Tempo e agronegócio

El Niño pode trazer calor, chuva irregular e ameaça a lavouras de café e cacau no Espírito Santo

Ronaldo Coutinho prevê irregularidade das precipitações, calor intenso e risco para lavouras de café e cacau; NOAA aponta 81% de chance de evento muito forte no fim do ano

El Niño 2026
Imagem: Conexão Safra/IA

O El Niño está ganhando força rapidamente no Oceano Pacífico e pode comprometer a regularidade das chuvas no Espírito Santo durante a primavera e o verão. A projeção é do engenheiro agrônomo Ronaldo Coutinho, do Canal do Tempo, que alerta para o risco de períodos prolongados de estiagem, temperaturas elevadas e impactos sobre lavouras de café e cacau.

A intensificação do fenômeno já é reconhecida oficialmente. O Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa) informou, em atualização publicada no dia 9 de julho, que o El Niño está instalado e deve continuar se fortalecendo até o fim de 2026.

O órgão calcula uma probabilidade de 81% de o fenômeno atingir a categoria “muito forte” entre outubro e dezembro. Há ainda 97% de chance de o El Niño persistir até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte, período correspondente ao começo do outono no Hemisfério Sul.

Na avaliação de Coutinho, a rapidez do aquecimento das águas do Pacífico indica que o evento poderá alcançar intensidade excepcional. Ele afirma que as temperaturas observadas e projetadas em diferentes regiões de monitoramento do oceano colocam o fenômeno em uma trajetória semelhante ou superior à dos episódios de 1997 e 2015.

“Vai ser um El Niño extremamente forte. Pela evolução atual, pode se tornar o mais forte já registrado dentro da série de dados confiáveis, que começa em 1950”, afirma.

A classificação definitiva, no entanto, depende da manutenção das anomalias de temperatura durante vários meses. O dado semanal mais recente da Noaa apontou aquecimento de 1,2 grau Celsius na região Niño 3.4, principal área utilizada para acompanhar o fenômeno. Na parte mais oriental do Pacífico, conhecida como Niño 1+2, a anomalia chegou a 2,7 graus.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) também prevê uma rápida evolução para um El Niño forte. Os modelos internacionais indicam que a temperatura média da superfície do mar poderá superar em 2 graus Celsius os valores normais em áreas importantes do Pacífico equatorial.

A entidade ressalta, porém, que “super El Niño” não é uma categoria oficial. A classificação operacional utilizada pela OMM divide os eventos em fracos, moderados, fortes e muito fortes.

Chuva irregular no Espírito Santo

Para o Espírito Santo, um dos principais riscos apontados por Ronaldo Coutinho é a irregularidade das chuvas a partir da primavera. Mesmo quando os volumes acumulados não forem baixos em todas as regiões, a distribuição das precipitações poderá ser desigual, com chuvas concentradas em poucos dias e intervalos prolongados de tempo seco.

As projeções analisadas pelo engenheiro agrônomo indicam possibilidade de redução das chuvas entre outubro e dezembro no território capixaba, no Norte do Rio de Janeiro, no Sul da Bahia e em áreas de Minas Gerais.

“A chuva pode até acontecer, mas será muito irregular. Esse é o problema. O produtor pode receber uma chuva, iniciar o plantio ou tomar uma decisão no campo e depois enfrentar um período longo sem precipitação”, explica.

A situação poderá se prolongar durante o verão. Entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027, Coutinho observa sinais de chuva abaixo da média em parte do Centro-Oeste, do Nordeste e do Sudeste, incluindo o Espírito Santo.

Além da redução ou má distribuição das precipitações, o período poderá ser marcado por calor intenso. A combinação entre temperaturas elevadas, evaporação acelerada e intervalos sem chuva tende a reduzir a umidade do solo e aumentar a necessidade de irrigação.

Café e cacau podem ser afetados

A irregularidade preocupa especialmente as regiões produtoras de café do Espírito Santo e as áreas de cultivo de cacau no sul da Bahia e no território capixaba.

A primavera coincide com fases importantes do desenvolvimento das lavouras de café, como floradas, formação dos frutos e crescimento vegetativo. Chuvas isoladas podem estimular a abertura das flores, mas a falta de precipitação nas semanas seguintes pode prejudicar o pegamento e o desenvolvimento inicial dos grãos.

Coutinho alerta que a situação precisa ser acompanhada de forma regionalizada. O comportamento do Atlântico, especialmente a temperatura das águas próximas à costa brasileira, também poderá interferir na entrada de umidade e na distribuição das chuvas no Espírito Santo e no Nordeste.

“O início da estação chuvosa não vai ser fácil. Vai depender muito do Atlântico. O El Niño é um fator importante, mas não atua sozinho”, afirma.

A própria Noaa destaca que a intensidade do fenômeno não determina automaticamente a gravidade dos impactos em cada região. Um El Niño muito forte aumenta a probabilidade de determinados padrões climáticos, mas não garante que eles ocorrerão da mesma forma em todos os estados ou municípios.

Chuva fora de época antes da primavera

Antes do período mais crítico, o Espírito Santo ainda poderá registrar episódios de chuva durante julho e agosto, meses normalmente associados à estação seca em grande parte do Brasil.

Os modelos avaliados por Coutinho indicam aumento da umidade sobre áreas do Sudeste entre o fim de julho e agosto, alcançando Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. A previsão não significa chuva contínua, mas aponta possibilidade de passagens de frentes frias e precipitações isoladas fora do padrão mais seco da época.

No Centro-Oeste e em parte do Sudeste, essas chuvas antecipadas também exigem cautela. Segundo o engenheiro agrônomo, a ocorrência de precipitações entre agosto e setembro pode criar uma falsa impressão de início da estação chuvosa.

O risco é que produtores antecipem o plantio da safra de verão e enfrentem posteriormente veranicos prolongados entre outubro e dezembro.

Sul terá cenário oposto

Enquanto o Espírito Santo, o Nordeste e parte do Centro-Oeste podem enfrentar irregularidade e falta de chuva, o Sul do Brasil tende a registrar precipitações frequentes e, em alguns momentos, excessivas.

Coutinho prevê aumento expressivo das chuvas principalmente no Rio Grande do Sul, com reflexos também em Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul. O excesso de umidade poderá dificultar a colheita das culturas de inverno, atrasar operações agrícolas e comprometer o início da safra de verão.

Também haverá risco maior de temporais acompanhados por vento forte e granizo durante a transição entre o inverno e a primavera.

“Vamos ter problemas relacionados ao solo, à colheita da safra de inverno e ao plantio da safra de verão. No Sul, há risco de excesso de chuva. No Centro-Oeste e em parte do Sudeste, a preocupação são os veranicos e o calor”, resume Coutinho.

A recomendação é que produtores rurais evitem tomar decisões com base apenas em previsões de longo prazo. O acompanhamento de boletins atualizados, da umidade do solo, dos reservatórios e das condições específicas de cada propriedade será determinante para o planejamento da irrigação, do plantio e dos demais manejos ao longo da primavera e do verão.

Sobre o autor Fernanda Zandonadi Desde 2001, Fernanda Zandonadi atua como jornalista, destacando-se pelo alto profissionalismo e pela excelência na escrita de suas reportagens especiais. Tem um conhecimento aprofundado em agronegócio, cooperativismo e economia, com a habilidade de traduzir temas complexos em textos de grande impacto e relevância. Seu rigor e qualidade na apuração e narração de histórias do setor garantiram que seu trabalho fosse constantemente reconhecido pela crítica especializada, o que a levou a conquistar múltiplas distinções e reconhecimentos em premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos

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