Tradição e inovação

Além da caipirinha gigante: as histórias que movem São Roque do Canaã

Capital Estadual da Cachaça reúne produtores que transformam tradição, qualidade, diversificação e turismo rural em oportunidades no campo

Quem passa pela rodovia talvez enxergue São Roque do Canaã apenas como um município entre a região serrana e Colatina. Quem conhece sua história, porém, sabe que ali existe muito mais do que um ponto de passagem. Nos últimos dias, a cidade voltou aos holofotes ao produzir uma caipirinha de 1.500 litros durante a segunda edição do Festival da Cachaça, consolidando um novo recorde e atraindo milhares de visitantes para um evento que já nasce entre os principais do calendário turístico do Espírito Santo. 

Mas reduzir São Roque do Canaã ao tamanho de sua caipirinha seria injusto. Por trás do espetáculo existe um município que soube transformar tradição em oportunidade, agregar valor à produção rural e construir uma identidade baseada na qualidade, na inovação e na força da agricultura familiar. Ali, a cachaça é patrimônio, renda, turismo e desenvolvimento.

Força da qualidade

Reconhecida como Capital Estadual da Cachaça, São Roque do Canaã reúne um dos mais importantes polos produtores do destilado no Espírito Santo. O município possui dezenas de agroindústrias familiares ligadas à cadeia da cana-de-açúcar e vem consolidando um modelo baseado na formalização, na qualidade e na valorização da produção artesanal.

O município ocupa a sexta posição entre os municípios brasileiros com maior número de estabelecimentos elaboradores de cachaça registrados. A cidade possui 13 unidades regularizadas, segundo o Anuário da Cachaça 2026, publicado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) com dados referentes a 2025.

Os empreendimentos instalados no município representam 15,3% de todos os estabelecimentos registrados no Espírito Santo. São Roque do Canaã também integra o grupo restrito de 11 cidades brasileiras que possuem dez ou mais unidades elaboradoras de cachaça autorizadas pelo Mapa.

Outro dado que evidencia a presença da atividade no município é a chamada densidade cachaceira, indicador que relaciona o número de habitantes à quantidade de estabelecimentos. São Roque do Canaã possui uma unidade elaboradora registrada para cada 867 moradores.

Com esse resultado, o município aparece na décima posição nacional entre as cidades com maior densidade cachaceira. A classificação considera os municípios que possuem um estabelecimento para cada 1.500 habitantes ou menos.

Muito além da burocracia

No entanto, além de cumprir as exigências burocráticas, esses produtores decidiram investir em qualidade, rastreabilidade e segurança alimentar, elevando o padrão da bebida produzida no município. Foi justamente desse grupo que nasceu a ideia de criar um festival dedicado à cachaça.

O objetivo foi abrir as portas das propriedades, aproximar consumidores dos produtores e mostrar que por trás de cada garrafa existe conhecimento técnico, tradição familiar e muito trabalho.

Assim se consolidou o Festival da Cachaça, que na sua segunda edição reuniu mais de dez mil visitantes em três dias de programação, combinando gastronomia, cultura, música, negócios, agricultura familiar e turismo rural. O evento tornou-se uma vitrine para um setor que cresce silenciosamente e conquista mercados cada vez mais exigentes.

O prefeito de São Roque do Canaã, Marcos Guerra, ressaltou, em suas redes sociais, a importância da celebração para o município. “Como prefeito, fico imensamente feliz em ver nossos tratores temáticos e cuidadosamente decorados desfilando pelas ruas, representando a história, a cultura, os costumes e as tradições que fazem de São Roque do Canaã uma terra única. Cada detalhe é uma homenagem ao trabalho no campo, às famílias e às raízes do nosso povo”, afirmou.

Herança do pai

Entre os produtores que ajudam a preservar essa história está Afonso Locatelli, que convive com a fabricação de cachaça desde a infância. “Meu pai tinha um alambique e morávamos pertinho da produção. Foi assim que cresci e aprendi a lidar com a cachaça. Hoje preservo a tradição, a paixão, a vontade e o respeito pelo produto que meu pai deixou”, conta.

Foto: divulgação

Proprietário da Cachaçaria Arte Suprema, Locatelli conta que manter o legado familiar, no entanto, também exige acompanhar as transformações do setor. Ele destaca que a produção precisa incorporar novos conhecimentos e responder às exigências dos consumidores e dos órgãos reguladores. “A ciência, a tecnologia e as exigências do mercado avançam muito rápido. Com isso, é necessário estar sempre se atualizando”, afirma.

Para o produtor, o Festival da Cachaça ajuda a dar visibilidade aos produtores e pode ampliar a circulação de visitantes pelas propriedades e pelos empreendimentos ligados ao setor. “O festival, assim como qualquer outro evento, sempre traz impactos positivos. Com essa edição, nossa cachaça foi mais uma vez exposta e, com isso, o fluxo de turistas e clientes tende a aumentar muito”, avalia.

Muito além da bebida

Entre as histórias que ajudam a explicar essa transformação está a da Cachaçaria Vapore Isabella. A propriedade demonstra que agregar valor à produção rural significa enxergar oportunidades em cada etapa do processo. Ali, praticamente nada é desperdiçado.

Os resíduos da produção recebem destinação sustentável, reforçando um modelo de economia circular que reduz impactos ambientais e aumenta a eficiência da atividade. Mas a experiência vai além do alambique.

Foto: divulgação

A propriedade também investiu no turismo rural, abrindo as portas para visitantes que encontram um restaurante de culinária típica, paisagens privilegiadas e a possibilidade de conhecer de perto todo o processo de produção da cachaça artesanal.

É um exemplo de como o agro moderno consegue unir produção, preservação ambiental, gastronomia e geração de renda em uma mesma propriedade.

O abacaxi que virou marca registrada

Se a cachaça representa uma das grandes vocações econômicas do município, ela divide espaço com outras histórias igualmente inspiradoras. Uma delas tem nome e sobrenome.

Judison, conhecido em toda a região como “Judison do Abacaxi”, transformou a fruta em sua marca registrada. Com bom humor, o produtor, que também é eletricista, costuma brincar que o melhor abacaxi do Espírito Santo não está em Marataízes. “O abacaxi bom mesmo é o do Judison”.

Foto: divulgação

A frase virou parte da identidade que construiu credibilidade apostando na qualidade e na diversificação. Na propriedade, cana, café e abacaxi convivem em um sistema produtivo que demonstra como planejamento e diversificação podem aumentar a sustentabilidade econômica das pequenas propriedades rurais.

A história do abacaxi começou quase por acaso. Judison e o pai construíram uma casa para passar os fins de semana no sítio e decidiram cultivar diferentes tipos de frutas. O pai ganhou 50 mudas de abacaxi, que foram plantadas em um barranco para ajudar a segurar a terra, reduzir a força da água e evitar a erosão.

Naquele momento, nenhum dos dois conhecia as particularidades da cultura. As mudas foram plantadas sem espaçamento definido e recebiam pequenas sobras do adubo utilizado no café. Os primeiros frutos levaram cerca de dois anos para serem colhidos. Quando ficaram prontos, chamaram a atenção dos parentes que frequentavam a propriedade.

“Começamos a colher e vimos que era um abacaxi muito gostoso. Quando chegava um parente, a gente cortava para comer no sítio. O pessoal começou a pedir os frutos e também as mudas”, lembra.

As 50 plantas iniciais produziram centenas de novas mudas. Judison estima que, na primeira multiplicação, tenha conseguido aproximadamente mil unidades. A partir daí, começou a organizar o cultivo em linhas, instalou irrigação por gotejamento e passou a pesquisar sobre espaçamento, adubação, pulverização e indução floral.

A técnica de indução permitiu controlar melhor o período de produção e dividir a lavoura em talhões, organizando as colheitas conforme a capacidade de venda. Aos poucos, as mil mudas se transformaram em 5 mil, 10 mil e, posteriormente, em uma plantação muito maior.

Na última grande safra, Judison estima ter colhido mais de 90 mil abacaxis. O volume, porém, trouxe um novo desafio: encontrar mercado para toda a produção. O envio para a Central de Abastecimento do Espírito Santo (Ceasa), na Grande Vitória, não compensava por causa dos custos com frete, caixas e embalagens. A alternativa encontrada foi levar os frutos diretamente aos consumidores.

Judison encheu o carro e começou a vender nas ruas de São Roque do Canaã. Para apresentar o produto, oferecia pedaços aos moradores e divulgava a rotina da lavoura nas redes sociais.

“Nos primeiros dias, comecei a servir pedaços para as pessoas experimentarem. Quando descobriram que o abacaxi era produzido aqui em São Roque, começaram a procurar. O povo ficou doido. Hoje, quando passo na rua, todo mundo pergunta: ‘Cadê o seu abacaxi, Judison?’”, conta.

Durante a safra, a venda acontece de segunda-feira a sábado e, algumas vezes, também aos domingos. A colheita é manual e o trabalho é dividido entre Judison e o pai.

“Meu pai fica na rua vendendo e eu faço a colheita. Entrego o carro abastecido para ele e, no horário do almoço, vou até lá para que ele possa ir para casa. Depois que saio do serviço, continuo na venda até o comércio fechar. Na época da safra, a gente chega a vender uma carroceria por dia. Algumas vezes, já carregamos duas no mesmo dia”, relata.

A rotina precisa ser organizada em torno das várias atividades mantidas pela família. Judison trabalha como eletricista na Prefeitura de São Roque do Canaã, onde atende escolas, unidades de saúde e eventos municipais. Depois do expediente, segue para a propriedade.

Como a lavoura possui irrigação, parte do manejo pode ser realizada à noite. As pulverizações ficam concentradas nos fins de semana, enquanto a colheita começa ainda de madrugada ou no fim da tarde. A propriedade também produz café e cana-de-açúcar, culturas que possuem calendários e formas de manejo diferentes.

Entressafra

Nos períodos em que não há abacaxi, Judison ainda presta serviços elétricos, trabalha na montagem de eventos e mantém uma choperia. Em 2025, participou do Festival da Cachaça com uma barraca de bebidas.

Neste ano, entretanto, a produção de abacaxi será menor. Sem mão de obra suficiente para preparar a terra, plantar e cuidar da lavoura, a família perdeu quase 200 mil mudas de abacaxi. Mesmo diante das dificuldades, Judison conseguiu manter uma pequena área para não deixar os clientes completamente sem o produto. A estimativa é colher entre seis mil e sete mil frutos entre outubro e dezembro.

“Consegui plantar um pouco, mesmo trabalhando sozinho em alguns momentos, para não deixar meus clientes na mão. Já estou avisando o pessoal e pedindo um pouco de paciência, porque, infelizmente, neste ano haverá pouco abacaxi”, explica.

Segundo Judison, a cultura ainda é pouco explorada na região. Ele afirma não conhecer outro produtor de abacaxi no entorno de São Roque do Canaã. As plantações mais próximas das quais tem conhecimento ficam em Linhares e Marataízes.

O novo retrato do interior capixaba

São Roque do Canaã talvez não apareça entre os municípios mais populosos do Espírito Santo. Mas aparece, cada vez mais, entre aqueles que entenderam que desenvolvimento rural não acontece apenas aumentando a produção.

Ele nasce quando conhecimento, empreendedorismo, inovação, sustentabilidade e turismo caminham juntos. A cidade descobriu que uma boa cachaça pode atrair visitantes, que um restaurante rural pode complementar a renda da propriedade, uma história bem contada agrega valor ao produto e que tradição não significa permanecer parado no tempo.

No fim das contas, a maior riqueza de São Roque do Canaã não está nos 1.500 litros da maior caipirinha do Espírito Santo. Está nas pessoas que, todos os dias, provam que o agro cresce quando tradição e inovação caminham lado a lado.

Sobre o autor Fernanda Zandonadi Desde 2001, Fernanda Zandonadi atua como jornalista, destacando-se pelo alto profissionalismo e pela excelência na escrita de suas reportagens especiais. Tem um conhecimento aprofundado em agronegócio, cooperativismo e economia, com a habilidade de traduzir temas complexos em textos de grande impacto e relevância. Seu rigor e qualidade na apuração e narração de histórias do setor garantiram que seu trabalho fosse constantemente reconhecido pela crítica especializada, o que a levou a conquistar múltiplas distinções e reconhecimentos em premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos

Comentários 0

Carregando comentários…