Espírito Santo em alerta

Seca avança e já atinge todo o Espírito Santo; veja os municípios em situação mais crítica

Boletim aponta 25 pontos de captação em atenção e três em estado crítico, enquanto rios permanecem com vazões abaixo do esperado para agosto

seca Espírito Santo
Foto ilustrativa

A seca se agravou e já alcança todo o Espírito Santo em intensidade moderada. Em junho, 100% do território capixaba estava classificado com seca fraca. A mudança ocorrida em apenas um mês é apontada pelo Monitor de Secas da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e integra o quinto boletim do Centro Integrado de Comando e Controle para o Enfrentamento dos Impactos do Fenômeno El Niño (CICC El Niño), atualizado em 17 de agosto.

A classificação indica a possibilidade de impactos combinados de curto e longo prazo, com reflexos sobre pastagens, atividades agrícolas, umidade do solo, vazões dos rios e ecossistemas. O agravamento ocorre durante o período normalmente mais seco do ano no Espírito Santo, mas ganha maior relevância diante da perspectiva de temperaturas acima da média e da intensificação do El Niño nos próximos meses.

Os reflexos já aparecem nos sistemas utilizados para o abastecimento público. Dos 101 pontos de captação monitorados pela Companhia Espírito-santense de Saneamento (Cesan), 25 estão em situação de atenção e três foram classificados como críticos. Os 28 pontos estão distribuídos por 17 municípios.

Captações mais críticas

As captações críticas estão localizadas em Fundão, no Ribeirão Braço do Norte, em São Roque do Canaã, no Rio Santa Maria do Doce, e em Venda Nova do Imigrante, na Barragem Bananeiras. Nesses locais, a redução do nível dos mananciais já exigiu medidas para manter o abastecimento e poderá provocar problemas em curto prazo caso as temperaturas permaneçam elevadas e as chuvas sejam insuficientes.

Também existem pontos em situação de atenção na Serra, Afonso Cláudio, Água Doce do Norte, Barra de São Francisco, Conceição da Barra, Conceição do Castelo, Mantenópolis, Pedro Canário, Santa Leopoldina, Santa Maria de Jetibá, Santa Teresa, São Gabriel da Palha, São José do Calçado e Vila Valério, além dos municípios que possuem captações críticas.

Apesar do quadro, o boletim informa que aproximadamente 72% dos pontos monitorados continuam operando normalmente. Até o momento, não há indicação de comprometimento significativo do abastecimento público no estado.

Chuvas não recuperaram rios imediatamente

As chuvas registradas entre os dias 10 e 16 de agosto interromperam as sequências de dias secos em grande parte das estações meteorológicas. Os volumes, no entanto, foram distribuídos de maneira desigual. Enquanto Iconha acumulou 116,2 milímetros, Colatina e Itaguaçu registraram apenas 3 milímetros. Em Vitória, o volume chegou a 81,6 milímetros.

A precipitação superou a evapotranspiração em 23 das 33 estações analisadas, o que indica uma reposição de água em parte das localidades. O boletim ressalta, porém, que esse resultado meteorológico não representa recuperação imediata da umidade do solo, das vazões dos rios ou dos sistemas de abastecimento.

Antes da chegada das chuvas, quase todo o território capixaba havia registrado entre 14 e 16 dias sem precipitação significativa durante a primeira quinzena de agosto. No Norte, Noroeste e Centro do estado, houve sequências ininterruptas de até 16 dias secos. As temperaturas máximas médias nessas regiões ficaram entre 30°C e 34°C, até 2°C acima do padrão histórico.

O monitoramento da Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh) mostra que houve leve recuperação dos rios após as chuvas, mas as vazões continuam abaixo do esperado para agosto. A situação mais delicada permanece na bacia do Rio Santa Joana, onde já existem restrições de uso da água.

Para o período de 18 a 24 de agosto, a maior parte dos rios monitorados apresenta tendência de redução das vazões durante boa parte da semana. Santa Maria do Rio Doce, Mimoso do Sul e Castelo devem permanecer abaixo da Q90, referência usada pela Agerh para representar condições de baixa disponibilidade hídrica. No Santa Joana, alguns cenários começam com vazões inferiores à metade dessa referência.

Previsão indica novas chuvas

A previsão para a segunda quinzena de agosto aponta volumes entre 30 e 60 milímetros no Sul e em grande parte da faixa litorânea. No Oeste e no Noroeste, os acumulados esperados são menores, entre 10 e 20 milímetros.

Os modelos climáticos não indicam tendência de chuva abaixo da média no Espírito Santo durante agosto. Para a temperatura, entretanto, há maior concordância entre as projeções, que apontam valores acima da média em todo o estado.

O boletim pondera que a intensidade do El Niño não determina, sozinha, a dimensão dos impactos no Espírito Santo. O comportamento das chuvas também dependerá da circulação atmosférica regional, das temperaturas do Oceano Atlântico, da umidade já armazenada no solo e da regularidade das precipitações durante a transição para a estação chuvosa.

As projeções do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos, ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (CPC/NOAA), indicam mais de 90% de probabilidade de o El Niño alcançar a categoria muito forte. A chance chega a aproximadamente 95% no trimestre entre outubro e dezembro. Os modelos também apontam que o fenômeno deve permanecer ativo no início de 2027.

Fogo avança com a estiagem

O ressecamento da vegetação já amplia o risco de incêndios. Dados de todos os satélites utilizados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) identificaram 187 focos de calor no Espírito Santo entre 10 e 15 de agosto. Linhares liderou o levantamento, com 33 registros, seguido por São Mateus, com 21.

Também foi identificado um núcleo de ocorrências no Caparaó, com 13 focos em Iúna e 12 em Irupi. A concentração de queimadas acompanha as áreas que enfrentaram longos períodos sem chuva e temperaturas mais elevadas.

O CICC El Niño recomenda economia de água, suspensão do uso do fogo em áreas de vegetação e acompanhamento dos alertas emitidos pelos órgãos oficiais. A orientação é comunicar imediatamente qualquer princípio de incêndio ao Corpo de Bombeiros, pelo telefone 193.

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