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Em Ibatiba, na região do Caparaó Capixaba, uma pequena propriedade rural está transformando a relação entre produção de café, conservação ambiental e criação de abelhas nativas. O cafeicultor Filipe de Souza Oliveira, de 35 anos, do Sítio das Abelhas, localizado no Córrego Santa Isabel, próximo à BR-262, aposta na sustentabilidade para dar um novo rumo à propriedade.
A área chegou às mãos de Filipe e da esposa em 2022, após a morte do sogro. Desde o início, o produtor decidiu renovar a lavoura já existente e interromper o uso de agrotóxicos. A preocupação passou a ser a recuperação do solo e a ampliação da biodiversidade.
Criado na zona rural, o interesse pela preservação ambiental ganhou força a partir da observação de aves e da formação técnica em Meio Ambiente. Durante o curso, também foi bolsista do Núcleo de Estudos em Agroecologia do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) – Campus Ibatiba.
Foi nesse processo de formação que surgiu uma consciência maior sobre a importância da biodiversidade na produção rural. As abelhas nativas sem ferrão passaram a fazer parte do projeto. Atualmente, Filipe mantém cerca de 30 colônias de abelhas sem ferrão, todas cadastradas no Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf).
“Quando a gente teve a oportunidade de trabalhar na nossa própria terra, quisemos trabalhar com essa pegada sustentável. E as abelhas têm papel fundamental dentro da lavoura. Pesquisas de diferentes universidades apontam benefícios da presença de abelhas na produção e na qualidade sensorial dos grãos”, detalha o cafeicultor.

Abelhas e café em sintonia
A presença das abelhas passou a fazer parte da estratégia de produção e de conservação da propriedade. Para Filipe, a preservação da biodiversidade é uma aliada da atividade cafeeira e pode contribuir para melhorar o ambiente e agregar valor ao produto.
A produção de café também segue uma estratégia diferente da tradicional. Depois da renovação da lavoura, Filipe colheu pela primeira vez os novos frutos e decidiu investir na torrefação e na venda direta ao consumidor. O primeiro lote torrado foi comercializado rapidamente. Nascia assim o Café Mandaçaia.
“A mandaçaia é uma abelha sem ferrão da nossa fauna. Foi a primeira abelha que comecei a criar e acabou sendo uma homenagem”, explica.

O café é vendido em grãos, torrado ou moído, principalmente em feiras, eventos e pontos ligados ao turismo na região do Caparaó. A divulgação também é feita pelas redes sociais. A proposta é aproximar produtor e consumidor e agregar valor ao produto.
Para Filipe, essa mudança é uma forma de enfrentar uma das dificuldades históricas da agricultura familiar: produzir durante todo o ano e, no momento da comercialização, depender de intermediários.
“Não concordo com a forma como o produtor trabalha o ano inteiro, pega no pesado e depois entrega o café a preço baixo para um atravessador vender caro. A gente quis vender o café direto, torrado e moído, fazendo um café de qualidade”, afirma.
Além da produção, o agricultor também transformou o conhecimento adquirido com as abelhas em uma atividade profissional. Ele abriu uma empresa e passou a oferecer consultorias e mentorias para produtores interessados em iniciar a criação de abelhas nativas. O trabalho também envolve escolas e instituições.
A iniciativa começou a despertar o interesse de outros cafeicultores da região. Filipe afirma que já orienta produtores de cafés especiais na implantação de colônias e que até produtores maiores, inclusive campeões de concursos de café, estão começando a investir na criação de abelhas.
Para ele, a expansão da meliponicultura pode contribuir não apenas para a biodiversidade, mas também para a própria atividade cafeeira.
“Se o produtor começar a ter essa consciência de que as abelhas melhoram a produção, agregam valor ao produto e melhoram o ambiente, ele acaba se apaixonando pelas abelhas”, destaca.
A diversificação também abre possibilidades de renda. Além do café, as abelhas podem fornecer mel, cera e enxames, além de matérias-primas para produtos artesanais, como velas e sabonetes. Filipe pretende, no futuro, ampliar a atividade e regularizar a produção para comercializar os produtos das abelhas de forma mais abrangente.
Na visão de Filipe, recuperar áreas, diversificar as plantações e preservar as abelhas são caminhos para tornar a produção mais equilibrada. A meta é transformar o pequeno sítio em uma referência regional em sustentabilidade e meliponicultura.






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