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Geral

Geração de valor

por Redação Conexão Safra

em 05/02/2016 às 0h00

8 min de leitura

A falta de mão de obra qualificada tem sido o grande fator limitante para a sobrevivência das propriedades leiteiras nas regiões produtoras. Apesar de não ser um problema exclusivo da produção de leite, nas leiterias esse problema se agrava pois grande parte das fazendas leiteiras do país são conduzidas à distância, por proprietários que possuem como principal fonte de renda outras atividades, muitas delas totalmente desvinculadas do meio rural.

A propriedade que tem na mão de obra contratada a responsabilidade pela execução das tarefas da atividade enfrenta o grande desafio de estabelecer equipes de trabalho capazes de atender às exigências operacionais de uma atividade de alta complexidade, diária e rotineira como é a produção de leite. Há ainda um outro fator que aumenta ainda mais o grau de dificuldade na manutenção da atividade leiteira nessas fazendas: grande parte delas não tem escala de produção capaz de viabilizar investimentos em capacitação e valorização adequada de seus colaboradores. Assim, muitas fazendas dependentes de mão de obra contratada têm deixado a atividade leiteira.

Aparentemente se desenha uma perspectiva futura em que terão maior possibilidade de continuar no negócio leite aquelas fazendas que tenham sua mão de obra ou gestão oriunda da própria família produtora (familiar) ou aquelas fazendas maiores, cujo modelo empresarial permita investimentos em ganhos de escala, cujos resultados financeiros possibilitam que se invista na preparação de equipes de trabalho e na contratação de gerentes/administradores capazes de conduzir a atividade mesmo com o proprietário ausente da fazenda. As fazendas de menor escala, com administração feita à distância, através de visitas esporádicas do dono, encontrarão a cada dia mais dificuldade de se enquadrar em um mercado cada vez mais competitivo e exigente, a lentidão na tomada de decisões e o baixo nível de eficiência desta forma de gestão certamente inviabilizará a continuidade deste tipo de fazenda na atividade.



Rotina diária do Sítio 5ª Geração – Produtor roçando área de pastejo de Jiggs

As fazendas maiores, de modelo empresarial, terão pela frente o grande desafio de criar equipes e de desenvolver gestores capazes de lidar com um processo não mais artesanal e instintivo, mas baseado em procedimentos técnicos e operacionais precisos, capazes de manter uma fazenda em funcionamento constante e padronizado 24 horas por dia. Em relação ao sistema de produção familiar, cuja manutenção da mão de obra da família na atividade dependerá da renda gerada com o negócio, o desafio maior será a obtenção de escala de produção, que permitirá a manutenção dos filhos na propriedade. Naqueles casos de fazendas familiares que conseguirem grande expansão da produção, a família deixará de executar as tarefas diárias da atividade e passará a gerenciar de perto o sistema de produção, contratando pessoas que atuarão sob sua supervisão. Só assim será possível que fazendas leiteiras centenárias, que há várias gerações se dedicam à produção de leite, continuem na atividade.

Este é o caso da Fazenda 5ª Geração, de propriedade da Família Stacke, localizada no Município de Marques de Souza, na região do Vale do Taquari, no Estado do Rio Grande do Sul. Essa importante região produtora de leite foi colonizada por alemães entre os anos de 1870 e 1880. Hoje 94% das propriedades leiteiras da região são de cunho familiar, quase 60% delas produzem menos que 100 litros/dia, explorando uma área média de 14 ha. As fazendas da região trabalham com animais especializados e de bom potencial genético na maior parte dos rebanhos, quase metade das fazendas leiteiras locais tem como principal preocupação a questão da sucessão familiar, e a falta de renda é apontada como principal fator de desinteresse do jovem em seguir trabalhando no meio rural com os pais, pois estes jovens consideram as propriedades muito pequenas e incapazes de sustentar mais pessoas vivendo da atividade (Dados do Instituto Gaúcho do Leite – IGL, Maio 2015).


Família Stacke – membros da 5ª geração de produtores rurais na propriedade

No caso da família Stacke, o grande destaque é a maneira como a família se mantém unida, conduzindo a atividade leiteira há cinco gerações, caso o filho Thomas David, ainda bebê, decida no futuro continuar na propriedade, será estabelecida a sexta geração na fazenda. A família ainda guarda com orgulho as notas fiscais do leite vendido no ano de 1972 por Carlos Fuchs, avô do atual proprietário Rafael Stacke e bisavô do pequeno Thomas.

A Fazenda 5ª Geração possui área útil de apenas 5,2 ha que são utilizados para atividade leiteira, somando-se a isso mais 14 ha arrendados para plantio de milho para grão e silagem. A maior parte das áreas trabalhadas é de terrenos acidentados e com muitas pedras. No início do acompanhamento técnico da Cooperideal, em Junho/2011, a maior parte do volumoso fornecido para os animais era na forma de silagem. O sistema de produção proposto pelo Técnico Adilson Lima tinha como objetivo a manutenção do rebanho em pastejo na maior parte do ano, e para isso algumas medidas tiveram que ser implementadas. A primeira delas foi a implantação de sistemas de pastejo intensivo que fossem capazes de garantir aumento na produção e, principalmente, que trouxesse o resultado econômico que a família precisava para se manter na atividade, e esse deve ser o objetivo de qualquer trabalho de assistência técnica que se preocupe com o bem-estar do produtor de leite.

Hoje a propriedade possui dois módulos de pastejo de capim Mombaça, com área de 1,5 ha cada, divididos em sistemas de pastejo de 28 piquetes, uma área de Jiggs de 0,89 ha dividida em 20 piquetes e outra de 0,48 ha de Tifon 68. Todas essas áreas de pastejo recebem sobressemeadura de aveia e azevém no período do inverno. Os sistemas intensificados de pastejo recebem os lotes de animais cuja formação leva em consideração sua situação produtiva. O lote “A ”, com os animais de mais alta produção, pasteja o sistema de Jiggs, os lotes “B ” e “C ” os sistemas de Mombaça e o lote “D ”, composto por vacas secas e novilhas, pastejam o sistema de Tifton 68.



Vista do sistema de pastejo de Jiggs, com os piquetes de Mombaça ao fundo.

Na primeira visita à propriedade em 2011 a produção estava ao redor dos 400 litros/dia, subindo para 660 litros em média nos últimos dozes meses (outubro/14 a setembro/15), atingindo atualmente os 965 litros/dia (setembro/15), volume bem próximo do objetivo de 1.000 litros definido no início do trabalho. A propriedade obteve uma média de 21,0 litros/vaca/dia nos últimos 12 meses, o dobro da média de produção dos rebanhos do Vale do Taquari. A propriedade que conseguia manter apenas 23 vacas em lactação na propriedade no primeiro período analisado (junho/11 a maio/12) colocou em média 31,2 vacas no último período e no mês de setembro/15 a fazenda já tinha 39 vacas em lactação, tudo isso fruto do trabalho de produção intensiva de pastagens realizado na propriedade.

Quadro 1: Resumo dos índices econômicos e zootécnicos da Fazenda 5ª Geração &ndash, Marques de Souza, RS – Comparação entre dois períodos de trabalho.


Em meados de 2014 a propriedade enfrentou problemas com tristeza parasitária que causou a perda de alguns animais, fato que impediu que a família já tivesse atingido seu objetivo de produção inicial, porém, ainda assim, a propriedade vem obtendo bons resultados econômicos. O fluxo de caixa, valor efetivamente embolsado pelo produtor, que no primeiro período de trabalho foi de R$ 16.431,95, subiu 3,6 vezes, chegando a R$ 59.552,34 no último período analisado. O retorno sobre o capital investido subiu de 9,2 para 15,7%, demonstrando os ganhos de rentabilidade sobre um patrimônio que dobrou de valor em relação ao primeiro ano do trabalho (saiu de R$ 260.000,00 em 2011/12 para R$ 534.220,00 em 2014/15). A produção que atualmente se aproxima dos 1.000 litros/dia nos permite projetar resultados ainda melhores daqui para frente na Fazenda 5ª Geração, que certamente oferecerá condições de renda para a manutenção das novas gerações na propriedade.




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Vacas descansando em área de pastejo intensivo de Jiggs – Sítio 5ª Geração

O trabalho coletivo e em família fez com que a mão de obra jamais fosse o gargalo produtivo desta fazenda. A família Stacke tem trabalhado de maneira organizada e objetiva, buscando na atividade leiteira a renda que viabilize a permanência de todos os membros da família na propriedade, e isso só tem sido possível porque ao invés de procurar justificativas para as dificuldades, eles investiram no conhecimento técnico e na melhoria dos processos produtivos. Todo final de ano os avós, filhos, noras, netos e bisnetos que vivem na propriedade se revezam e saem em férias, rumo à praia, recarregando as baterias para enfrentar os desafios do ano vindouro. Essa é a história de superação e de sucesso desta típica família gaúcha, que juntos, decidiram ser felizes!


Fonte: Milk Point


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