pelo cafeeiro.
Palha de café retorna à lavoura
No Sítio Sumidouro Curty, situado a 800 metros de altitude, na comunidade de Sumidouro, os produtores utilizam cobertura morta composta principalmente por palha de café. O manejo inclui mecanização, aplicação de glifosato e rotação de culturas com milho.
A utilização da palha permite que um resíduo da própria cafeicultura retorne ao sistema produtivo. O material protege o solo contra o impacto da chuva, reduz a evaporação da água e libera matéria orgânica e nutrientes durante a decomposição.
O reaproveitamento também se relaciona ao conceito de economia circular, no qual resíduos de uma atividade são transformados em recursos para o próprio processo de produção.
A rotação com milho contribui para a diversificação da propriedade e pode auxiliar na interrupção dos ciclos de pragas e doenças. Segundo o estudo, essas práticas fortalecem a capacidade da lavoura de enfrentar variações climáticas e econômicas.
No Sumidouro Curty, o solo apresentou pH de 5,8, matéria orgânica de 2,5% e saturação por bases de 60,9%. O teor de potássio chegou a 365 miligramas por decímetro cúbico.
Os indicadores químicos foram melhores do que os encontrados na outra propriedade, mas os autores ressaltam que o resultado não pode ser atribuído exclusivamente ao tipo de cobertura ou ao uso de herbicida. Diferenças no histórico de manejo, na adubação, na altitude e nas características naturais do solo também podem ter influenciado os dados.
Herbicida requer uso criterioso
O estudo reconhece que o manejo mecanizado associado ao herbicida foi eficiente no controle de plantas espontâneas e na operacionalização da lavoura. O uso do glifosato, porém, deve ser realizado de forma criteriosa e acompanhado por outras estratégias.
A aplicação indiscriminada pode afetar organismos presentes no solo e favorecer o surgimento de plantas resistentes. Entre as alternativas para reduzir a dependência do produto estão o uso de roçadeiras, a manutenção de coberturas vegetais e o controle integrado das espécies espontâneas.
Os autores defendem que a mecanização, a cobertura do solo e o uso racional de insumos sejam planejados de forma conjunta. A escolha das técnicas deve considerar relevo, clima, disponibilidade de mão de obra, características do solo e necessidades de cada lavoura.
Sustentabilidade também envolve renda
Além dos benefícios ambientais, as práticas avaliadas podem contribuir para a redução de custos e para a diversificação da renda. A cobertura vegetal pode diminuir a necessidade de intervenções frequentes nas entrelinhas, enquanto a palha de café substitui materiais que precisariam ser adquiridos fora da propriedade.
O consórcio com palmito e a rotação com milho criam outras possibilidades produtivas. A mecanização, quando adequada ao relevo, também pode reduzir a dependência de mão de obra em algumas operações.
O estudo não quantificou a economia gerada por essas práticas. Os possíveis ganhos financeiros são apresentados pelos autores como benefícios do manejo integrado, e não como resultados econômicos medidos nas duas propriedades.
Para os pesquisadores, as experiências observadas em Celina mostram que a produção sustentável exige acompanhamento contínuo. Análises de solo, uso racional de insumos, manutenção da cobertura vegetal e diversificação de culturas são medidas que podem aproximar conservação ambiental e viabilidade econômica.
Os resultados são específicos das propriedades avaliadas e não estabelecem um modelo único para todos os cafezais. Ainda assim, o trabalho indica que proteger o solo, reaproveitar resíduos e integrar diferentes técnicas pode tornar a cafeicultura mais equilibrada e preparada para enfrentar períodos de seca, chuvas intensas e elevação dos custos de produção.






Comentários 0