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Durante alguns anos da minha trajetória profissional, tive a oportunidade de estar à frente da mobilização e da gestão de projetos que chegaram a centenas de propriedades rurais. Foram produtores, profissionais, contratos, metas, equipes e muitos quilômetros percorridos.
Mas, olhando para trás, percebo que os maiores aprendizados daquele período não estavam nas planilhas. Estavam nas relações.
Quem trabalha no agro aprende rapidamente que um bom projeto pode abrir uma porta, o dinheiro pode viabilizar uma oportunidade e a tecnologia pode transformar uma atividade. Mas nada disso se sustenta por muito tempo sem confiança.
E confiança não pertence a uma empresa. Não está no contrato, não aparece em um cadastro e não pode ser tratada como parte de uma carteira de clientes. Ela pertence à relação e precisa ser conquistada continuamente.
Um produtor pode ter trabalhado durante anos com determinada organização, mas sua confiança foi construída com quem esteve presente, visitou sua propriedade, atendeu ao telefone, resolveu problemas e, principalmente, cumpriu aquilo que havia combinado.
Carteira de clientes pode constar em uma planilha. Confiança, não.
Talvez por isso um dos maiores erros de empresas e profissionais seja acreditar que uma relação construída no passado garante, permanentemente, um lugar à mesa no futuro.
Empresas precisam ganhar dinheiro. Profissionais precisam ser bem remunerados e projetos precisam gerar resultados. Não existe desenvolvimento sem uma atividade econômica saudável. Mas existe uma diferença enorme entre ganhar dinheiro com uma relação e gerar valor por meio dela.
Quando o resultado financeiro se torna mais importante do que as pessoas, a conta quase nunca fica apenas para quem rompeu aquela confiança. O próximo profissional encontra mais resistência. A próxima empresa precisa provar mais. Um novo programa pode ser recebido com desconfiança antes mesmo de começar.
É assim que bons projetos acabam pagando por promessas que não fizeram.
Essa talvez seja uma reflexão importante para todo o ecossistema do agro. Produtores, engenheiros, técnicos, empresários, pesquisadores, instituições e poder público dependem uns dos outros muito mais do que, às vezes, percebemos.
Hoje, olhando também para o desenvolvimento do Caparaó, vejo essa relação de maneira ainda mais ampla. Não faz sentido pensar isoladamente em agricultura, turismo, gastronomia, tecnologia e empreendedorismo.
O café produzido em uma propriedade pode movimentar uma cafeteria, gerar uma experiência turística e fortalecer a identidade de uma região. Uma tecnologia de irrigação pode aumentar a eficiência no campo. Um profissional pode transformar conhecimento em resultado. Uma boa conversa pode aproximar quem tem um problema de quem já possui parte da solução.
O Caparaó possui ativos extraordinários. Temos produção rural, cafés reconhecidos, natureza, turismo, gastronomia, conhecimento, profissionais qualificados, empreendedores e instituições.
Talvez nosso desafio não seja apenas criar novas oportunidades, mas conectar melhor aquelas que já existem.
Tenho me interessado cada vez mais por isso: construir pontes.
Entre o campo e a tecnologia.
Entre produção e mercado.
Entre café e turismo.
Entre profissionais e oportunidades.
Entre boas ideias e pessoas capazes de transformá-las em realidade.
Porque desenvolvimento regional não acontece somente com novos projetos ou mais recursos. Acontece quando um território consegue fazer suas pessoas, competências e oportunidades circularem e se encontrarem.
E nenhuma dessas pontes permanece de pé sem confiança.
Projetos começam e terminam. Contratos têm prazo. Tecnologias mudam. Gestões passam. Empresas também.
A reputação construída durante o caminho permanece.
Talvez, então, antes de perguntarmos quanto ainda podemos ganhar com uma relação, exista uma pergunta muito mais importante para quem pretende continuar sentado à mesa no futuro:
O que ainda podemos construir juntos?
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