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O Espírito Santo é reconhecido nacionalmente pelo pioneirismo no agroturismo e turismo rural. Não por acaso, o estado abriga a “Capital Nacional do Agroturismo”, Venda Nova do Imigrante. O movimento que garantiu à cidade serrana esse título começou ainda nos anos 1990 e influenciou diversos municípios.
Cidades como Conceição do Castelo, Santa Teresa, Dores do Rio Preto, Vargem Alta e Santa Maria de Jetibá, entre outras, também avançaram e se consolidaram como destinos de agroturismo e turismo rural nas últimas décadas. Além do sucesso dos empreendimentos rurais, que atraem turistas de todo o país e até do exterior, há uma característica em comum: esses municípios estão todos nas regiões Sul e Serrana do Espírito Santo.
Já o Norte e o Noroeste, formados por municípios predominantemente rurais, não vivenciam a mesma expansão. As experiências do setor são poucas ou quase inexistentes. Quem explica é a turismóloga Laura Rodrigues, sócia de uma empresa credenciada ao Sebrae. “Temos um potencial enorme — paisagem rural, comunidades tradicionais, agricultura familiar forte, produção variada de cacau, café, mandioca, pimenta-do-reino e pecuária. Porém, o agroturismo nessas regiões ainda está em fase inicial ou intermediária de desenvolvimento, com iniciativas pontuais, mas sem uma estrutura consolidada como ocorre no Sul do estado”, afirma.
Para Laura, a diferença central entre as regiões é histórica e cultural. “A imigração italiana e alemã criou pequenas propriedades familiares, com forte cultura de hospitalidade. Esses produtores abriram suas casas antes mesmo do conceito de ‘agroturismo’. Têm mentalidade empreendedora consolidada e entendem que o turismo gera renda, valoriza a identidade local, preserva tradições e cria futuro para os filhos no campo.”
No Norte e no Noroeste, segundo a especialista, falta capacitação e visão empreendedora voltada ao turismo. “Muitos agricultores não se veem como anfitriões. Ainda há a ideia de que ‘turismo dá trabalho e não compensa’, por falta de exemplos locais de sucesso. Falta articulação entre propriedades, políticas públicas específicas, investimento em formação contínua, infraestrutura e produtos turísticos organizados.”
Com experiência semelhante na região, a turismóloga Andréa Blunck Salazar concorda com os fatores apontados. “A colonização aqui foi muito diferente da ocorrida do Sul do Estado. A cultura é outra. E a descontinuidade política é um agravante. Você começa um projeto, as pessoas se empolgam; muda a gestão e tudo é engavetado. Já aconteceu comigo. Além disso, falta visão empreendedora: podemos ter o produto e o atrativo, mas o proprietário pode não querer receber, e aí não investe”, relata.
Quanto ao apoio do poder público municipal, Laura destaca outra vantagem da região Sul. “Onde o turismo rural e o agroturismo funcionam, há cadastro e mapeamento de propriedades, programas de incentivo à regularização sanitária, formação continuada (atendimento, empreendedorismo, gastronomia, precificação) e eventos que atraem público. O que falta ao Norte e ao Noroeste é política contínua, e não ações isoladas”.
Pontos fora da curva
Entre os municípios com grande potencial para o agroturismo e o turismo rural está Jaguaré. Ali, além de características favoráveis — como agricultura familiar forte, diversidade agrícola e iniciativas de turismo pedagógico —, o poder público decidiu investir no setor.
A Prefeitura de Jaguaré é exemplo de como o empenho do Executivo local influencia o crescimento do turismo rural. Por meio da Secretaria de Turismo, o município lançou, no fim de novembro de 2025, a Rota do Café Conilon de Jaguaré. Instituída oficialmente em junho deste ano, pela Lei Municipal 1.843/25, a rota conta com quatro roteiros e reúne 14 empreendimentos de diferentes segmentos, entre cafés especiais, almoço caipira, café colonial, apresentações culturais, produção artesanal de cachaça, cachoeiras, apiário e pesque-pague.
A secretária municipal de Turismo, Vera Lúcia de Backer Wandermurem, explica que tudo começou com um diagnóstico. “Já sabíamos de propriedades com atrativos interessantes e de moradores com interesse em investir na área. A partir disso, estimulamos essas famílias, trabalhando com elas ao longo do tempo, superando desafios e amadurecendo ideias — até que o projeto se concretizou.”
Para incentivar os produtores, Vera criou um mostruário de produtos e levava o material a todas as reuniões. “Isso despertava interesse. Muitos diziam: ‘Eu também tenho algo assim! Vamos criar um rótulo e colocar meu produto no mercado’. Um empreendedor incentivava o outro, e o movimento foi crescendo.”
Hoje, Jaguaré tem 21 marcas e 78 produtos agroartesanais locais. Para fortalecer o setor, a Prefeitura promove eventos e feiras, oferecendo espaços para exposição e vendas. “A nossa proposta é transformar Jaguaré em um polo de agroturismo. Estamos felizes por ver as pessoas acreditando, empreendendo e percebendo que o agroturismo pode ser fonte de renda e desenvolvimento humano, social e cultural”, afirma.

Produtores de café conilon há várias gerações, a família Calvi, do Sítio Boa Vista, em Barra Seca Velha, resolveu trabalhar com café de qualidade e criou a marca 100% conilon Café Calvi do Brasil. Com o passar do tempo e o aumento do portfólio de produtos, resolveram abrir uma fábrica de beneficiamento de café e, mais recentemente, decidiram abrir a propriedade para visitação. O sítio da família faz parte de um dos roteiros da Rota do Conilon.
Kéttine Calvi, que atua ao lado do pai e dos irmãos, comenta as expectativas em relação ao novo projeto e destaca a importância do apoio do poder público. Segundo ela, o processo tem ocorrido de forma natural, impulsionado principalmente por políticas públicas voltadas ao agroturismo e ao turismo de experiência. As expectativas são positivas, com a convicção de que a rota terá continuidade no município. Para isso, a família já se prepara para receber os turistas em sua propriedade.
A família de Deuciane Laquini de Ataíde, também resolveu investir no setor. Acostumada com a produção de café conilon e pimenta do reino, destinou parte da fazenda Boa Vista, que fica no córrego Jundiá, a apenas três quilômetros do centro de Jaguaré, para um empreendimento de turismo rural. Batizado de Recanto Lagoa Azul, o local fica às margens de três represas e conta com lagoa de águas cristalinas, todas aptas para banho. Foram construídas três acomodações para casal, além de uma área de churrasco.

“Percebi a carência de hospedagens no município. Queremos proporcionar contato direto com a natureza, banho de lagoa e tranquilidade”, diz Deuciane, que, mesmo fora dos roteiros oficiais, acredita no impacto da nova rota. “A rota dá visibilidade para quem está investindo.”
O consultor do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-ES), Sebastião Carias, o Macarrão, confirma essa tendência. “A falta de hospedagem rural é um dos principais gargalos. Muitos turistas visitam pesque-pagues, agroindústrias e propriedades, mas não encontram oferta estruturada para pernoitar. É uma grande oportunidade de negócio.”
O Senar atua orientando produtores que desejam agregar valor, diversificar serviços ou explorar novas formas de comercialização, como pousadas, lojas e empreendimentos turísticos no meio rural.
Continua: Agroturismo: municípios e associações se movimentam para atrair visitantes – Conexão Safra
e Turismo rural no Espírito Santo: as histórias de quem está construindo a história – Conexão Safra




