Eventos de El Niño dos últimos 40 anos foram os mais intensos em um milênio

Corais das Ilhas Galápagos revelam aumento de 36,5% na variabilidade do ENSO, impulsionado por episódios mais intensos de El Niño

El Niño 2026
Imagem: Conexão Safra/IA

Os episódios de El Niño das últimas quatro décadas foram mais intensos do que o padrão registrado ao longo dos mil anos anteriores à era industrial. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica Science, que analisou informações preservadas em corais modernos e antigos das Ilhas Galápagos, no Pacífico equatorial oriental.

A pesquisa identificou um aumento de 36,5% na variabilidade do El Niño-Oscilação Sul, conhecido pela sigla ENSO, em comparação com o período pré-industrial. Essa variação mede a amplitude das oscilações entre as fases quente, o El Niño, e fria, a La Niña. Segundo os autores, o crescimento recente foi provocado principalmente por eventos de El Niño mais intensos.

Os resultados indicam que o fortalecimento acompanhou a elevação da temperatura média global e ultrapassou a faixa de variabilidade natural reproduzida por modelos climáticos. Os dados de corais do Pacífico Central também mostraram aumento das oscilações, embora menos acentuado do que o observado nas Galápagos. Segundo o estudo, os grandes El Niños das últimas quatro décadas não são normais no contexto dos últimos mil anos.

A descoberta ganha importância diante do El Niño de 2026. O fenômeno está em processo de fortalecimento no Pacífico e, segundo boletim divulgado em agosto pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, há mais de 90% de probabilidade de que o evento alcance intensidade muito forte durante o segundo semestre de 2026 e o início de 2027.

Como funciona o El Niño

O El Niño é a fase quente do ENSO, um fenômeno natural que envolve mudanças na temperatura do Oceano Pacífico e na circulação da atmosfera. Em condições normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste ao longo da faixa equatorial e empurram as águas superficiais mais quentes em direção à Indonésia e à Austrália.

Quando esses ventos enfraquecem, parte da água quente se desloca para o centro e o leste do Pacífico, aproximando-se da costa da América do Sul. O aquecimento modifica a circulação atmosférica e desloca as áreas de formação de nuvens e chuva.

As alterações podem ser sentidas a milhares de quilômetros do oceano. Dependendo da região e da época do ano, o El Niño pode favorecer chuvas intensas, secas prolongadas, enchentes, ondas de calor e incêndios florestais.

Quanto mais forte o evento, maior tende a ser a capacidade de alterar os padrões climáticos. Os efeitos, no entanto, não são automáticos nem iguais em todos os lugares. Cada episódio interage com outros sistemas atmosféricos e oceânicos.

Uma história preservada nos corais

A dificuldade para avaliar mudanças de longo prazo no El Niño está no tamanho do registro instrumental. As medições detalhadas da temperatura do Pacífico abrangem poucas décadas, período insuficiente para distinguir uma tendência provocada pelo aquecimento global de uma oscilação natural mais longa.

Para ampliar essa escala, os pesquisadores analisaram 13 testemunhos de corais das Ilhas Galápagos, incluindo colônias vivas e fragmentos antigos. Localizado no Pacífico oriental, o arquipélago está em uma das regiões nas quais as alterações provocadas pelo El Niño aparecem com maior intensidade.

Os corais crescem pela deposição sucessiva de camadas de carbonato de cálcio. A composição química dessas camadas varia de acordo com as condições do ambiente marinho e funciona como um arquivo natural das temperaturas do oceano.

A equipe analisou, entre outros indicadores, a proporção entre estrôncio e cálcio e a relação entre isótopos de oxigênio nos esqueletos. Esses elementos permitiram reconstruir variações da temperatura da superfície do mar em diferentes períodos do último milênio.

Como os eventos extremos de El Niño deixam uma assinatura térmica nos corais, os cientistas puderam comparar os episódios recentes com os ocorridos antes da existência de termômetros, satélites e boias oceânicas.

Variabilidade natural não explica aumento

Os pesquisadores também testaram se o fortalecimento poderia ser explicado apenas por fatores naturais. A reconstrução foi comparada com simulações de 12 modelos climáticos que consideraram oscilações internas do clima, grandes erupções vulcânicas e mudanças na atividade solar.

As simulações não reproduziram um aumento semelhante ao registrado nos corais. A variação observada nas últimas décadas ficou acima da faixa considerada compatível com a variabilidade natural do período pré-industrial.

A conclusão não significa que o aquecimento global tenha criado o El Niño ou que cada episódio individual seja provocado pelas emissões humanas. O ENSO continua sendo uma oscilação natural. O estudo sugere, porém, que o aquecimento do planeta está modificando o ambiente no qual o fenômeno se desenvolve e favorecendo eventos mais intensos.

Os próprios autores ressaltam que os corais ajudam a compreender o passado, mas não determinam exatamente como o ENSO se comportará no futuro. As interações entre o oceano e a atmosfera são complexas e ainda representam uma fonte de incerteza nos modelos climáticos.

Risco maior para agricultura e abastecimento

O fortalecimento do El Niño aumenta a preocupação com a agricultura, a disponibilidade de água, a produção de energia e a segurança alimentar. Mudanças na distribuição das chuvas podem afetar o calendário de plantio, elevar a necessidade de irrigação, favorecer doenças nas lavouras ou provocar perdas por excesso de umidade.

A pesquisa não apresenta previsões específicas para o Brasil ou para o Espírito Santo. Os impactos regionais dependem da intensidade do fenômeno, da estação do ano e da atuação conjunta de frentes frias, sistemas de alta pressão e temperaturas dos oceanos Atlântico e Índico.

O estudo publicado na Science, entretanto, amplia a dimensão do alerta. Ao comparar as últimas décadas com mil anos de história climática, os pesquisadores mostram que o fortalecimento recente do El Niño não se parece com as oscilações naturais identificadas no período pré-industrial. Em um planeta mais quente, essa mudança aumenta o potencial de ocorrência de extremos climáticos e reforça a necessidade de prevenção e adaptação.

Sobre o autor Fernanda Zandonadi Desde 2001, Fernanda Zandonadi atua como jornalista, destacando-se pelo alto profissionalismo e pela excelência na escrita de suas reportagens especiais. Tem um conhecimento aprofundado em agronegócio, cooperativismo e economia, com a habilidade de traduzir temas complexos em textos de grande impacto e relevância. Seu rigor e qualidade na apuração e narração de histórias do setor garantiram que seu trabalho fosse constantemente reconhecido pela crítica especializada, o que a levou a conquistar múltiplas distinções e reconhecimentos em premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos

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