Viticultura capixaba

Produção de uvas ganha espaço em Jerônimo Monteiro

Agrônomo Marco Aurélio Caiado investe na produção de uvas no município e amplia alternativas agrícolas na região

Foto edição 63-uva
Caiado com o neto Joaquim no colo ao lado de Amanda, uma das três filhas e o marido dela, Saulo

A produção de uvas em Jerônimo Monteiro avança como alternativa agrícola no município do sul do Espírito Santo. O agrônomo e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), Marco Aurélio Caiado, o “Lelo”, conduz o cultivo na Fazenda Recreio do Panamá, localizada a 9 km da sede, no sentido Alegre. 

Natural do município e integrante da quarta geração da família Caiado na propriedade, Lelo (62) é doutor e coordenador do curso de Tecnologia em Cafeicultura do Ifes de Alegre. Ele atuou por muitos anos no campus de Vitória e, por volta de 2019, passou a trabalhar em Alegre. A área do cultivo de uvas pertence a ele e a três irmãos. A aquisição ocorreu quando ainda realizava doutorado nos Estados Unidos.

A propriedade, que foi de seu bisavô e já se estendia até o Rio Norte, passou por reorganização ao longo do tempo. Parte das áreas mais inclinadas e de preservação permanente foi mantida como floresta. As áreas menos inclinadas foram destinadas à laranja, em cerca de 7 hectares, enquanto a parte mais úmida foi direcionada à pastagem. O primeiro plantio realizado foi de mogno, em 10 hectares.

A iniciativa amplia a diversificação agrícola em um município conhecido como “Terra da Laranja” e tradicionalmente voltado ao café, à citricultura e à pecuária leiteira. No Ifes, Lelo ministrou a disciplina de vitinicultura tropical no curso de Agronomia, com aula prática de poda realizada em agosto.

A partir de 2011, o produtor avaliou que a uva poderia apresentar melhor resultado econômico que a laranja, em um contexto de preços baixos do café. O projeto de viticultura começou a ser estruturado em 2018, com o plantio iniciado em 2020. Atualmente, Caiado cultiva 1,1 hectare de Niágara Rosada e 0,3 hectare de uvas viníferas. Foram testadas cerca de 400 mudas de diferentes variedades.

Entre as viníferas, permaneceram as variedades Syrah e BRS Lorena, esta última desenvolvida pela Embrapa. Segundo o produtor, as duas apresentaram maior resistência a fungos, problema recorrente na região devido ao verão chuvoso. Das cinco variedades inicialmente plantadas, essas foram as que melhor se adaptaram às condições locais.

A técnica adotada inclui a chamada dupla poda. O manejo permite que a maturação ocorra no inverno, período com dias ensolarados e noites mais frescas. A estratégia busca melhorar a qualidade da fruta e, no caso das viníferas, viabilizar a produção de vinho. “A uva é uma planta que se não tomar muito cuidado, pássaros e insetos comem, doenças atacam e há falta de nutrientes”, afirma o produtor.

Essa é a quarta colheita da Niágara Rosada. A produtividade registrada é de cerca de cinco quilos por planta, o que representa aproximadamente 20 toneladas por hectare. A safra começou no fim de dezembro de 2025 e terminou em fevereiro deste ano. A estimativa parcial é de cerca de 15 toneladas colhidas em metade do parreiral. Um talhão ainda está em poda e deve produzir entre junho e julho.

A Niágara Rosada é comercializada na Grande Vitória, em Castelo e em redes de supermercados. Parte das entregas ocorre para comerciantes que revendem a granel. Segundo Lelo, a demanda tem aumentado nos pontos de venda onde a fruta é oferecida. “Nos mercados em que colocamos a uva, quando os consumidores provam em um dia, no outro querem aquela mesma uva”, relata.

Para a Secretaria de Estado da Agricultura (Seag), iniciativas como a de Jerônimo Monteiro indicam potencial de diversificação produtiva no campo capixaba. “Incentivar o cultivo de uvas em Jerônimo Monteiro e no Sul do Espírito Santo é apostar em uma fruticultura de maior valor agregado, capaz de diversificar a renda no campo, fortalecer a agricultura familiar e abrir novas possibilidades de agroindustrialização e turismo rural”, afirma o ex-secretário, Enio Bergoli. 

Ainda de acordo com Bergoli, o Plano Estratégico de Desenvolvimento da Agricultura Capixaba (Pedeag 4 2023/2032) mostra que esse caminho depende de assistência técnica qualificada, pesquisa adaptada aos microclimas locais, organização dos produtores e políticas públicas consistentes. “Com planejamento, a uva pode se consolidar como mais uma vocação promissora para o desenvolvimento sustentável da região”.

Na mesma linha, o gestor de projetos da Seag, Filipe Barbosa Martins, avalia que a atividade pode ampliar oportunidades para produtores rurais. “O incentivo à produção de uvas no Espírito Santo pode representar uma importante oportunidade para fortalecer a agricultura familiar, promovendo diversificação de culturas, geração de renda e maior estabilidade econômica para pequenos produtores. Apoiar novos cultivos significa abrir caminhos para que as famílias rurais agreguem valor à produção, ampliem sua autonomia produtiva e encontrem novas oportunidades de comercialização e agroindustrialização”.

A experiência na Fazenda Recreio do Panamá também reforça a busca por novas alternativas produtivas em uma região tradicionalmente associada a outras atividades, ampliando o debate sobre diversificação agrícola e desenvolvimento regional no sul do Espírito Santo.

Viticultor mantém tradição de 45 anos em Alfredo Chaves

Há mais de 45 anos, o cultivo da uva faz parte da rotina e da história do viticultor Severino Busato, em São Bento de Urânia, zona rural de Alfredo Chaves. Em meio ao cenário típico do campo, cercado por parreirais e pelo trabalho familiar, a propriedade tem se tornado ponto certo para quem busca viver a experiência rural e consumir produtos direto do produtor.

Trabalho em família fortalece a produção de uvas e o turismo rural na propriedade de Severino Busato.

Atualmente, Severino cultiva cerca de 200 pés de uva, das variedades Isabel, Isabel Precoce e Niágara, mantendo viva uma tradição passada de geração em geração. O diferencial está no contato direto com quem produz. Os visitantes são recebidos todos os dias, conhecem de perto o cultivo, provam as frutas no parreiral e podem comprar a uva direto do pé, colhida na hora.

O trabalho no campo é fortalecido pela união da família. A mulher, Zelinda, o filho Valdir, e a neta, Esther, participam ativamente do dia a dia da propriedade, acolhendo os turistas e ajudando no atendimento. Além das uvas, a família também comercializa uma variedade de produtos artesanais preparados ali mesmo, como geleias, licores, pão caseiro e outras delícias feitas com cuidado e sabor por dona Zelinda.

Quem deseja conhecer a propriedade e garantir uvas frescas diretamente do produtor pode ir até São Bento de Urânia. O acesso pode ser feito pela BR-262, via Victor Hugo, ou por Alfredo Chaves, seguindo pela localidade de Matilde/Carolina. (*Fonte: PMAC)

Sobre o autor Leandro Fidelis Formado em Comunicação Social desde 2004, Leandro Fidelis é um jornalista com forte especialização no agronegócio, no cooperativismo e na cobertura aprofundada do interior capixaba. Sua trajetória é marcada pela excelência e reconhecimento, acumulando mais de 25 prêmios de jornalismo, incluindo a conquista inédita do IFAJ Star Prize 2025 para um jornalista agro brasileiro. Com experiência versátil, ele construiu sua carreira atuando em diferentes plataformas, como redações tradicionais, rádio, além de desempenhar funções estratégicas em assessoria de imprensa e projetos de comunicação pública e institucional. Ver mais conteúdos

Comentários 0

Carregando comentários…