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Agência dos Estados Unidos já prevê possibilidade de El Niño forte em 2026

Após meses de neutralidade e enfraquecimento da La Niña, boletim climático dos EUA indica possibilidade de evento moderado, forte ou muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027

El Niño 2026
Imagem: NOAA

Depois de meses de transição climática no Oceano Pacífico, uma agência dos Estados Unidos passou a indicar, de forma mais clara, a possibilidade de formação de um El Niño forte em 2026. O boletim mais recente do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos, ligado à NOAA, aponta que o fenômeno pode surgir entre maio e julho e persistir até pelo menos o fim do ano. Para o trimestre entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, o órgão já considera chances semelhantes de um evento moderado, forte ou muito forte.

O relatório, atualizado em 4 de maio, marca uma mudança importante no acompanhamento do fenômeno. O sistema de alerta ENSO aparece agora como “aviso final de La Niña” e “observação de El Niño”. Na prática, isso significa que a fase fria do Pacífico perdeu força, enquanto os sinais de aquecimento começam a ganhar consistência nas áreas monitoradas.

Segundo o boletim, as condições atuais ainda são neutras. Ou seja, nem El Niño nem La Niña estão plenamente configurados. Mesmo assim, a previsão aponta 80% de chance de neutralidade entre abril e junho e 61% de probabilidade de formação do El Niño entre maio e julho. A tendência, segundo a agência norte-americana, é que o fenômeno persista até pelo menos o fim de 2026.

A principal novidade está na projeção de intensidade. Para o período de novembro de 2026 a janeiro de 2027, o boletim indica chances próximas de 25% para três cenários: El Niño moderado, forte ou muito forte. A possibilidade de permanência em neutralidade é menor, próxima de 10%.

Os sinais de mudança começaram a se consolidar após o enfraquecimento da La Niña. Entre agosto de 2025 e o início de janeiro de 2026, temperaturas abaixo da média se fortaleceram em partes do Pacífico Equatorial. Desde janeiro, no entanto, esse resfriamento passou a perder força em grande parte da região.

A partir de fevereiro, águas mais quentes começaram a aparecer no extremo leste do Pacífico Equatorial. Em meados de abril, temperaturas próximas ou acima da média já se expandiam por boa parte do oceano. Esse comportamento é um dos fatores que sustentam a maior probabilidade de transição para El Niño nos próximos meses.

As medições semanais mais recentes mostram anomalias positivas nas principais regiões usadas para acompanhar o fenômeno. A região Niño 4 registrou 0,5°C acima da média; a Niño 3.4, 0,4°C; a Niño 3, 0,5°C; e a Niño 1+2, 0,7°C. A região Niño 3.4 é uma das principais referências para a classificação e o monitoramento do ENSO.

O aquecimento também aparece abaixo da superfície do oceano. De acordo com o relatório, nos últimos dois meses, temperaturas subsuperficiais acima da média se fortaleceram no Pacífico Equatorial centro-leste e leste. Esse acúmulo de calor em camadas mais profundas costuma ser acompanhado de perto porque pode anteceder ou reforçar episódios de El Niño.

Outro ponto observado é o conteúdo de calor na camada superior do oceano, entre a superfície e 300 metros de profundidade. Segundo a agência, os valores recentes estão acima da média, enquanto o índice de inclinação da termoclina está abaixo da média. Esse conjunto de indicadores reforça a possibilidade de avanço para uma fase quente no Pacífico.

O boletim também registra mudanças nos ventos. Em março e no início de abril, anomalias de vento de oeste se fortaleceram no Pacífico ocidental e próximo à Linha Internacional de Data. Em meados e no fim de abril, esse padrão também surgiu no Pacífico leste e centro-leste. Essa configuração pode favorecer o deslocamento de águas mais quentes para leste, condição associada ao desenvolvimento do El Niño.

Apesar do avanço dos sinais de aquecimento, o índice RONI, usado pela NOAA para monitorar o ENSO em um contexto de oceanos globalmente mais quentes, ainda marcava -0,5°C no trimestre fevereiro-abril de 2026. Esse valor está no limite associado à La Niña, mas o conjunto dos dados indica enfraquecimento da fase fria e avanço das condições neutras.

A comparação histórica ajuda a dimensionar o cenário. O boletim mostra que o El Niño de 2015/2016 atingiu valores elevados no índice RONI, com pico de 2,4°C no trimestre novembro-dezembro-janeiro. A referência indica a força daquele episódio, considerado um dos mais intensos da série recente. Para 2026/2027, ainda não há confirmação de repetição desse padrão, mas a possibilidade de um evento forte ou muito forte já aparece nas projeções.

De acordo com o modelo climático CFS.v2, do NCEP, a tendência é de manutenção das condições neutras por mais um ou dois meses, seguida de transição para El Niño entre maio e julho de 2026.

A eventual confirmação do fenômeno deve ser acompanhada com atenção no Brasil. O El Niño costuma influenciar a circulação atmosférica e pode alterar a distribuição das chuvas e das temperaturas. Os impactos, porém, variam conforme a intensidade do evento, a época do ano e a interação com outros sistemas climáticos.

No setor agropecuário, alterações no regime de chuva podem afetar o calendário de plantio, a colheita, o manejo de pragas e doenças, a disponibilidade de água e a produtividade. Culturas como café, soja, milho, frutas e hortaliças podem exigir planejamento mais cuidadoso caso o aquecimento do Pacífico se consolide nos próximos meses.

As atualizações sobre o ENSO são feitas mensalmente pela agência norte-americana. Até o momento, o cenário oficial é de neutralidade, mas o alerta de observação para El Niño e as projeções de intensidade colocam 2026 no centro das atenções climáticas.

Sobre o autor Fernanda Zandonadi Desde 2001, Fernanda Zandonadi atua como jornalista, destacando-se pelo alto profissionalismo e pela excelência na escrita de suas reportagens especiais. Tem um conhecimento aprofundado em agronegócio, cooperativismo e economia, com a habilidade de traduzir temas complexos em textos de grande impacto e relevância. Seu rigor e qualidade na apuração e narração de histórias do setor garantiram que seu trabalho fosse constantemente reconhecido pela crítica especializada, o que a levou a conquistar múltiplas distinções e reconhecimentos em premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos