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Sustentabilidade

Seminário dará início a projeto de bambuzeria-escola em Ibiraçu

Movimento capixaba pela popularização do bambu na construção civil e na geração de renda deve ganhar força com projeto no município

por Leandro Fidelis

em 04/12/2021 às 7h00

5 min de leitura

Seminário dará início a projeto de bambuzeria-escola em Ibiraçu

Ventania é um dos principais propagadores do uso do bambu na construção civil, reconhecido internacionalmente pelo trabalho como mestre bambuzeiro e educador (*Foto: Cerbambu Ravena/Divulgação)

Um seminário organizado pelo Mosteiro Zen-Budista Morro da Vargem, com apoio da Prefeitura de Ibiraçu, no próximo dia 11 de dezembro, reunirá os moradores para a palestra “O bambu como vetor para o desenvolvimento sustentável”, com Lucio Ventania. Na ocasião, será proposta a criação de uma bambuzeria-escola em Ibiraçu, ainda sem previsão de implantação e funcionamento. 

Ventania é um dos principais propagadores do uso do bambu na construção civil, reconhecido internacionalmente pelo trabalho como mestre bambuzeiro e educador do Centro de Referência do Bambu (Cerbambu Ravena), em Araxá (MG). Segundo ele, o projeto da bambuzeria-escola promete ser um marco na popularização da gramínea em Ibiraçu, mas a viabiliza do projeto vai depender de negociações junto à Prefeitura. 

A ideia é oferecer 30 vagas para pessoas de baixa renda para formação técnica e teórica, de seis meses a um ano, para atuarem em linhas de produção na área moveleira e objetos e equipamentos estruturais de pequeno e médio porte feitos com bambu, a exemplo de gazebos, pergolados e garagens. 

“A ideia da formação técnica continuada dos moradores é fazer um recorte social, procurando mesclar, no mesmo grupo, pessoas às margens do mercado de trabalho, em especial jovens e mulheres desempregados, com outras com alguma experiência na área de marcenaria ou cooperativismo. Assim, formaremos um grupo de produção e gestão, que vai se encarregar do processo de popularização do bambu”, destaca o mestre bambuzeiro. 

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Ainda da parceria do Mosteiro com o Cerbambu Ravena, outra novidade é o diagnóstico para identificar quais espécies locais poderão atender à fabricação de modulados e comercialização de bambus certificados. O Centro de Referência vai fornecer as mudas ao município e, segundo Lucio Ventania, num período de sete a dez anos, haverá matéria-prima para a produção de média escala.

“A partir da construção da bambuzeria-escola, o passo seguinte será selecionar áreas públicas e particulares em Ibiraçu para plantação de diferentes espécies de bambu”, diz.

Mais que formação técnica, o objetivo da bambuzeria-escola é criar condições para os moradores alcançarem autonomia financeira dentro de processos ecológicos de produção. “O bambu tem potencial grande para sequestro de carbono, pois é um dos vegetais de porte arbóreo com as maiores taxas de crescimento no planeta. O ciclo vegetativo médio é de cem anos. Por ser de reprodução assexuada, não precisa de plantio ano a ano. Ele próprio se desenvolve e, ao final do seu período, lança sementes e renova mais um ciclo de um século. Sem contar o excelente rendimento por unidade de área plantada”, afirma Ventania.

A Aldeia Alegria, em Patrimônio da Penha (Divino de São Lourenço) é uma hospedagem que utiliza o bambu na estrutura. (*Foto: Divulgação)

Município pode virar polo da gramínea no ES

O movimento pela valorização do bambu é liderado pelo monge Daiju Bitti, abade do Mosteiro. Teve início há cinco anos com a distribuição de 300 mudas para agricultores de Ibiraçu. Em agosto de 2017, a reportagem de capa “A madeira do futuro”, na “Conexão Safra”, destacou a gramínea como promissora e a área de 400 mil hectares propícia ao cultivo no Espírito Santo, conforme estimativa da Gerência de Agroecologia e Produção Vegetal da Secretaria de Estado da Agricultura (Seag). 

Para o educador Lucio Ventania, a popularização do bambu acontecerá de maneira natural entre os produtores rurais de todo o Espírito Santo. Ele aposta na bambuzeria-escola como estímulo para os agricultores iniciarem e ampliarem os cultivos.

“O bambu, no Brasil, passa por um momento de grande efusão. Várias universidades estão à procura de pesquisas para qualificar e certificar o processo de bambuzerias, mas também ocorre o reconhecimento de técnicas tradicionais de cestaria, já utilizadas desde os séculos dezessete e dezoito no país, principalmente em Minas Gerais e Goiás”, diz.

O monge Daiju propõe uma quebra de paradigma sobre a utilidade do material para além das estruturas básicas no campo. Para ele, o Estado ainda é atrasado no uso mais qualificado do bambu na construção civil e na arquitetura. 

“Nós temos que avançar tanto na perspectiva sobre o uso do bambu quanto em políticas públicas. Vemos apenas o seu uso provisório em estruturas de cultivos de maracujá e chuchu, na cerca ou nas festas de São João. Pequenas indústrias já produzem quadrado para piso, forro, janela e até mobiliário feito de bambu. Se todo agricultor tiver um cantinho próximo ao córrego ou nascente com bambuzal, vai conseguir equilibrar as contas sem ficar dependente do café ou do leite”, analisa.

Para o monge, Ibiraçu tem tudo pra ser um polo de bambu no Estado, de tendência para movelaria e madeira nobre para construções. “Arquitetos gostam de trabalhar com bambu, o que falta é matéria-prima. A palavra urgente é plantar, mas tudo com moderação. É plantar uma moita em cada propriedade. É um município pequeno, e a prefeitura pode incentivar isso”.

Tanto Daiju quanto Ventania veem no bambu uma alternativa ao uso da madeira e do ferro na construção civil. “A gramínea tem atração comparada a do aço e resistência à compressão, na comparação com o concreto armado. Sendo protegido e tratado adequadamente, o bambu tem até meio século de durabilidade na comparação com outros materiais em obras”.

*Foto: Leandro Fidelis/Arquivo Conexão Safra

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