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Cooperativa fundada por assentados é referência nacional

por Leandro Fidelis

em 13/06/2024 às 0h03

8 min de leitura

Cooperativa fundada por assentados é referência nacional

Foto: divulgação

Matéria publicada originalmente 23/03/2022

Cooperar é a palavra de ordem nos assentamentos e acampamentos de agricultores familiares na luta pela ocupação da terra. Por serem grupos que buscam construir coletivamente os espaços sociais, eles sabem da necessidade de conviver em harmonia e da cooperação mútua para juntos se desenvolverem.

No Espírito Santo, três cooperativas nasceram no âmbito dessas comunidades na década de 1990, mas não vingaram pela inexperiência dos dirigentes com questões administrativas e financeiras. Ampliar este conhecimento era inevitável para expandir o comércio de café e pimenta-do-reino, principais culturas no Norte e carros-chefes das empresas.

Por isso, em 7 de setembro de 2012, um grupo de 31 sócios fundou a Cooperativa de Beneficiamento, Comercialização e Prestação de Serviços dos Agricultores Assentados (Coopterra), com sede no Assentamento Vale da Vitória, em São Mateus. “A Coopterra é uma das que mais crescem no Brasil no contexto do Movimento Sem Terra. Não se fala em café no MST sem falar da Coopterra, nos tornamos referência”, diz um dos sócios-fundadores e presidente da cooperativa até o último dia 5 de março, Joãozinho Santos de Souza.

O presidente eleito para os próximos três anos, Akeles Henrique Carolino. Foto divulgação

A formação original com assentados vigorou nos primeiros anos, mas, posteriormente, o estatuto ampliou para participação de pequenos produtores rurais. Hoje, são 181 cooperados, de Mantenópolis, Pancas, Fundão, Santa Teresa, São José do Calçado e Guaçuí. Juntos, esses agricultores contribuem para a geração de 15 postos de trabalho permanentes e de dez a 12 temporários na safra de café e pimenta. Em 2021, o faturamento foi recorde: R$ 9 milhões.

O principal negócio da cooperativa é o comércio de café verde ou processado e de pimenta-do-reino. Para este ano, está prevista a venda de 12 mil sacas de café conilon verde, 3.000 mil sacas de café arábica,140 mil quilos de café torrado e moído, 250 toneladas de pimenta-do-reino, 15 mil litros de fertilizante líquido e 700 sacos de adubo sintético granulado.

O plano comercial inclui também o mercado internacional. Na busca por novos mercados, China, Rússia e Espanha estão entre os potenciais compradores para os próximos anos. “A cooperativa é responsável por 10% da pimenta produzida na região Norte capixaba e está apta para exportar a especiaria e café”, afirma Joãozinho. Além das vendas, a Coopterra vai beneficiar 42 mil sacas de café e 570 mil quilos de pimenta-do-reino maduros e realizar 1.000 horas de serviço de máquinas agrícolas.

 

História

A história da Cooperativa de Beneficiamento, Comercialização e Prestação de Serviços dos Agricultores Assentados se confunde com o início das ocupações de terras no Estado, em 1985. A Coopterra fica localizada no km 40 da Rodovia Miguel Cury Carneiro, dentro do Assentamento Vale da Vitória, uma das conquistas do MST naquele ano.

Foto: divulgação

Outra ocupação naquele período foi a da Fazenda Georgina, considerada o marco da reforma agrária no Espírito Santo. Trezentas e cinquenta famílias de vários municípios do Norte do Estado montaram acampamento na propriedade “abandonada, que não produzia nada e fazia extração ilegal de madeira”, lembra Joãozinho de Souza. “As famílias ficaram um mês e meio acampadas e foram desejadas pela Polícia Militar. Não houve conflito direto, eram mais ameaças”.

A fazenda foi desapropriada pelo Incra em 1986 e assentou 81 famílias, se transformando no Assentamento Georgina. Na mesma época, haviam duas áreas devolutas próximas, que também foram convertidas em assentamentos: Pratinha (17 famílias) e São Vicente (cinco famílias) e outra em Conceição da Barra (Pontal do Jundiá).

Foto: divulgação

As negociações ocorreram junto ao governador Gerson Camata e culminaram, ainda, com a liberação de uma área de experimento da antiga Emcapa (atual Incaper), de 100 alqueires, para assentar 37 famílias. Nascia, assim, o Assentamento Vale da Vitória, onde fica a sede da Coopterra.

“Na luta pela terra, nenhuma família tinha condição de investir na roça. Inicialmente, os agricultores assentados produziam mandioca, banana, feijão, milho, mais para subsistência. Juntamente com o Plano Nacional de Reforma Agrária, criado em 1987 para assentar cinco mil famílias em todo o Brasil, surgiu o Programa Nacional de Crédito da Reforma Agrária, o Procera, e foi com esse crédito que conseguiram plantar café e pimenta, culturas predominantes na região”, conta Joãozinho.

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As famílias produziam bem, mas não tinham como beneficiar o produto, por isso, vendiam café e pimenta in natura. Sem clareza sobre como organizariam a atividade agrícola, em 1990 começou uma discussão sobre cooperativismo. É o que afirma o presidente eleito para os próximos três anos, Akeles Henrique Carolino.

“Precisávamos estar unidos também na hora de produzir e vender, dar vazão à produção. Foram feitos vários seminários, criadas quatro associações, mas o grupo percebeu que este formato não contribuiria para avançar no sentido de beneficiar e comercializar a produção”.

Então, em 1991, foram criadas três cooperativas de assentados: a Cooprava, de São Mateus; uma do Assentamento Pipinuque (Nova Venécia) e outra do Assentamento 13 de Maio (São Gabriel da Palha), com produção de café, mamão e maracujá. Devido ao já mencionado problema com gestão, a Cooprava durou até 2000 e se dissolveu, sendo que os cooperados do Vale da Vitória e da Georgina, num total de 15 pessoas, ficaram com os galpões e secadores de café, recorda Joãozinho.

Em 2006, os agricultores começaram a reativar as estruturas para evitar a terceirização do serviço de secagem, que não era muito confiável na região. Dois anos depois, eles já estavam preparados, mas vendendo separadamente café.

Foi aí que, em 2010, os assentados cafeicultores que tinham bloco de produtor se uniram como grupo de cooperação informal para a venda conjunta de 300 sacas do grão. “Vimos que nesta venda tivemos ganho real de R$ 50 a mais por saca na comparação com o valor na região. Isso nos acendeu uma luz de que podíamos melhorar essa questão da comercialização e usamos o antigo galpão da Cooprava para fundar a Coopterra”, conta o ex-presidente.

 

Meta é atender todos os assentamentos capixabas

A Coopterra conta com associados em vários municípios do Espírito Santo. Com 64% do quadro social formado por pequenos produtores de São Mateus, a cooperativa tem como meta atender todos os assentamentos capixabas nos próximos anos.

É um processo, uma construção, no qual as pessoas têm que ter vontade política para participar. O papel da cooperativa não é somente o econômico, mas político e social. Este é o desafio”, destaca o sócio fundador e atual vice-presidente, Ailton Nunes dos Santos.

Sócio fundador e atual vice-presidente DA Coopterra Ailton Nunes dos Santos. Foto Divulgação

Ailton vê como vantagem a organização social dos assentados no fortalecimento do cooperativismo. “Não existe família assentada sozinha. Está sempre vinculada a um grupo. O pequeno produtor isolado, que não participa de associação ou cooperativa e que não é assentado, tem essa dificuldade. Entre os assentados, a coletividade já vem como característica, o que facilita muito nossa organização interna”.

Prestes a completar dez anos, em setembro, a Coopterra busca descentralizar a atual estrutura e garantir assistência técnica aos 181 cooperados ainda em 2022. De acordo com o vice-presidente, a primeira experiência acontece no Assentamento Valdício Barbosa (Conceição da Barra), onde a cooperativa investe em armazenagem e secagem de café e pimenta-do-reino, além de treinamentos, por meio de uma parceria entre MST e Fundação Renova.

Outra iniciativa contempla os assentamentos Piranema (Fundão) e Zumbi dos Palmares (São Mateus), estimulando o processo de secagem da pimenta. Para Ailton, o beneficiamento do café e da pimenta ocorrendo em outras estruturas além da sede da Coopterra facilita a logística e a comercialização junto aos compradores.

 

Diretoria Coopterra nos próximos 3 anos

Presidente: Akeles Henrique Carolino

Vice-pesidente: Ailto Nunes dos Santos

Tesoureiro: Adenicio Moreira da Silva

Vice-esoureiro: Alda Batista

Secretária: Edneia Capeletto

 

LINHA DO TEMPO

1985- Início das ocupações de terra no ES

1986- Criado o Assentamento Georgina

1987- Início dos plantios de café e pimenta no assentamento

1990- Começa discussão sobre cooperativismo

1991- Criação das cooperativas de São Mateus

(Cooprava), do Assentamento Pipinuque (Nova Venécia)

e do Assentamento 13 de Maio (São Gabriel da Palha)

2000- Cooprava se dissolve

2006- Reativação da infraestrutura das cooperativas

2010- Venda de café conjunta e informal

2012- Fundação da Coopterra por 31 sócios

2013- Coopterra passa a integrar grupo nacional ligado ao MST

2015- Criação da marca própria “Terra de Sabores”

2016 a 2019- Venda por edital para Exércitos do RJ e PR

2021- Faturamento recorde de R$ 9 milhões

2022- Coopterra completará dez anos em setembro

 

 

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