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Que a pecuária vem perdendo espaço para a cafeicultura em Ecoporanga, no noroeste do Espírito Santo, não chega a ser uma novidade. Nos últimos anos, porém, os produtores têm apostado cada vez mais na diversificação das atividades agrícolas. Na lista das culturas que começam a ganhar espaço nas propriedades rurais do município estão cacau, pimenta-do-reino, banana e até mamão.
O extensionista e coordenador do escritório local do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), Lázaro Samir Abrantes Raslan, conta que a diversificação em Ecoporanga ganhou força após a severa seca registrada entre 2014 e 2017. “Naquele período, muitos produtores reduziram seus rebanhos e passaram a investir em novas atividades agrícolas. A partir de 2019, a cafeicultura viveu um forte crescimento no município. Depois de 2020, o cacau passou a despertar interesse crescente entre os agricultores, consolidando um novo cenário produtivo”, explica o coordenador.
Samir lembra que, apesar do relevo acidentado, Ecoporanga reúne características favoráveis para diferentes culturas, como disponibilidade de água, clima quente e solos argilosos. Para o secretário municipal de Agricultura, Valmir Santos Ferreira, a diversificação vem se consolidando nos últimos sete a dez anos, mas ganhou força recentemente, impulsionada pela busca de maior estabilidade econômica nas propriedades.
“Os produtores perceberam que podem complementar a renda com outras culturas além do café. Hoje vemos investimentos em pimenta-do-reino, banana-da-terra e, principalmente, no cacau, que tem despertado muito interesse”, afirma.
Os números da Secretaria de Agricultura refletem o que dizem Lázaro e Valmir. Entre meados de 2025 e 2026, foram transportadas aproximadamente 260 mil mudas de café, 112 mil mudas de pimenta-do-reino e cerca de 56 mil mudas de cacau pela municipalidade para produtores do município. Um exemplo claro do crescimento do interesse pela cacauicultura é a produtora Heloisa Carnielli, da comunidade Córrego do Paraíso.
Ela iniciou o cultivo há cerca de cinco anos com apenas 150 pés. Ao perceber o potencial econômico da atividade, produziu 600 mudas para ampliar a própria lavoura. O que seria apenas um investimento particular acabou se transformando em um novo negócio. “Um amigo viu as mudas, que postei nas redes sociais, e quis comprar. Depois, não parei mais.”
O interesse crescente levou Heloisa a criar um viveiro com capacidade para produzir até 20 mil mudas. A viveirista trabalha exclusivamente sob encomenda e já comercializou mais de 8 mil mudas. Hoje, mantém cerca de 20 mil mudas em produção, todas já vendidas antecipadamente. Metade delas será destinada a produtores de Ecoporanga, enquanto o restante segue para municípios vizinhos, como Barra de São Francisco e Nova Venécia.
“Eu até me surpreendi com a quantidade de mudas encomendadas. O pessoal está tendo uma visão muito além da monocultura. Tenho clientes que trabalhavam apenas com gado e hoje já cultivam café, cacau e pimenta, justamente para não ficarem reféns de uma única atividade”, relata.
Segundo ela, há produtores investindo pesado na cultura, com plantios que variam entre 3 mil e 5 mil pés de cacau. Apesar da carência de assistência técnica especializada, o interesse pela atividade continua crescendo. Atualmente, Heloisa mantém cerca de 400 pés de cacau na propriedade e busca constantemente aperfeiçoamento por meio de cursos sobre manejo, poda e controle de doenças.
“O cacau chama atenção porque gera renda praticamente o ano todo. Diferentemente do café, que tem uma colheita anual, o produtor consegue ter entradas de dinheiro em vários períodos do ano”, explica.
O produtor Bernardo Costa Nunes é cliente de Heloisa. Ele deixou a pecuária para ingressar na agricultura. Começou com três hectares de café e agora prepara uma nova área para receber mais 2 mil pés de café e cerca de 1.300 mudas de cacau. A iniciativa, segundo o produtor, surgiu da necessidade de reduzir a dependência de uma única atividade agrícola.
“Queremos diversificar para não ficar reféns apenas do café. Acredito muito no potencial do cacau, tanto para a venda das amêndoas quanto para uma futura produção de chocolate”, afirma.
Outro exemplo é a trajetória do produtor Sinvaldo do Nascimento, da comunidade Córrego do Café. Sua história simboliza a transformação vivida por muitos agricultores do município. Hoje, ele possui cerca de quatro alqueires de terra, 10 mil pés de café e mais de 400 pés de banana-da-terra. Mas a realidade nem sempre foi essa.
Durante anos, Sinvaldo trabalhou em pedreiras para juntar recursos e investir no sonho de viver exclusivamente da agricultura. “Comecei com 3 mil plantas e fui ampliando aos poucos, sem financiamento. Trabalhava durante o dia na pedreira e à noite na lavoura. Muitas vezes, ficava capinando até 9 ou 10 horas da noite com uma lanterna na cabeça”, lembra.
A estratégia de diversificação também trouxe resultados. Em 2025, somente a comercialização da banana gerou aproximadamente R$ 19 mil em receita adicional para a propriedade.
Produção de mamão

Outra aposta na diversificação vem do engenheiro agrônomo e produtor rural Wanderson da Costa Silva, também do Córrego do Paraíso. Com dez hectares de café já implantados e mais 15 hectares em fase de plantio, ele decidiu inovar ao consorciar a cultura cafeeira com o mamão.
A expectativa é iniciar o plantio da fruta até o final de junho. Segundo ele, o mamão apresenta retorno financeiro mais rápido e pode ajudar a custear os investimentos necessários para a formação da lavoura de café. “Geralmente, o mamão consegue pagar praticamente todo o investimento feito no café. Isso reduz muito os custos da implantação”, explica.
Wanderson acredita que as condições de clima e solo de Ecoporanga são favoráveis ao cultivo da fruta, semelhantes às encontradas em Pinheiros, um dos maiores produtores de mamão do Espírito Santo. Além do café e do futuro plantio de mamão, ele também cultiva banana-da-terra e banana-prata.





