Anuário do Agronegócio Capixaba 2025

A resistência do maracujá no Espírito Santo

Produção de maracujá recuou quase 80% em área cultivada na última década, enquanto projetos de diversificação e assistência técnica buscam abrir novas oportunidades para agricultores familiares

Foto: divulgação/Freepik

A produção de maracujá no Espírito Santo passou, na última década, por um processo contínuo de encolhimento. Os dados mostram que tanto a área colhida quanto o volume produzido vêm diminuindo desde 2014, quando o estado registrava 2.463 hectares e 70.335 toneladas. À época, o rendimento médio alcançava expressivos 28.557 kg/ha.

A partir de 2015, o setor entrou em uma trajetória de queda. A área colhida recuou ano a ano, chegando a 547 hectares em 2024 — uma redução de quase 80% em relação ao início da série histórica. A produção acompanhou o movimento, baixando para 12.318 toneladas no último ano analisado.

Apesar da forte retração em área e volume, o rendimento médio se manteve estável na faixa dos 19 mil a 22 mil kg/ha ao longo dos últimos dez anos. Em 2024, o índice alcançou 22.519 kg/ha, demonstrando que, mesmo com menos produtores e propriedades dedicadas à cultura, quem permanece no segmento segue investindo em manejo e tecnologia para garantir produtividade.

A geografia da produção também evidencia uma forte concentração no Norte capixaba. Sooretama lidera o ranking estadual com 2.267 toneladas (18,4% do total), seguida por São Mateus (10,81%), Boa Esperança (10,25%), Jaguaré (8,38%) e Pinheiros (7,67%). Aracruz completa a lista dos principais produtores, com 460 toneladas, ou 3,73% da produção estadual.

O retrato atual indica que o maracujá perdeu espaço no Espírito Santo, mas não sua relevância. A produtividade consistente e a presença concentrada em municípios com tradição e condições favoráveis mostram que a cultura segue viva — menor, mais seletiva e dependente de especialização técnica para continuar competitiva.

Novos arranjos, novas culturas

Agricultores familiares do Espírito Santo colheram, em meados de 2025, as primeiras safras de maracujá produzidas a partir de mudas doadas pelo projeto Arranjos Produtivos, desenvolvido pela Assembleia Legislativa (Ales). Técnicos do projeto acompanharam de perto o plantio e o manejo das lavouras, orientando cada etapa do processo.

Em Itapemirim, um dos exemplos de maior êxito vem da propriedade do agricultor familiar Jordão Caetano de Souza, que recebeu 700 mudas. A expectativa é alcançar 30 mil quilos de maracujá ao longo de um ciclo de até três anos. Tradicionalmente dedicado ao cultivo de café, mandioca e cana, Jordão decidiu diversificar a produção após o incentivo do projeto — uma aposta que, segundo ele, tem se mostrado acertada.

O agricultor familiar Jordão Caetano de Souza está feliz com a colheita. Foto: Lizandro Nunes

“Sempre fui otimista e optei pelo maracujá por causa do clima seco que temos por aqui. O resultado está muito satisfatório”, afirmou.

A propriedade recebeu acompanhamento técnico contínuo. Responsável pela consultoria no local, o engenheiro agrônomo Péricles Santos destacou que as visitas ocorreram mensalmente, desde o preparo do solo até o desenvolvimento da cultura.

“Antes do plantio, foi feito o estudo do solo para identificar a necessidade de correção e fertilização. Orientamos sobre espaçamento, manejo e condução da lavoura. Aqui, o crescimento foi natural, sem uso de agrotóxicos. Trabalhamos sempre em busca de uma boa colheita”, explicou.

Em Itapemirim, mais de 4.000 mudas foram distribuídas, beneficiando cerca de 50 agricultores familiares cadastrados. O município também recebeu mudas de acerola, uva e aroeira. 

Expansão do projeto e apoio técnico

O Arranjos Produtivos é coordenado pela Secretaria da Casa dos Municípios da Ales, em parceria com o Governo do Estado e o apoio das prefeituras. Atualmente, 27 municípios participam do ciclo de 2025; em 2024, foram 20.

Além das mudas — que incluem uva, cacau, café, pimenta, aroeira, pupunha, acerola e maracujá — os agricultores recebem assistência técnica diretamente nas propriedades. Em algumas localidades, também foram entregues equipamentos agrícolas, como kits para produção de mel, kits de hidroponia e estufas para cultivo de morango, fortalecendo ainda mais a estrutura produtiva das famílias beneficiadas.

Sobre o autor Fernanda Zandonadi Desde 2001, Fernanda Zandonadi atua como jornalista, destacando-se pelo alto profissionalismo e pela excelência na escrita de suas reportagens especiais. Tem um conhecimento aprofundado em agronegócio, cooperativismo e economia, com a habilidade de traduzir temas complexos em textos de grande impacto e relevância. Seu rigor e qualidade na apuração e narração de histórias do setor garantiram que seu trabalho fosse constantemente reconhecido pela crítica especializada, o que a levou a conquistar múltiplas distinções e reconhecimentos em premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos

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