Inovação no agro

“Língua eletrônica” pode automatizar a análise da qualidade do café

Tecnologia desenvolvida com apoio da Ufes utiliza sensores para identificar padrões da bebida e reduzir a subjetividade na classificação do café

Foto: arquivo pessoal

Um projeto inovador, desenvolvido pela iniciativa privada em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e com apoio do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), promete transformar a classificação do café no Brasil.

A proposta da tecnologia, batizada de Máquina Inteligente para Identificar a Bebida do Café, também chamada de “língua eletrônica”, é automatizar a identificação das diferentes bebidas do café cru. A iniciativa surgiu a partir de um estudo da Ufes que demonstra a classificação de bebidas por meio de sensores eletroquímicos, publicado na revista científica Scientific Reports.

“Estava em busca de um processo de classificação objetivo, escalável e independente da subjetividade humana, atendendo a uma demanda comum a toda a cadeia produtiva, de agricultores a exportadores e torrefações”, explica Helder Knidel, sócio de uma empresa cafeeira de Marechal Floriano, que procurou a universidade em busca de uma solução semelhante após ler a publicação.

Rafael de Queiroz Ferreira, professor do Departamento de Química da Ufes e um dos responsáveis pelo projeto, conta que o equipamento desenvolvido utiliza um sensor eletroquímico de dimensões reduzidas, menor que uma tampa de caneta, capaz de analisar uma única gota de café ou até mesmo uma amostra diretamente na xícara.

Legenda da foto acima: Professor Rafael de Queiroz Ferreira, Helder Knidel, Dayvson Silva, juntamente com as alunas de mestrado que participaram do projeto, e demais membros da equipe do Senai

“O sistema é multicanal e consegue realizar até dez análises sequenciais em poucos minutos, tempo significativamente inferior ao necessário para a avaliação sensorial humana”, pontua o professor.

Com a base tecnológica e a metodologia para realizar a classificação do café desenvolvidas pela Ufes, o Senai criou uma placa eletrônica, considerada o “cérebro” do classificador.

“Nessa fase, o equipamento tinha apenas as funcionalidades necessárias para fazer a leitura dos dados físico-químicos da bebida de café. A partir de então, foi possível iniciar o processo de levantamento de dados e o envio dessas informações para o treinamento de inteligência artificial. Com esse treinamento, o equipamento ganhou a capacidade de classificar a bebida a partir da leitura de amostras com o sensor”, ressalta Dayvson Silva, coordenador de Pesquisa e Desenvolvimento do Instituto SENAI de Tecnologia em Eficiência Operacional.

A tecnologia, construída com impressão 3D, passou por diversas versões até chegar ao modelo atual. Ainda em fase de pesquisa científica, o projeto apresenta avanços significativos. “Evoluímos nos resultados, mas ainda precisamos avançar para que a tecnologia seja aplicada no dia a dia das empresas”, destaca Knidel.

Como fica o trabalho dos Q-graders, degustadores profissionais responsáveis pela classificação de café? Rafael explica: “O objetivo não é substituir o profissional, mas facilitar o trabalho. A máquina pode fazer uma triagem inicial de milhares de amostras, destacando aquelas com maior potencial ou qualidade inferior”.

Novas aplicações ampliam o alcance da tecnologia

Além da classificação de café, o projeto também abriu novas frentes de pesquisa. Uma delas é o desenvolvimento de uma metodologia mais simples para detectar a ocratoxina, substância potencialmente cancerígena produzida por fungos em grãos armazenados inadequadamente. A técnica criada utiliza sensores semelhantes e já atende às exigências regulatórias do Brasil e da Europa, podendo representar um avanço importante no controle de qualidade do produto exportado.

Enquanto preparam o pedido de patente, o projeto segue em evolução. A expectativa é que a “língua eletrônica” possa ser comercializada a médio e longo prazo. Enquanto isso, os pesquisadores já estudam novas aplicações para o dispositivo, como a análise de mel de abelhas sem ferrão e até a triagem de substâncias ilícitas, em possível cooperação com a Polícia Civil.

Para Knidel, o potencial é amplo: “Estamos animados com os resultados até aqui e confiantes de que essa tecnologia pode trazer ganhos importantes para diferentes setores”.

O desenvolvimento do protótipo e da parte eletrônica do equipamento foi realizado pelo Senai e recebeu aporte financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), por meio de edital de apoio a projetos inovadores (SPIN OFF II).

Sobre o autor Rosimeri Ronquetti Rosi Ronquetti é jornalista, formada em 2009 e pós-graduada em gestão em assessoria de comunicação. Repórter do agro, sua atuação se concentra na produção de reportagens do setor (incluindo perfis e histórias). Algumas de suas reportagens conquistaram premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos