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Operação Militar Russa na Ucrânia: 3 impactos no setor do agronegócio brasileiro

por Leonardo Beraldo

em 02/03/2022 às 7h15

7 min de leitura

Sem sombra de dúvidas estamos vendo a história ser feita. O cenário de guerra total entre dois países desenvolvidos dentro do continente europeu é algo que não ocorre desde a década de 90, quando aconteceu a dissolução da Iugoslávia, situação que ainda é encarada por muitos como um conflito interno.

Se partirmos dessa premissa, não há cenário de guerra total na Europa desde a segunda guerra mundial (1939-1945).

A ocorrência deste evento muda o paradigma geopolítico de paz existente desde o fim da guerra fria (1989/1991), quando a possibilidade de sanções econômicas graves era um remédio eficaz, com a tonalidade de ser suficiente para dissuadir qualquer evento beligerante das potências militares.

Este cenário de paz já estava enfraquecido após a invasão americana ao Iraque e ao Afeganistão (2001/2002), a invasão russa à Geórgia (2008), as investidas russas na Ucrânia, a revolução da praça Maidan, como retomada russa da Criméia (2014) e o financiamento russo à rebeldes russos nas regiões separatistas, (Donetsk e Luhansk) gerando guerra civil na Ucrânia entre os anos de 2014 até 2022.

A referida mudança de paradigma afeta completamente o mercado financeiro, as relações geopolíticas entre países e blocos econômicos e militares, e a maneira como os países irão encarar seu próprio plano orçamentário, uma vez que com esta investida russa, a ideia de ter um orçamento militar pouco combativo e focar apenas no campo social não é mais suficiente, considerando a gestão de riscos mundiais.

Como a Rússia, os Estados Unidos, a Ucrânia e os membros da União Europeia (especialmente França e Alemanha), são atores de extrema relevância no mercado e no setor do agronegócio, é inevitável que o atual conflito trará consequências neste meio.

Alguns deles serão observados com o passar do tempo, mas alguns deste já são facilmente percebidos, como os seguintes:

pube

Aumento do preço de combustíveis fósseis: O preço do barril de petróleo chegou no dia 24/02/2022 à marca de $ 105 USD, valor este que não havia sido atingido desde 2014.

A Rússia é o segundo maior exportador global de petróleo, detendo forte poder na precificação da commodity. Lembrando que a Petrobrás (que detém o monopólio da produção e comercialização de petróleo) adota a política de precificação de paridade, e por isso os preços do mercado afetarão o preço no mercado interno.

Como o cenário brasileiro é extremamente dependente de transporte por automóveis (ao invés de ferrovias, aquavias, etc), e temos uma área geográfica extensa, o impacto do aumento de combustível é extremamente sensível no sentido de transporte de insumos, transporte de mercadorias, que sem sombras de dúvidas aumentará o preço dos alimentos.

Além disso, o petróleo como matriz energética é extremamente relevante para produção de bens industriais e funcionamento de equipamentos, fato que afeta por si só o custo da produção de insumos (fertilizantes, defensivos agrícolas, etc.). O Brasil não possui cadeia produtiva destes insumos e fatalmente sofrerá com as altas de preço, no que se refere ao aumento dos custos de produção.

Por fim, o custo de matriz energética são elementos inerentes (nas últimas décadas) às métricas de inflação e o desarranjo destes preços impactarão sensivelmente no custo de produção por si.

Tal contexto, provavelmente, estará alinhado à possível perda de valor da moeda brasileira, este cenário de crise provavelmente culminará o fortalecimento de moedas fortes (dólar e euro principalmente) e metais (ouro e prata), onde reduz a oferta do dólar, resultando no aumento da inflação em conjunto da desvalorização do real.

Protagonismo russo na produção de fertilizantes: Além do aumento dos custos dos insumos (pelo aumento do preço de derivados de petróleo), a Rússia e Belarus (aliada de Putin nesta investida) estão entre os maiores produtores de fertilizantes no mundo (juntamente com China e Marrocos), isso afeta drasticamente o Brasil, uma que importa 80% dos fertilizantes (chegando à 96% dos fertilizantes com base em potássio).

Nesta consequência, qualquer conjunto de sanções globais à Rússia (e Belarus) afetará o Brasil, ao passo que reduzirá a oferta desses insumos, possivelmente dificultará o pagamento e recebimento destes (com a possível paralisação das operações bancárias russas), além do referido aumento dos custos de transporte, em consequência do aumento do preço dos combustíveis.

Uma consequência evidente será nos contratos de compra e venda futura de grãos, que tendem à serem entregues na próxima safra, estes terão um evidente desequilíbrio, uma vez que o custo da produção irá aumentar, impossibilitando muitos produtores que travaram o preço de grãos, que ou não entregarão estes, ou terão graves prejuízos e aumentos dos custos de transação.

O que se avizinha provavelmente será a renegociação e reequilíbrio de boa parte destes contratos, tentando manter o pacto sunt servanda, sem esquecer o reequilíbrio proporcional dos contratos.

Protagonismo ucraniano na produção agrícola: A Ucrânia há séculos é encarada como celeiro da Europa, isto porque a sua superfície geográfica é plana, os solos são férteis (chamado de solo negro, extremamente rico em húmus) e o clima propício a produção de grãos (principalmente trigo e milho), leguminosas (batata e beterraba, esta última matéria prima para produção de açúcar na Europa) e produção laticínios.

A Ucrânia é o sétimo maior produtor de trigo do mundo, enquanto a Rússia é o quarto maior produtor, os dois juntos compreendem 30% das exportações globais deste grão, e embora o Brasil importe a maioria deste grão da vizinha Argentina, a redução de oferta impactará no aumento deste preço, uma vez que provavelmente aumentará a demanda europeia por trigo argentino.

A oferta reduzirá muito, pois a área à leste do rio Dnipro responde pelo protagonismo da produção agropecuária ucraniana, área que está sob ataque russo. Além disso, como a Rússia exporta para muitos países europeus, estes, no intento de cortar laços com o país invasor, demandaram mais para cenários alternativos, como o americano e o argentino.

O Brasil, por possuir fortes laços de origem com países da Europa (Portugal, Itália, Alemanha e Espanha), possui em sua culinária alta demanda por trigo, uma vez que o pão, pizza, macarrão, dentre outros fazem parte altiva da alimentação do brasileiro médio é de difícil substituição, desta maneira o brasileiro sentirá no dia-a-dia o impacto do aumento do preço do trigo.

 

Conclusão:

Com o aumento dos insumos, custos de transportes, aumento do preço de grãos, a maioria dos contratos poderão sofrer reequilíbrio. Por isso, é extremamente relevante que os atores do agronegócio brasileiro entendam as suas linhas de crédito e capacidade de adimplir estas, o reequilíbrio dos preços travados de contratos futuros, e o teor dos contratos de importação e exportação de grãos (para elencar os mais relevantes no momento). Todos estes fatores serão impactados nos próximos dias, meses e anos e deverão ser analisados com frieza e justiça para que o prejuízo não venha a impossibilitar o exercício da atividade agropecuária e a quebra da cadeia produtiva, industrial e comercial.

* Leonardo Beraldo, sócio do BEM Advocacia, escritório especializado em direito aplicado ao agronegócio.

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