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Há um ponto em comum entre quatro mulheres que vivem histórias diferentes na cafeicultura das montanhas de Minas Gerais e do Espírito Santo. Para elas, o café nunca termina na xícara. Antes de chegar ao consumidor, há uma lavoura que precisa ser cuidada, uma família que precisa ser preservada, trabalhadores que precisam ser valorizados e uma história que merece continuar. É nesse território entre a terra e as pessoas que Silmara Emerick, Dagma Mazzoco e Andréia e Camila Vivacqua construíram diferentes formas de fazer do café especial muito mais do que um produto.
No Caparaó mineiro, em Alto Jequitibá, Silmara representa a quarta geração de uma família ligada à cafeicultura. Ela cresceu acompanhando o trabalho na propriedade, o Sítio Imperial da Serra, e diz que as mulheres sempre estiveram presentes, embora nem sempre fossem reconhecidas pelo que faziam. A expansão dos cafés especiais trouxe, para ela, uma mudança que vai além do mercado. A possibilidade de finalmente dar visibilidade a um trabalho feminino que durante muito tempo permaneceu nos bastidores.
“Hoje vejo um momento de validação e valorização no trabalho da mulher”, resume. O reconhecimento, entretanto, não veio sem resistência. “No início eu diria que ninguém acreditava no meu trabalho”. O apoio da família foi fundamental para que ela continuasse, enquanto os concursos deram motivação para que o sonho não fosse abandonado. Para Silmara, a conquista também é coletiva. “O café que produzimos carrega o trabalho de uma família”.

A transformação começou a ganhar outra dimensão em 2019, quando a família se apaixonou pelo universo dos cafés especiais. O sítio passou a ser enxergado de outra maneira. Vieram os concursos, a torrefação, a criação de uma marca própria e, posteriormente, a participação na Rota de Experiência do Caparaó Mineiro. Hoje, quem visita a propriedade pode acompanhar o caminho do café da lavoura à xícara. Cada integrante da família tem uma função. Charles Lopes de Souza, o marido, cuida da propriedade e da pós-colheita, Silmara da comercialização e os filhos, Wallyson e Henrique, da torrefação.
A experiência também mudou a relação dos filhos com a atividade. Ainda adolescentes, eles começaram a se interessar mais pelo café e passaram a enxergar na propriedade uma possibilidade de futuro. É um movimento importante numa atividade em que a sucessão familiar representa um dos grandes desafios. Para Silmara, o café especial abriu justamente essa janela, a da possibilidade de a família permanecer unida em torno de um projeto que ganhou novos significados.
A cerca de 130 quilômetros dali, em Venda Nova do Imigrante, nas Montanhas Capixabas, Dagma Virginia Mazzoco chegou à cafeicultura por um caminho completamente diferente. Aos 63 anos, ela não havia planejado ser cafeicultora. Formada em Educação Física pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), trabalhou com natação, produziu enxovais e até se tornou a primeira mulher da cidade a praticar voo livre. O café entrou em sua vida depois da morte dos pais, quando decidiu assumir e reorganizar parte do patrimônio construído por eles.

A relação com a propriedade, o “Recanto Mansueto” é marcada sobretudo pela memória. O nome é uma homenagem ao pai de Dagma, Marcelino Mazzoco, a quem a “nonna” chamava, em italino, de “mansinho”. Dagma diz que manter a terra produtiva e bonita é, antes de tudo, uma forma de honrar o pai e a mãe. Reformou estruturas, renovou lavouras e reorganizou propriedades. Não se apresenta como uma produtora obcecada por transformar a produção em um café de excelência. O objetivo, afirma, é manter a terra viva e produtiva, preservando aquilo que recebeu como herança.
Foi também nesse processo que surgiu uma experiência peculiar na colheita. Em uma das propriedades, a “Pedra do M”, a escassez de mão de obra fez com que um grupo de mulheres se reunisse para trabalhar na safra. Uma chamou outra, que chamou outra, e a equipe se formou quase naturalmente. A predominância feminina não foi planejada, mas acabou revelando uma dinâmica própria.
“As trabalhadoras preferem a jornada de segunda à sexta-feira. Aos sábados, muitas querem estar em casa, cuidar dos filhos, fazer compras e resolver os afazeres pessoais”. Como o pagamento é por produtividade, há também flexibilidade. Algumas trabalham o dia inteiro, outras vão apenas à tarde, de acordo com as necessidades da família. Para Dagma, esse arranjo criou uma relação de trabalho mais compatível com a vida dessas mulheres.
E há um detalhe que chamou a atenção da produtora: o cuidado com a lavoura. Em uma safra marcada pela maturação desigual dos frutos, foi necessário fazer uma primeira seleção dos grãos maduros e retornar depois para uma segunda colheita. Segundo Dagma Mazzoco, as mulheres fizeram esse trabalho com atenção especial. “Elas são muito mais caprichosas. A colheita é manual, sem derriçadeiras, e elas retiram os frutos com mais delicadeza, preservando ramas e galhos”.
Mas talvez o resultado mais interessante esteja longe da balança. Dagma percebeu que mulheres que muitas vezes nem se conheciam antes da safra terminaram o período mais próximas. Entre uma fileira e outra de café, compartilharam histórias pessoais, problemas, alegrias e intimidades. A lavoura virou também espaço de convivência.
É aí que surge Mariza Paulucio, uma das trabalhadoras. Para ela, trabalhar na roça nunca foi apenas uma maneira de ganhar dinheiro. É parte de sua identidade. Filha de trabalhador rural, de Muniz Freire, na região do Caparaó, passou a vida na lavoura e criou os filhos no meio dos cafezais. Quando estava grávida do mais novo, trabalhou durante o dia e foi ao hospital à noite para dar à luz.
Hoje, Mariza concilia a colheita com os cuidados do neto, que ficou sob sua responsabilidade. Trabalha até o horário de buscá-lo na creche e ainda mantém um pequeno salão de beleza em casa, onde corta cabelos nos fins de semana. O café, para ela, cabe dentro dessa vida cheia de responsabilidades porque oferece algo que considera precioso, a proximidade, a autonomia e a possibilidade de continuar trabalhando sem abandonar a família. “É um serviço que é perto da minha casa, dá para eu fazer as duas coisas. Tomar conta do neném, que é o principal, e trabalhar, ter meu dinheirinho”, conta.

“Eu trabalho contente, eu amo trabalhar na roça. Você está lá no meio do café trabalhando, tem uma paz tão grande, uma energia que vem”. Para ela, há tranquilidade no contato com a terra, nos sons dos pássaros, no vento e nas pausas à sombra. “Eu me sinto tranquila lá na roça”, afirma Mariza Paulucio.
Em Brejetuba, também nas Montanhas Capixabas, essa filosofia ganhou uma dimensão empresarial. Andréia Vivacqua, do Café Chiara assumiu a Fazenda Marapé em 2002, deixando a atividade com gado de leite para apostar no café. Duas décadas depois, a propriedade se transformou em uma estrutura voltada à produção de cafés especiais e à valorização das pessoas que vivem e trabalham ali. A Fazenda abriga atualmente 12 famílias e mantém iniciativas relacionadas a moradia, escola, lazer, saúde e trabalho durante todo o ano.
Andréia resume sua visão em uma frase que poderia servir de síntese para toda essa trajetória. “Amamos café e amamos pessoas”. Para ela, melhorar a qualidade do produto exigiu buscar conhecimento técnico e investir também nas pessoas. “Cada colaborador entende que ele é peça fundamental para que o processo ocorra”, afirma. A propriedade, acrescenta, “valoriza e apoia de todas as formas ele e suas famílias”.

O cuidado, na Fazenda Marapé, alcança ainda a natureza. A propriedade trabalha com preservação de nascentes, regeneração de áreas degradadas, tratamento de resíduos e redução do uso de adubos químicos. Em 2025, Andréia foi contemplada com o primeiro contrato do Programa de Financiamento para a Construção de Pequenas Barragens, do Espírito Santo. O projeto, de R$ 123,2 mil, prevê uma estrutura com capacidade de armazenar 9,5 milhões de litros de água e busca ampliar a segurança hídrica da produção. Na ocasião, a produtora afirmou que a iniciativa complementaria o trabalho de proteção das nascentes já realizado na propriedade.
Cuidado
Se Andréia Vivacqua consolidou a estrutura, foi Camila quem encontrou uma nova maneira de contar essa história. Filha da produtora e neta de Dona Clarinha, matriarca que inspirou o nome “Chiara”, ela percebeu que havia valor não apenas no café, mas na origem que existia por trás dele. A marca nasceu desse movimento de transformar um patrimônio familiar em uma história capaz de alcançar novos consumidores.
Camila passou a olhar para mercados internacionais e descobriu que havia consumidores interessados em cafés diretamente ligados ao produtor, à origem e a uma história verdadeira. O desafio deixou de ser apenas vender café verde. Era preciso construir uma marca e criar uma conexão com quem estava do outro lado. O resultado foi a expansão do Chiara para além do mercado regional e nacional, com vendas e início de exportações em pequena escala para os Estados Unidos e a Europa.
Para Camila Vivacqua, crescer não significa abandonar a origem e, sim, fazer com que ela viaje. “Crescer não é deixar a nossa origem para trás. É fazer com que essa origem chegue cada vez mais longe”, resume. A marca leva para outros mercados o nome de Brejetuba, a história de Andréia, a memória de Clarinha e o trabalho das famílias que participam da produção. É uma forma de sucessão em que a filha não simplesmente assume o lugar da mãe. Ela acrescenta uma nova camada ao legado.


Fotos: divulgação
Uma linha atravessa as histórias dessas quatro mulheres da reportagem. Cuidar é também produzir. Cuidar da planta para colher melhor. Cuidar da terra para que ela continue produzindo. Cuidar de quem trabalha para que a atividade tenha futuro. Cuidar da família para que a sucessão seja possível. E cuidar da própria história para que o café não seja apenas identificado pelo sabor, mas também por tudo aquilo que foi necessário para colocá-lo dentro da xícara. Como diz Dagma Mazzoco, ao observar as mulheres na colheita, “não tem trabalho que a mulher não possa fazer”.
Quando a qualidade deixa de ser medida somente pelo que acontece com o grão e passa a incorporar tudo o que acontece ao redor dele, a xícara ganha outra dimensão. O café continua sendo especial pelo sabor, mas também porque, antes dele, alguém cuidou.
Espaço e voz no campo
O Censo Agropecuário 2017, do IBGE, mostra que 946.075 estabelecimentos agropecuários eram dirigidos por mulheres, o equivalente a cerca de 19% do total de produtores, uma participação superior aos 13% registrados no Censo de 2006. Os homens ainda respondiam por aproximadamente 81% dos estabelecimentos, mas o avanço feminino revela uma mudança importante na composição de quem toma decisões no campo. No caso da cafeicultura, esse movimento ajuda a contextualizar histórias como as das mulheres desta reportagem, que assumiram diferentes posições na cadeia e passaram a imprimir suas próprias marcas na produção.
A pesquisa Perfil da Mulher do Agronegócio Brasileiro, realizada pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) em 2016, reforça que essa presença não se limita à propriedade rural: 42% das entrevistadas atuavam na agricultura, 60% tinham concluído o ensino superior e 88% declaravam independência financeira. Ao mesmo tempo, 71% disseram já ter enfrentado algum tipo de discriminação por serem mulheres, enquanto 43% apontaram dificuldades para serem ouvidas por funcionários e 41% resistência de colegas quando demonstravam interesse pelo negócio. O levantamento mostra, portanto, uma mulher cada vez mais preparada e protagonista, mas ainda obrigada a conquistar espaço em um ambiente historicamente masculino, realidade que ganha rosto e voz nas cafeicultoras retratadas nesta reportagem.






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