Vitivinicultura capixaba

Vinho capixaba pode repetir sucesso alcançado pelo café

Para Carmen Sousa, analista e coordenadora de Café e Vinho do Sebrae Nacional, fortalecimento do setor depende da união entre produtores, turismo, comércio e divulgação dos produtos regionais

Vinho capixaba
Foto: arquivo pessoal/divulgação

O caminho percorrido pela cafeicultura pode servir de referência para que a produção de vinho também gere renda, identidade regional e novas experiências turísticas no Espírito Santo. A avaliação é de Carmen Sousa, analista e coordenadora de Café e Vinho do Sebrae Nacional, que vê na vitivinicultura capixaba a mesma disposição para crescer observada no setor de cafés há pouco mais de uma década.

Durante a RuralturES, realizada em Venda Nova do Imigrante, Carmen destacou a evolução das propriedades rurais que deixaram de atuar apenas na produção de café e passaram a desenvolver marcas próprias, embalagens, experiências turísticas e produtos de maior valor agregado.

“Eu sinto a mesma intensidade em querer fazer e em trazer oportunidade para a região. A produção de uva já existe aqui e os produtores estão cada vez mais querendo saber o que pode acontecer e o que pode trazer prosperidade para eles”, afirmou.

Para a analista, o desenvolvimento de uma atividade rural precisa ser medido tanto pelo envolvimento das famílias quanto pelo resultado econômico alcançado. “Quando a gente trabalha com produtor, quer ver o brilho nos olhos, mas quer também ver dinheiro no bolso. A gente quer que ele se reinvente diante de todo esse processo de mudança e transformação.”

Café mostra o caminho

A trajetória do café especial no Espírito Santo ajuda a mostrar como a organização regional, a valorização da origem e a construção de marcas podem mudar a realidade das famílias produtoras. Carmen lembra que, anos atrás, muitos cafeicultores comercializavam apenas o produto tradicional. Com o tempo, parte deles avançou para os segmentos gourmet e especial, criou marcas e passou a contar a história da própria família.

Essa transformação também aparece nas embalagens, na apresentação dos estandes, nas rotas turísticas e na forma como as regiões produtoras são apresentadas ao público. “É grandioso ver a evolução das embalagens e até das formas dos estandes”, disse.

O contato direto com os visitantes também amplia a divulgação das propriedades. Segundo Carmen, muitas pessoas descobrem durante os eventos que existem rotas, cafeterias, pousadas e experiências rurais a poucas horas de Vitória. “Esse boca a boca é incrível. A pessoa pergunta onde fica, quanto tempo leva para chegar saindo de Vitória, e a gente vai mostrando. É assim que a informação circula”.

O trabalho desenvolvido pelo Sebrae com a cafeicultura começou com quatro projetos, três em Minas Gerais e um no Espírito Santo. Atualmente, segundo Carmen, a instituição atua com café em 17 estados brasileiros e já mapeou 52 regiões produtoras. Desse total, 24 possuem Indicação Geográfica.

No Espírito Santo, a conquista de três Indicações Geográficas relacionadas ao café demonstra, na avaliação da analista, a força da organização entre produtores e instituições.“O estado tem todo esse histórico de cafeicultura e uma governança de parceiros muito forte. Isso faz diferença para que o Espírito Santo avance naquilo que se propõe a fazer. Os parceiros são comprometidos com as ações.”

Brasil ainda precisa conhecer o próprio café

Às vésperas de o Brasil completar 300 anos de cultura do café, em 2027, Carmen considera que o país ainda tem o desafio de apresentar sua diversidade ao consumidor brasileiro. Cafés cultivados em diferentes regiões, espécies, variedades, altitudes e condições climáticas podem apresentar características sensoriais completamente distintas. “O Brasil é um país com diversos sabores. Um café produzido aqui pode ter um sabor totalmente diferente daquele produzido no Paraná, por exemplo. Essa riqueza precisa ser mostrada ao mundo”.

Além do sabor, o café também carrega histórias familiares e referências culturais transmitidas entre gerações. Para Carmen, a modernização do setor não elimina essa herança. Ao contrário, permite que ela seja recuperada e apresentada de novas maneiras.

“Eu falo muito que o futuro tem coração antigo. O mundo está tão moderno, mas a gente está trazendo as histórias das famílias, dos antepassados, dos bisavós, dos avós e dos netos.”

Vinho precisa entrar nos estabelecimentos locais

Na vitivinicultura, um dos primeiros desafios será aproximar os vinhos produzidos na região dos restaurantes, hotéis, pousadas e demais estabelecimentos turísticos. Carmen contou que, durante sua passagem por Venda Nova do Imigrante, encontrou uma pousada com cervejaria artesanal e uma adega abastecida por vinhos do Sul do Brasil e produtos importados, mas sem rótulos locais.

“Olha o quanto de oportunidade se perde quando o vinho da região não é divulgado dentro dos estabelecimentos que precisam tê-lo, seja no restaurante, na pousada ou no hotel. A gente precisa começar a comunicar e levar esses produtos para dentro desses lugares.”

A presença dos rótulos capixabas no comércio regional pode fortalecer diferentes atividades ao mesmo tempo. O produtor amplia o mercado, o estabelecimento oferece uma experiência ligada ao território e o visitante passa a conhecer um produto que poderá procurar novamente ou indicar a outras pessoas.

Carmen defende que esse movimento comece dentro do próprio Espírito Santo. “Temos que partir de casa para divulgar o que é nosso. Não pode esperar que as pessoas de fora façam isso. Eu levo essa experiência para Brasília e alguém de Brasília leva para outro lugar. A pessoa passa a dizer que é preciso ir ao Espírito Santo, conhecer Venda Nova do Imigrante e outras cidades e ver o que acontece ao redor com aqueles produtores.”

Turismo transforma produto em experiência

A integração entre produção rural, memória familiar e turismo aparece também em espaços que recuperam elementos da cultura italiana, como a Casa Nostra, visitada por Carmen durante a feira. Xícaras, jarras antigas e utensílios de ágata ajudam a construir uma ambientação ligada às lembranças familiares e à história da imigração. “Tudo isso remete a algum pensamento, a uma situação vivida pela família ou a algum lugar que a pessoa conheceu. É uma memória afetiva.”

Para a analista, o vinho capixaba pode crescer dentro dessa combinação entre produto, território, história e experiência. A atividade já conta com produtores interessados, tradição agrícola, fluxo turístico e instituições dispostas a apoiar a organização do setor.

O desafio agora é transformar esse potencial em mercado. A experiência acumulada com o café mostra que a prosperidade não depende apenas da qualidade do que é produzido. Ela também passa pela criação de marcas, pela cooperação regional, pela presença nos estabelecimentos locais e pela capacidade de contar ao consumidor de onde vem cada produto e quem são as famílias responsáveis por ele.

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