Mais lidas 🔥

Empreendedorismo no café
Empreendedor transforma Kombi em ponto de venda dos cafés de qualidade que ele mesmo produz

Dia do Agricultor
Do concreto ao cafezal: uma história de transformação no interior capixaba

Investigação
Operação prende suspeitos de fraude na comercialização de café no sul do ES

Política agrícola
Projeto cria preço mínimo para proteger produtores de cacau

Mercado do boi
Preço do boi gordo convergem entre estados produtores

Um suplemento alimentar desenvolvido a partir da banana verde. Uma plataforma de realidade virtual capaz de levar pessoas com mobilidade reduzida aos atrativos das Montanhas Capixabas. Um torrador portátil criado para atender produtores de cafés especiais e até um espumante de mel.
Embora atuem em áreas distintas, esses projetos têm uma origem em comum. Eles nasceram da pesquisa científica e ganharam forma com o apoio da Incubadora de Empreendimentos Inovadores do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) Campus Venda Nova do Imigrante, a InovaVNI. Fortalecida por recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), a incubadora vem transformando conhecimento produzido no ambiente acadêmico em soluções com potencial para chegar ao mercado e gerar impactos econômicos, sociais e ambientais.
Desde que passou a contar com apoio da Fapes, em 2020, a InovaVNI recebeu aproximadamente R$ 350 mil destinados diretamente ao programa de incubação. Além do fortalecimento da estrutura da incubadora, os recursos permitiram ampliar o acompanhamento aos empreendedores e criar condições para que diferentes projetos acessassem programas estaduais de fomento à inovação, como o Centelha ES. Turismo, cafeicultura, bananicultura, agroindústria e apicultura tornaram-se ponto de partida para pesquisas e iniciativas empreendedoras que buscam resolver desafios reais da região e criar novas oportunidades de desenvolvimento.
Com apoio da Fapes, pesquisas desenvolvidas dentro do Ifes deixam os laboratórios, alcançam o mercado e retornam à sociedade na forma de novos produtos, tecnologias e oportunidades de desenvolvimento para as Montanhas Capixabas e para o Espírito Santo.
Mais do que oferecer espaço físico ou mentorias, a incubadora atua como uma ponte entre a pesquisa científica e o mercado. O trabalho começa antes mesmo da criação formal das empresas. “Uma boa ideia, sozinha, não é suficiente para se transformar em um negócio de sucesso. Acompanhamos toda a jornada do empreendedor, desde a validação da proposta até a chegada da tecnologia ao mercado”, afirma a coordenadora da InovaVNI, a professora Zâmora Cristina.

Segundo ela, os empreendedores passam inicialmente por uma etapa de prospecção, em que são avaliados o problema que pretendem resolver, o perfil da equipe e o potencial da proposta. Em seguida, a maioria dos projetos ingressa na pré-incubação, fase em que a ideia é validada junto ao mercado. “Durante a pré-incubação realizamos pesquisas, entrevistas e testes com potenciais clientes. Muitas vezes esse processo leva a ajustes ou até mesmo à mudança do modelo de negócio, reduzindo riscos e aumentando as chances de sucesso do empreendimento”, explica Zâmora.
Somente após essa etapa os projetos seguem para a incubação, quando recebem apoio para desenvolvimento tecnológico, estruturação empresarial, proteção da propriedade intelectual, elaboração de projetos para editais de fomento e aproximação com investidores.
Esse modelo permitiu que diferentes iniciativas conquistassem recursos ainda nas fases iniciais de desenvolvimento. Foi o caso da Aggio Tecnologia em Café, da Innovative Food Solutions e, mais recentemente, dos projetos Conexão das Montanhas e MomentES. Até 2026, a incubadora contabiliza dez empreendimentos incubados e dois projetos em aceleração.
Ciência que agrega valor à agricultura familiar
Entre os projetos mais avançados está a Innovative Food Solutions, startup criada em novembro de 2022 a partir de pesquisas desenvolvidas no Ifes Campus Venda Nova do Imigrante. O empreendimento nasceu após mais de uma década de estudos sobre processamento da banana verde e deu origem ao suplemento prebiótico produzido a partir do amido extraído da polpa da fruta.

O professor Genilson Paiva, pesquisador responsável pelos estudos, explica que o projeto buscou ir além dos produtos já conhecidos derivados da banana verde. “A biomassa e a farinha de banana verde já eram conhecidas. O desafio foi extrair, purificar e secar o amido da polpa da banana para obter um produto com maior concentração de amido resistente, ampliando suas possibilidades de aplicação na indústria de alimentos e farmacêutica”, afirma.
As pesquisas foram conduzidas por pesquisadores do Ifes em parceria com o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), a Universidade Federal de Viçosa (UFV) e a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Após a conclusão da fase científica, a tecnologia passou por produção em escala piloto em uma agroindústria de processamento de banana e evoluiu para a criação da startup, atualmente incubada em programa associado à Agência de Inovação do Ifes (Agifes).
A iniciativa já recebeu apoio do Sebrae-ES e da Fapes durante o processo de transferência de tecnologia e busca por investidores para iniciar a produção em escala piloto e validar o produto no mercado. Inicialmente, o objetivo era desenvolver um ingrediente destinado à indústria de panificação, massas e biscoitos. Durante a validação técnica e comercial, entretanto, a equipe identificou maior potencial estratégico para o uso do amido como suplemento alimentar funcional.
Além da inovação tecnológica, o projeto busca ampliar o valor agregado da cadeia produtiva da banana e reduzir perdas no campo. “Queremos transformar conhecimento científico em oportunidades para a agricultura familiar. O desenvolvimento desse produto fortalece uma cultura tradicional do Espírito Santo e cria novas possibilidades para os produtores”, destaca Genilson Paiva.
Realidade virtual para aproximar pessoas do turismo
Nem todas as ideias surgem dentro dos laboratórios. O projeto Conexão das Montanhas nasceu de experiências pessoais vividas pela empreendedora Daiane Falcão.
Primeiro, ela acompanhou as dificuldades enfrentadas pela própria avó após um acidente vascular cerebral (AVC), que comprometeu parte de sua autonomia. Depois, trabalhando com turismo em Pedra Azul, presenciou uma situação que mudaria completamente sua forma de enxergar a atividade.

Uma turista estrangeira desejava conhecer as piscinas naturais da região, mas não queria deixar a mãe, recém-operada e com mobilidade reduzida, sozinha. A visita acabou não acontecendo. “Aquilo me fez pensar em quantas pessoas deixam de viver experiências turísticas por causa de limitações físicas, idade ou condições de saúde. Foi quando surgiu a ideia de utilizar a realidade virtual para tornar esses lugares acessíveis”, conta Daiane.
A partir dessa reflexão nasceu o “Conexão das Montanhas”, projeto que pretende utilizar óculos de realidade virtual para permitir visitas imersivas aos atrativos das Montanhas Capixabas. Além de ampliar a acessibilidade para idosos, pessoas com deficiência e com mobilidade reduzida, a plataforma também deverá funcionar como uma vitrine interativa dos destinos turísticos, permitindo que visitantes conheçam previamente os atrativos antes de planejar seus roteiros.
A inovação costuma ser associada aos grandes centros tecnológicos e industriais. No entanto, em Venda Nova do Imigrante, na região serrana capixaba, um ecossistema vem demonstrando que boas ideias também podem surgir a partir das vocações locais.
Segundo Daiane, a transformação da ideia em um projeto estruturado ocorreu durante a incubação no Ifes. “Recebemos orientação para estruturar o modelo de negócio, validar a proposta e buscar oportunidades de desenvolvimento. Sem esse acompanhamento seria muito difícil desenvolver uma iniciativa desse porte”, afirma.
Com apoio da incubadora, o projeto foi aprovado no Programa Centelha ES, executado pela Fapes no Espírito Santo, e deverá iniciar sua fase de execução nos próximos meses.
Também voltada ao turismo, a plataforma MomentES busca enfrentar outro desafio da atividade: a dificuldade de integração entre empreendedores, gestores públicos e visitantes. A proposta é desenvolver uma plataforma de turismo inteligente capaz de fortalecer o ecossistema regional por meio da tecnologia.
Segundo o idealizador do projeto, Thalles Guimarães, a participação na incubadora foi decisiva para acelerar a evolução da startup. “As mentorias, as conexões e o ambiente de inovação aceleraram significativamente o desenvolvimento do projeto. Sem esse apoio, certamente o caminho seria muito mais longo”, afirma.

Recentemente aprovado no Programa Centelha ES, o empreendimento inicia agora uma nova fase de desenvolvimento e validação. O objetivo é criar uma solução capaz de fortalecer pequenos negócios, valorizar experiências locais e contribuir para um turismo mais organizado, sustentável e competitivo.
Pesquisa aplicada à cafeicultura
A inovação também alcança uma das principais atividades econômicas da região serrana, que é a produção de cafés especiais. O torrador portátil desenvolvido pela Aggio Tecnologia em Café nasceu a partir de um projeto de pesquisa realizado pelo Coffee Design, do Ifes, em parceria com o Sicoob Sul-Serrano.
Os empreendedores participaram da pesquisa ainda durante a graduação e identificaram potencial para transformar a tecnologia em um produto comercial. “Durante a pesquisa, acompanhamos todo o desenvolvimento da tecnologia e percebemos que ela poderia atender produtores, cafeterias e pequenas torrefações. Foi isso que motivou a criação da startup”, relata Guilherme Falquetto, um dos empreendedores.

O equipamento utiliza a tecnologia de leito fluidizado, que proporciona maior uniformidade na torra e controle do processo. Atualmente, a startup segue aperfeiçoando o equipamento e buscando recursos para concluir as etapas de desenvolvimento e validação antes da futura comercialização.
Segundo os responsáveis, a incubação também foi decisiva para o amadurecimento da empresa. “Recebemos apoio para elaboração de projetos, consultorias em gestão, finanças e aspectos jurídicos, além de mentorias e oportunidades de networking. Esse acompanhamento tem contribuído para a evolução da empresa e da própria tecnologia”, destaca Falquetto.
Outro projeto cercado de expectativas é o primeiro espumante de mel do Espírito Santo. O projeto está na fase de validação do protótipo (MVP), com análises de harmonização em andamento e preparação da estratégia de pré-lançamento antes da chegada ao mercado.
Embora atuem em áreas diferentes, os projetos incubados pela InovaVNI compartilham uma característica em comum. Todos nasceram para responder a desafios identificados na própria região. Seja agregando valor à banana produzida pela agricultura familiar, ampliando a acessibilidade ao turismo, fortalecendo pequenos empreendimentos turísticos ou desenvolvendo tecnologias para a cafeicultura, as iniciativas demonstram como a pesquisa científica pode gerar impactos concretos na sociedade.
Para Zâmora Cristina, esse é justamente o papel da incubadora. “Mais do que criar startups, estamos fortalecendo negócios inovadores alinhados às potencialidades do território. Acompanhamos toda a jornada do empreendedor, conectamos pesquisadores, investidores e instituições de fomento e contribuímos para que tecnologias e soluções inovadoras cheguem efetivamente à sociedade”, afirma.







Comentários 0