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Por décadas, o alho foi sinônimo de prosperidade na região serrana do Espírito Santo. No distrito de Aracê, em Domingos Martins, produtores mediam o sucesso da safra pela troca anual de carro. O ciclo virtuoso começou a ruir no início dos anos 1990, com a abertura do mercado e a entrada massiva do alho importado, primeiro da Argentina e depois da China. A cultura perdeu competitividade, muitos agricultores migraram para outras atividades (morango, café e agroturismo) e o alho capixaba ficou restrito à memória de quem viveu seu auge.
Agora, mais de 30 anos depois, a história começa a mudar. Com o uso de alho-semente livre de vírus, tecnologia desenvolvida pela Embrapa Hortaliças e aplicada no Espírito Santo por meio de parceria com o Incaper e o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), agricultores familiares voltam a enxergar no alho uma cultura viável, produtiva e rentável.
O resgate passa pela ciência, mas também pela experiência acumulada de quem nunca deixou a lavoura. É o caso de Moacir Bellon (80), produtor de São Paulo de Aracê (Domingos Martins), na foto abaixo, que cultiva alho há mais de meio século. Ele recebeu oito quilos de alho-semente livre de vírus da variedade Amarante, plantados em março deste ano. O resultado surpreendeu até os técnicos: 150 kg colhidos em apenas 160 m², com safra encerrada em agosto.

“São necessários pelo menos 145 dias na lavoura. O cultivo ocupa uma área pequena e o custo não é alto”, explica Bellon, com a tranquilidade de quem domina o ciclo da cultura. “Um quilo plantado de alho tem obrigação de produzir dez quilos.”
A conta, desta vez, fechou com sobra. Animado, o produtor destaca outro fator decisivo: o preço. “O alho nacional está valendo mais. Enquanto o chinês fica entre R$ 14 e R$ 15, o nosso chega a R$ 19”, compara. Bellon vende a produção no próprio barracão da propriedade, às margens da rodovia que liga a BR-262 a Vargem Alta, e já planeja expandir a área a partir de 2026, em outro sítio, em Venda Nova do Imigrante. “É uma terra à beira de represa que, para o alho, é show de bola.”
O caso de Bellon não é isolado. Ele próprio lembra que, três anos atrás, colheu duas toneladas. E que, no passado, produtores da região chegavam a colher entre dez e 15 toneladas por safra. “Tem muita gente retomando o alho”, afirma.
Ciência no campo, produtividade que muda o jogo
Os resultados observados na propriedade de Moacir Bellon refletem um movimento mais amplo. Dados apresentados no encontro técnico de encerramento do projeto “Apoio ao fortalecimento da cadeia de valor do alho na região central do Espírito Santo”, realizado no Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação Serrano (CPDI Serrano), na Fazenda do Estado, em Domingos Martins, mostram produtividades entre 12 e 16 toneladas por hectare — desempenho superior à média estadual (9 t/ha) e também à média nacional (13 t/ha).
O destaque foi Santa Maria de Jetibá, que atingiu os maiores índices. Além do volume, houve ganho expressivo em qualidade, com bulbos maiores, dentes mais uniformes e maior resistência, fatores que elevam o valor comercial do produto. “O produtor sempre sentiu que o alho estava cansado”, resume a pesquisadora Andréa Ferreira da Costa (Incaper), uma das coordenadoras do projeto. “As viroses podem causar perdas de 30% a 50% da produtividade e comprometer completamente a qualidade do bulbo. Um alho livre de vírus sempre vai produzir mais.”
O protocolo adotado no Espírito Santo é um dos mais avançados do mundo. Desenvolvido pela Embrapa Hortaliças, inclui termoterapia, cultura de ápices caulinares, bulbificação in vitro, testes laboratoriais (Elisa e PCR) e a manutenção das matrizes em telados com telas antiafídeos, que impedem a reinfecção por insetos vetores. Duas dessas estruturas funcionam no CPDI Serrano, onde todo o alho-semente distribuído aos produtores passou por controle sanitário rigoroso.
Segundo Andréa, o potencial ainda não foi totalmente atingido. “Esse material saiu há pouco tempo dos telados. À medida que os ciclos avançam, produtores mais experientes podem alcançar até 20 toneladas por hectare. Além disso, temos variedades que produzem de cinco a sete toneladas a mais do que o Gigante Roxo e o Amarante.”
Da semente cansada ao alho nobre: quando a tecnologia muda a propriedade
Em Santa Maria de Jetibá, o produtor Rosemiro Schmidt viveu, na prática, a transformação provocada pelo alho-semente livre de vírus. Durante anos, ele trabalhou com alho crioulo e enfrentou perdas recorrentes por pragas e doenças. “Eu não conseguia produzir um alho de qualidade, e isso prejudicava muito na hora de vender”, relata. “Com o alho livre de vírus, já consigo produzir um alho melhor, com mais qualidade e maior produção. O custo fica mais barato e eu consigo um preço bem melhor na negociação.”

A mudança não se limitou à semente. O acompanhamento técnico foi decisivo. “O manejo é bem diferente. Só o corte da irrigação, que precisa ser feito no momento exato, já exige mais conhecimento. Sem o suporte técnico, eu não teria conseguido”, reconhece.
Agora, Schmidt projeta um novo papel para a família na cadeia produtiva. “Minha expectativa é que a gente se torne produtor de sementes de alho nobre e seminobre. O pessoal da comunidade já está me procurando, querendo sementes. Isso vai aumentar a produção de alho de qualidade na nossa região.”
Essa é justamente a estratégia do projeto: formar agricultores multiplicadores, responsáveis por ampliar o acesso ao alho-semente livre de vírus e reduzir um dos maiores entraves da cultura. “A semente pode representar até 30% do custo total da produção”, explica Andréa Costa (Incaper). “Ao democratizar o acesso, reduzimos o risco e estimulamos novos produtores a entrar ou retornar à atividade.”
Memória, política e o impacto da importação

O resgate do alho no Espírito Santo também passa pela memória de quem viveu seu auge. José Onofre Pereira (73) foi extensionista da antiga Acares e acompanhou de perto a expansão da cultura na região Serrana a partir do final dos anos 1970. “O alho começou no distrito de Garrafão (Santa Maria de Jetibá) por volta de 1978”, relembra. “Foi um trabalho articulado entre pesquisa e extensão, com apoio do Ministério da Agricultura. O Espírito Santo virou referência.”
No distrito de Aracê (Domingos Martins), o impacto foi imediato. “Era o carro-chefe do inverno. Teve uma época em que, todo ano, produtor trocava de carro. Esse era o termômetro financeiro”, conta. Nos anos 1980, o estado chegou a figurar entre os maiores produtores nacionais.
A virada veio com a importação. Primeiro Argentina e Espanha, depois a China. “O alho importado chegava com preço competitivo e qualidade superior. O produtor nacional não conseguiu acompanhar”, diz José Onofre. Ele lembra das mobilizações que levaram à criação da Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa) e de políticas que tentavam equilibrar o mercado. “Para comprar uma caixa de alho importado, o atacadista tinha que comprar uma nacional. Esse ‘tarifaço’ não é novidade”, brinca, em referência ao aumento de impostos aplicado a vários setores de uma só vez pelo governo norte-americano em 2025.
O impacto foi devastador. “Muitos produtores abandonaram a cultura”, resume Ângelo Uliana, produtor de Nossa Senhora do Carmo, no distrito de Aracê. “Quando passou a importar alho argentino, a gente partiu para o morango e depois para o agroturismo.” Hoje, com orientação do Incaper e da Embrapa, ele voltou a investir no alho, dedicando quase 3.000 m² à cultura. Em 2025, a produção ficou perto de 2 toneladas. “A gente está aprendendo mais. A qualidade melhorou.”
Um novo ciclo para o alho capixaba
Atualmente, o Espírito Santo é o sétimo maior produtor de alho do país, com cerca de 1,6 mil toneladas em 154 hectares, concentradas principalmente em Santa Maria de Jetibá, Domingos Martins e Afonso Cláudio. Em 2024, a produção foi de apenas 863 toneladas, número que evidencia o espaço para crescimento.
Para o pesquisador Francisco Vilela Resende (Embrapa Hortaliças), o resgate da cultura é viável e necessário. “O Espírito Santo tem uma tradição muito forte, especialmente com as variedades do grupo Gigante. No nosso banco de germoplasmas, temos cinco ou seis variedades originárias do estado. Ali está toda a história do alho no Brasil.”
Segundo Resende, o foco na agricultura familiar é estratégico. “Estamos revitalizando a cultura substituindo uma semente cansada, muitas vezes com 50 ou cem anos de uso, por material novo, livre de vírus, com alta capacidade produtiva. Gradativamente, essas sementes serão reintroduzidas nas propriedades.”
A proposta apresentada ao MDA prevê uma segunda fase do projeto em 2026, com ampliação das áreas, introdução de novas cultivares e intercâmbio técnico com a Bahia, um dos principais polos produtores do país. “O alho capixaba vinha perdendo qualidade e produtividade, desanimando os agricultores”, avalia Andréa Costa. “Agora, estamos abrindo um novo ciclo. Mais competitivo, mais sustentável e com identidade regional.”
*Com informações apuradas pela reportagem da Conexão Safra e do Incaper





