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As palavras são ditas nos palanques, os prejuízos são colhidos no campo

A história demonstra que governos são transitórios, enquanto os interesses nacionais permanecem

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As recentes declarações do presidente argentino Javier Milei em território brasileiro, durante evento político em São Paulo, elevaram a tensão entre Brasil e Argentina a um dos momentos mais delicados dos últimos anos. Segundo a Reuters, as críticas dirigidas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva motivaram uma reação diplomática do Itamaraty, que convocou o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas, um gesto reservado a situações de elevada gravidade nas relações internacionais.

Embora o embate ocupe o noticiário político, seus efeitos potenciais vão muito além dos governos. Eles podem alcançar diretamente o agronegócio, a indústria, a logística e milhares de empregos dos dois lados da fronteira.

De acordo com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a estabilidade das relações internacionais é um dos pilares para garantir previsibilidade ao comércio exterior. No caso argentino, essa previsibilidade é ainda mais importante porque Brasil e Argentina compartilham cadeias produtivas altamente integradas desde a criação do Mercosul.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a Argentina permanece entre os principais parceiros comerciais do Brasil. No agronegócio, a interdependência é evidente: o Brasil importa grande parte do trigo consumido pela indústria nacional da Argentina, enquanto exporta café, produtos florestais, carnes, açúcar, máquinas agrícolas, fertilizantes, insumos e diversos produtos industrializados utilizados pela cadeia agropecuária argentina.

Uma deterioração das relações diplomáticas não significa, necessariamente, interrupção do comércio. No entanto, aumenta a insegurança para investidores, dificulta negociações bilaterais, reduz a confiança dos agentes econômicos e pode atrasar acordos sanitários, logísticos e regulatórios fundamentais para o setor agropecuário.

Além disso, conforme destaca a Organização Mundial do Comércio (OMC), a previsibilidade política constitui um dos fatores que sustentam investimentos e a fluidez das cadeias globais de suprimentos. Em um cenário internacional já pressionado por guerras, disputas tarifárias e mudanças climáticas, novas tensões entre parceiros estratégicos significa ampliar riscos que poderiam ser evitados.

A história demonstra que governos são transitórios, enquanto os interesses nacionais permanecem. O produtor rural, a cooperativa, a agroindústria e o exportador precisam de mercados estáveis, regras claras e segurança institucional, não de conflitos diplomáticos transformados em palanque político.

Discordâncias entre líderes são naturais em qualquer democracia. Entretanto, quando elas ultrapassam o campo das ideias e colocam em risco relações comerciais construídas ao longo de décadas, quem paga a conta não são os presidentes. São empresas, trabalhadores, produtores rurais e consumidores que dependem de uma integração econômica sólida para continuar produzindo riqueza.

No agronegócio, diplomacia não é sinal de fraqueza. É uma estratégia de competitividade.

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Sobre o autor Paula Cristiane Oliveira Braz *Paula Cristiane Oliveira Braz é administradora, especialista em Agronegócios, tutora dos cursos de pós-graduação na área de Agronegócios do Centro Universitário Internacional UNINTER. Ver mais conteúdos

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