Fruticultura em expansão

De Petrolina ao Espírito Santo, os novos caminhos da fruticultura

Com inspiração em polos consolidados como Petrolina, Espírito Santo fortalece novas rotas produtivas e amplia oportunidades no setor de frutas

uva
Foto: divulgação / Ara Agrícola

Petrolina, no semiárido pernambucano, não se tornou uma potência da fruticultura por acaso. A cidade, integrada ao Vale do São Francisco, virou símbolo de uma agricultura irrigada que combinou água, escala, tecnologia, logística, investimento público e presença empresarial. O resultado é uma região que concentra quase toda a força exportadora do Brasil em duas frutas estratégicas. Segundo a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), o Vale responde por 90% da manga e 98% da uva exportadas pelo país.

Voltando às terras capixabas, o Espírito Santo já tem protagonismo na fruticultura, e os pomares são fonte importante de diversificação das atividades agrícolas. São 14 polos de frutas no estado, que englobam o plantio de abacaxi, acerola, banana, cacau, caju, coco, goiaba, laranja, mamão, manga, maracujá, morango, tangerina e uva. No agronegócio, o conjunto de produtos da fruticultura capixaba movimentou, em 2023, cerca de US$ 28,8 milhões com a exportação de produtos in natura e também com valor agregado.

Central de abastecimento do Espírito Santo (Ceasa-ES). Foto: Ascom Ceasa-eS

Aí entra a questão. Se, no Espírito Santo, as frutas são, em grande parte, responsáveis pela diversificação agrícola, no Vale do São Francisco a fruticultura virou protagonista do eixo econômico. Dados reunidos por instituições ligadas ao setor mostram uma estrutura produtiva ancorada em mais de 100 mil hectares irrigados, uma cadeia que movimenta centenas de milhares de empregos e uma cultura empresarial apoiada em inovação e exportação.

Frutas que vêm de lá

E essa engrenagem bem calibrada chega diariamente ao mercado capixaba. O gerente comercial da Ara Agrícola, Maicon Roberto Correia Silva, afirma que “toda uva de mesa consumida no Espírito Santo vem do Vale do São Francisco. São frutas de Juazeiro-BA, Casa Nova-BA, Petrolina-PE, Lagoa Grande-PE, Santa Maria da Boa Vista-PE”. Segundo ele, a empresa, sediada em Petrolina, em Pernambuco, produz cerca de 11 milhões de quilos de uva por ano e tem o Sudeste como principal destino no mercado interno. “Eu diria que 70% da nossa produção chega ao Sudeste, (São Paulo, Rio, Minas Gerais e Espírito Santo). Desses 70%, 10% vão diretamente para o Espírito Santo”, relatou.

E o protagonismo não para nas uvas. De acordo com a Abrafrutas, Petrolina e o Vale do São Francisco são responsáveis por cerca de 90% da produção nacional de uvas e mangas destinadas à exportação. Em 2024, as frutas da região chegaram a mais de 50 países, movimentando aproximadamente US$ 1 bilhão em exportações. Esse desempenho consolidou a cidade como o maior polo exportador de frutas frescas do Brasil. Além das uvas e mangas, produtos que lideram as exportações, a região também se destaca na produção de goiaba, coco, banana, acerola e outras frutas tropicais.

Esse retrato ajuda a dimensionar uma diferença central. Enquanto Petrolina se especializou em produzir em grande escala e abastecer outros mercados, o Espírito Santo ainda aparece, em muitos casos, como comprador relevante dessa produção. Dados da Ceasa mostram que as frutas comercializadas no estado vêm de 17 unidades da federação, entre elas Pernambuco, de onde chegam especialmente manga e uva.

Há ainda um ativo decisivo: o mamão. O Espírito Santo é apontado como o maior produtor e exportador nacional da fruta, com destaque para Linhares, no norte capixaba. O Incaper também ressalta que o estado reúne algumas das maiores produtividades do país nessa cultura.

Para o diretor executivo da Abrafrutas, Eduardo Brandão, o ponto de partida capixaba é sólido, e a fruticultura do Espírito Santo está “em franca expansão nos últimos anos”, podendo o estado já ser visto como “um dos grandes players importantes do mercado brasileiro, tanto para a fruticultura do mercado interno, como para a fruticultura de exportação”.

Eduardo Brandão, Diretor Executivo da Abrafrutas

Sobre a guinada em Pernambuco, que se tornou grande polo produtor, e como essa experiência pode ser usada em terras capixabas, ele avalia que a irrigação organizada e apoiada por políticas públicas foi o divisor de águas.

“Todos sabem que a fruticultura carece de água, mas não água da chuva. Uma água que tem que ser dosada e colocada na medida do possível para que a produção, a produtividade e a qualidade da fruta sejam boas. Outra vantagem importante diz respeito às políticas públicas. Por ser uma região extremamente pobre e a fruticultura ser uma atividade econômica que traz a geração de emprego e renda, isso fez com que a opção de produzir frutas no vale fosse a opção mais viável naquele momento. Através de políticas públicas criaram-se os polos de fruticultura, dando condição e criando estrutura para que essa água do São Francisco fosse captada por meio de canais e colocadas não só na beira do rio, mas sim área dentro da região semi-árida. Então, isso tudo junto fez do Vale o que ele é hoje o maior polo de fruticultura do Brasil e talvez um dos maiores polos de produção de frutas do mundo.”

No caso capixaba, a equação muda. O relevo, a disponibilidade hídrica e a configuração territorial são diferentes. “As áreas do Espírito Santo não são tão planas como no Vale do São Francisco, existem limitações e até na irrigação, que tem que ser feita de forma diferenciada, porque o Rio São Francisco influencia muito no vale. Mas com organização, recursos e políticas públicas voltadas para isso, o Espírito Santo tem tudo para se tornar um grande polo de produção dentro do Brasil, mais do que já é hoje. A ideia é mostrar que o estado tem potencial para que possam ser desenvolvidos projetos voltados à política pública e ao desenvolvimento da fruticultura no estado do Espírito Santo”.

Esse ponto é central. Petrolina não é apenas uma referência porque produz muito. É referência porque transformou condições naturais adversas em vantagem competitiva. No semiárido, onde a chuva é escassa, a irrigação controlada permitiu previsibilidade, qualidade e janela comercial. Já o Espírito Santo parte de outra lógica: tem clima, diversidade de frutas, tradição produtiva e presença de agricultura familiar, mas precisa integrar melhor tecnologia, assistência técnica, logística, agroindústria e mercado externo para dar o próximo salto.

Fabrício Barreto, sócio-proprietário da Doce Bela. Foto: divulgação / Abrafruta

Tecnologia a serviço do campo

A tecnologia entra justamente nesse ponto. Em novembro de 2025, um grupo de empresários capixabas viajou à China em busca de soluções aplicadas ao agronegócio. Na comitiva estavam produtores de mamão, banana, limão e fabricantes de água de coco e sucos. O objetivo era observar automação, equipamentos para packing house e alternativas ligadas à redução da dependência de mão de obra. O diretor comercial do Grupo Total Farms, Rodrigo Martins, resumiu que a viagem trouxe “tecnologias para uso nos packing houses e abriu projetos de adaptação às necessidades de cada empresa. Já Fabrício Barreto, sócio-proprietário da Doce Bela, afirmou que a busca esteve menos ligada à lavoura em si e mais a “coisas de inovação ligadas à automação”, diante da dificuldade crescente de encontrar trabalhadores.

O movimento é revelador. O Espírito Santo já entendeu que não há competitividade duradoura sem tecnologia. Mas essa modernização ainda precisa ganhar escala e difusão. Há também o componente externo pressionando o setor. A fruticultura brasileira entrou em 2026 em alta, após registrar recorde de exportações pelo terceiro ano consecutivo, com receita próxima de US$ 1,5 bilhão, segundo a Abrafrutas.

No ano anterior, os Estados Unidos responderam por 7% do volume total exportado e por 12% do faturamento das frutas brasileiras. No caso da manga, os americanos consumiram 14% do volume exportado e responderam por 13% da receita dessa fruta.

Foi nesse contexto que o tarifaço acendeu o alerta. Segundo relato do presidente da Abrafrutas, Guilherme Coelho, os produtores de manga foram os mais atingidos entre as culturas exportadas ao mercado americano. A saída encontrada foi dividir o peso da sobretaxa ao longo da cadeia. “Procuramos representantes do setor e buscamos dividir o impacto dessa taxa de 50% entre os exportadores, os importadores e os supermercados. Cada um absorveu uma parte e o resultado foi positivo. Ninguém ganhou como ganhava no passado, mas também não tomou prejuízo”, afirmou.

Para o Espírito Santo, esse cenário funciona como alerta e oportunidade ao mesmo tempo. Alerta, porque mostra como os mercados externos podem mudar rapidamente as margens e exigir reação coordenada. Oportunidade, porque reforça a necessidade de diversificar destinos, agregar valor, investir em pós-colheita e elevar o padrão tecnológico da produção estadual. É justamente isso que fez Petrolina deixar de ser apenas uma área produtora para se tornar referência.

A lição que vem do Vale do São Francisco não é que o Espírito Santo deva copiar Petrolina. Não pode, nem faria sentido, afinal são bases geográficas distintas e realidades diversas. O que pode ser reproduzido é o método: planejamento, irrigação adequada à realidade local, tecnologia acessível, integração com o mercado e visão exportadora.

Hoje, o Espírito Santo já tem base produtiva, protagonismo no mamão, diversidade de frutas e empresários olhando para a inovação. O que ainda falta é dar unidade a esses ativos. Se conseguir transformar essa soma dispersa em projeto de estado, a fruticultura capixaba pode deixar de ser apenas promissora e passar a disputar, em outra escala, espaço entre os grandes polos brasileiros. Petrolina mostra que isso é possível. E o Espírito Santo pode ser um novo e forte ator desse movimento.

Incaper amplia aposta na fruticultura e abre novas frentes para o agro capixaba

O Espírito Santo vem consolidando uma estratégia de fortalecimento da fruticultura estadual em várias frentes, tendo a pesquisa pública como eixo central. À frente desse movimento está o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), que combina melhoramento genético, validação de tecnologias de manejo e transferência de conhecimento ao campo para ampliar a competitividade das lavouras capixabas. Esse avanço aparece de forma concreta em três linhas recentes de atuação: o lançamento de uma nova cultivar de banana, o desenvolvimento de tecnologia para escalonar a colheita do abacaxi e os resultados promissores de um estudo inédito com aceroleiras.

Um dos marcos mais visíveis dessa agenda foi o lançamento da banana Ambrosia, nova cultivar do Incaper apresentada em Alfredo Chaves. Selecionada e recomendada após mais de 20 anos de pesquisas, a variedade do tipo nanica foi desenvolvida para suprir a ausência de uma cultivar do subgrupo Cavendish resistente a doenças como sigatoka-amarela, sigatoka-negra e mal-do-Panamá, problema que afeta a bananicultura em todo o país.

No lançamento, o instituto distribuiu cerca de 1.200 mudas a produtores rurais, numa ação voltada à adoção inicial da nova tecnologia nas propriedades e à aproximação entre pesquisa, extensão rural e setor produtivo. O diretor-técnico do Incaper, Antonio Elias Souza da Silva, definiu a entrega como um novo marco para a cadeia da banana no estado. “É o ponto mais alto da pesquisa e da extensão rural do Incaper. O lançamento de uma variedade que vai fortalecer a cadeia produtiva, porque tem alta resistência às principais doenças e é altamente produtiva”, afirmou.

Além da resistência fitossanitária, a Ambrosia foi apresentada como uma cultivar com forte apelo econômico. Segundo o pesquisador José Aires Ventura, as plantas são mais robustas, com cachos superiores a 30 quilos, em média, o que amplia a produtividade. Ele também destacou a qualidade dos frutos e o potencial de uso pela agroindústria, já que a variedade apresenta teor de Brix (açúcar) superior ao da Grande Naine.

A atuação do Incaper, porém, não se limita à bananicultura. Na cultura do abacaxi, o instituto desenvolveu uma pesquisa para enfrentar um dos principais gargalos da produção capixaba: a floração natural desuniforme, que provoca colheitas irregulares, eleva custos e dificulta o planejamento da lavoura. O estudo mostrou que a aplicação de aviglicina (AVG), substância que inibe a produção de etileno, permite ao produtor controlar melhor o momento da floração e, consequentemente, escolher épocas mais vantajosas para a colheita.

Na prática, isso significa escapar da concentração de oferta entre novembro e janeiro, período de preços mais pressionados. De acordo com a pesquisadora Sara Dousseau Arantes, a tecnologia permite colher frutos de qualidade em fases de melhor remuneração ao agricultor. O experimento, conduzido entre 2019 e 2020 em Sooretama, apontou ainda que a aplicação correta pode inibir até 80% da floração natural, abrindo caminho para o escalonamento da produção ao longo do ano.

Outra frente estratégica está na acerola. Em estudo inédito no Espírito Santo, o Incaper avaliou 12 genótipos de aceroleira e verificou, já no primeiro ano de produção, desempenho médio duas vezes superior à média estadual. As plantas alcançaram 33 toneladas por hectare, acima das 14 toneladas por hectare registradas no estado em 2023 e também acima da média de Colatina, principal município produtor, que ficou em 30 toneladas por hectare no mesmo período.

Os resultados reforçam o potencial de diversificação e agregação de renda na fruticultura capixaba. Entre os materiais estudados, o genótipo G5 chamou atenção por poder alcançar 51,7 toneladas por hectare e rendimento aproximado de R$ 135 mil por hectare, segundo o pesquisador Marlon Dutra. O trabalho, realizado em Cachoeiro de Itapemirim em parceria com a Embrapa Semiárido, busca identificar variedades mais produtivas e com características superiores tanto para o mercado in natura quanto para o processamento industrial.

Em comum, essas iniciativas revelam uma política de fortalecimento da fruticultura baseada em pesquisa aplicada, adaptação às condições locais e transferência efetiva de tecnologia ao produtor. Mais do que lançar uma cultivar ou divulgar resultados de laboratório, o que o Espírito Santo vem construindo é uma agenda de longo prazo para tornar sua fruticultura mais eficiente, resiliente e sustentável, com respaldo técnico para ampliar produtividade, reduzir perdas e abrir novas possibilidades de mercado.

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