Anuário do Agronegócio Capixaba 2025

Produção de inhame reforça liderança de Alfredo Chaves

Município mantém ritmo de produção de inhame e segue como principal referência da cultura no Espírito Santo

Foto: ilustrativa/Freepik

A produção de inhame no Espírito Santo manteve-se estável em 2024, alcançando 95,5 mil toneladas colhidas em 3,2 mil hectares. O rendimento médio ficou em 29,2 mil kg/ha, valor próximo ao registrado no ano anterior, o que reflete o manejo eficiente do tubérculo nas principais regiões produtoras.

A série histórica mostra que, embora a área colhida tenha variado nos últimos dez anos, a produtividade do inhame capixaba se mantém alta. Em 2014, o estado produzia 96,6 mil toneladas em 3,6 mil hectares, rendimento de 26,3 mil kg/ha. Desde então, o setor ampliou sua eficiência produtiva, superando a marca de 30 mil kg/ha em 2022 — o maior índice da década.

Mesmo com uma leve redução na área plantada e na produção total em 2024, o rendimento médio demonstra estabilidade, reforçando o uso crescente de práticas de manejo sustentável, correção de solo e rotação de culturas, especialmente em propriedades familiares.

O extensionista do Incaper em Alfredo Chaves, João Medeiros, explica que a queda ocorreu, pois parte dos produtores reduziu as áreas cultivadas devido a custos e logística. “Alguns produtores diminuíram as áreas plantadas, diversificaram com outras culturas. Em locais montanhosos, a mecanização nem sempre é viável. E o custo sem mecanização fica muito alto, já que tem que colher e selecionar manualmente.”, pontua Medeiros.

Ele acrescenta que o mercado estabilizado de preços e o ciclo do inhame — cerca de um ano — também influenciam a decisão de plantio. “O produtor investe no inhame, mas, se percebe que a rentabilidade caiu, opta por não repetir o plantio. Em Alfredo Chaves, há casos de agricultores que chegaram a interromper totalmente a produção. Já tivemos períodos de preços mais altos, mas o mercado se estabilizou e, diante disso, muitos produtores migraram para outras culturas”, avalia.

Região Serrana domina a produção

A região Serrana concentra os principais polos produtores de inhame do Espírito Santo. Alfredo Chaves lidera com ampla vantagem, respondendo por 33,2% da produção estadual — o equivalente a 31,7 mil toneladas. Em seguida aparecem Laranja da Terra (17,3%), Marechal Floriano (11%) e Santa Leopoldina (9,7%), confirmando o predomínio das áreas de relevo montanhoso e clima úmido, ideais para o cultivo.

Outros municípios de destaque são Domingos Martins (6,9%), Santa Maria de Jetibá (6,3%), Muniz Freire (3,6%), Baixo Guandu (2,4%), Itarana (1,8%) e Castelo (1,3%).

O sabor que nasce da terra: os sorvetes de inhame da família Fardin

Em Alfredo Chaves, no distrito de São Bento de Urânia, a comunidade de Redentor guarda uma história que mistura trabalho, criatividade e amor pelo que se faz. É ali, em meio ao clima ameno e à paisagem verde, que a família Fardin transformou o cultivo tradicional de inhame em uma surpreendente fonte de sabor e refrescância. Assim nasceu o Frescor das Montanhas, uma sorveteria artesanal que vem conquistando paladares dentro e fora do município com o famoso sorvete — e o inusitado picolé — de inhame. 

Foto: Dirceu Cetto

Com o tempo, o espaço tornou-se também uma parada obrigatória para visitantes que percorrem as rotas de Alfredo Chaves, atraídos pela autenticidade da produção familiar e pela experiência de provar um sabor nascido do próprio território. A sorverteria funciona de domingo a sexta-feira, até as 17 horas, e recebe visitantes de Domingos Martins, Venda Nova do Imigrante, Marechal Floriano, Vargem Alta e, claro, da própria Alfredo Chaves.

O empreendimento é tocado por Edinelma e Zelindo Fardin, com o apoio do filho, Yuri. A ideia surgiu há cerca de oito anos, de forma simples, como tantas histórias que nascem no interior. “Minha esposa sempre gostou de fazer doces e sobremesas. Um dia pensamos: por que não transformar essa paixão em uma renda extra?”, recorda Zelindo. O que começou com pequenas produções para vizinhos e amigos foi ganhando corpo, até se tornar uma referência regional em sorvetes e picolés artesanais.

Hoje, o Frescor das Montanhas oferece mais de 50 sabores, preparados com ingredientes selecionados e o cuidado característico das famílias rurais. O atendimento é feito no próprio local, mas os produtos também abastecem mercados, padarias, bares e restaurantes da região. “No verão, é uma correria, com muitas entregas. No inverno, a gente desacelera um pouco, mas nunca para”, conta Edinelma, sorrindo.

Foto: Dirceu Cetto

Um sabor que virou símbolo

A ideia de transformar o inhame em sorvete surgiu quase por acaso, dentro da escola da filha mais nova do casal. Durante um projeto sobre o tubérculo, símbolo de Alfredo Chaves, reconhecida como Capital Nacional do Inhame, a família decidiu testar uma receita com o ingrediente. O resultado surpreendeu: o sorvete ficou cremoso, com sabor delicado e toque de passas e ameixa seca. “Quem prova, se surpreende. É diferente de tudo”, diz Edinelma, orgulhosa.

O sucesso foi imediato. O sabor de inhame se tornou o carro-chefe da sorveteria e um retrato da identidade local. O ingrediente principal vem da própria lavoura da família, e, quando falta, é adquirido de produtores vizinhos — fortalecendo a economia local e mantendo viva a tradição da agricultura familiar. Em São Bento de Urânia, cerca de 600 famílias cultivam o inhame.

Da montanha para o mundo

O nome “Frescor das Montanhas” nasceu da paisagem que cerca o negócio. “Aqui é alto, o clima é sempre fresco, e estamos cercados por montanhas. O nome veio naturalmente”, explica Zelindo. A produção é totalmente familiar: os três cuidam de todas as etapas, da colheita à fabricação. Cada pote e cada picolé carregam o sabor da terra e o orgulho de um trabalho que une gerações.

Mais do que uma sorveteria, o empreendimento se transformou em um símbolo do novo jeito de empreender no interior capixaba — com criatividade, cooperação e valorização das origens. Quem visita o espaço encontra muito mais do que um sorvete artesanal: encontra uma história feita de afeto, resiliência e um profundo respeito pela terra.

Sobre o autor Fernanda Zandonadi Desde 2001, Fernanda Zandonadi atua como jornalista, destacando-se pelo alto profissionalismo e pela excelência na escrita de suas reportagens especiais. Tem um conhecimento aprofundado em agronegócio, cooperativismo e economia, com a habilidade de traduzir temas complexos em textos de grande impacto e relevância. Seu rigor e qualidade na apuração e narração de histórias do setor garantiram que seu trabalho fosse constantemente reconhecido pela crítica especializada, o que a levou a conquistar múltiplas distinções e reconhecimentos em premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos

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