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A saúde mental de produtores rurais e a preparação de profissionais que convivem diariamente com as famílias do campo estarão no centro do Raízes que Cuidam, projeto que começa a ser desenvolvido em setembro pela Conexão Safra em parceria com instituições do setor. A iniciativa foi apresentada pela editora da Conexão Safra, Kátia Quedevez, durante participação no Lidera Cast podcast da Lidera Agrotech, relevante evento do agronegócio capixaba, realizado em Linhares e apresentado pela engenheira agrônoma Jéssica Monteiro.
A proposta é começar por quem está mais próximo dos produtores, como engenheiros agrônomos, técnicos agrícolas, extensionistas e outros profissionais que visitam as propriedades e, muitas vezes, constroem relações de confiança com as famílias. A ideia é ampliar o conhecimento sobre saúde mental para que essas pessoas possam perceber sinais de sofrimento emocional e saber como agir diante de situações que demandem ajuda especializada.
“É um projeto em favor da vida e da saúde mental de quem atua no campo”, afirmou Kátia.
Durante a entrevista, a editora explicou que o olhar mais atento para o tema ganhou força a partir de uma reportagem publicada pela Conexão Safra. Produzido pelo jornalista Leandro Fidelis, o material “O silêncio que adoece o campo” abordou ansiedade, depressão e suicídio entre trabalhadores e famílias rurais.
“Estamos há quase 15 anos trabalhando com agro. E quando nos deparamos com os dados e relatos sobre ansiedade, depressão, de índice de suicídios, ficamos muito chocados”, contou.
Um dos entrevistados ouvidos durante a produção da reportagem tem uma história que ficou marcada na memória da editora. Um jovem pastor luterano entrevistado para a matéria relatou a frequência com que vinha realizando cerimônias de despedida.
“Ele falou: ‘Eu não aguento mais fazer tantas solenidades de despedida’. Aquilo me tocou muito. E, ao longo desse tempo, a gente vem buscando mais informações de como abordar de uma forma séria esse tema. É muito delicado”, disse.
A experiência ajudou a transformar uma pauta jornalística em uma mobilização mais ampla. “É um assunto que a gente às vezes quer evitar, por ser um assunto difícil, triste. Mas saúde mental tem que ser cuidada, tem que ser abordada e tem de ter um olhar diário.”
Quem cuida do produtor também precisa estar preparado
Em reunões, segundo a editora, o Senar-ES e o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) manifestaram interesse em apoiar o Raízes que Cuidam, demonstrando forte sensibilidade em relação ao tema. Outras instituições estão sendo convidadas para integrar a iniciativa.
A primeira ação deverá ser realizada em Venda Nova do Imigrante, com a intenção de alcançar também profissionais de municípios próximos, como Santa Maria de Jetibá, Domingos Martins, Brejetuba, Marechal Floriano e Conceição do Castelo.
A escolha de começar pelos profissionais que atendem agricultores é parte da estratégia do projeto. A intenção é reunir especialistas, entre eles psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais, para ampliar a compreensão sobre saúde mental e orientar quem mantém contato frequente com as famílias rurais.
“Queremos falar com quem cuida do produtor, com quem atende o produtor. São esses profissionais que vão disseminar o projeto”, explicou.
Kátia destacou que engenheiros agrônomos, técnicos agrícolas e outros profissionais da assistência rural podem ocupar uma posição importante nessa rede de atenção. As visitas às propriedades normalmente envolvem conversas sobre produção, manejo e gestão, mas a relação de confiança construída ao longo do tempo também pode fazer com que problemas pessoais apareçam durante esses encontros.
Um caso citado durante a entrevista ilustra essa situação. Segundo Kátia, um técnico agrícola percebeu que um produtor não seguia repetidamente as orientações recebidas durante a assistência técnica. A dificuldade, posteriormente identificada, estava relacionada ao estado emocional do agricultor.
“O produtor não conseguia seguir o planejamento porque ele estava em depressão. Então, o técnico agrícola foi quase um psicólogo da família”, relatou.
O produtor recebeu ajuda e, de acordo com Kátia, conseguiu retomar suas atividades na propriedade junto com a esposa.
“Esse técnico teve a clareza, a sabedoria de identificar ali e conduzir bem. Mas quantos não conseguem?”, questionou.
Romper o silêncio no campo
Outro ponto levantado no Lidera Cast foi a dificuldade que muitas pessoas ainda enfrentam para pedir ajuda. No meio rural, a percepção de que é preciso demonstrar força permanentemente pode tornar ainda mais difícil reconhecer e verbalizar o sofrimento emocional.
Para Kátia, há também características da própria atividade rural que precisam ser consideradas. Isolamento, perdas provocadas pelo clima, insegurança relacionada à produção e dificuldades para acessar rapidamente determinados serviços e políticas públicas fazem parte do cotidiano de muitas famílias.
“Às vezes, o produtor não tem nem condição de tomar esse primeiro passo, que é buscar ajuda e não sofrer sozinho”, afirmou.
A editora também ressaltou a importância das redes de convivência. Igrejas, clubes de serviço, grupos de atividades físicas, encontros comunitários e o convívio com amigos e familiares podem contribuir para diminuir o isolamento.
“Nós somos um ser social, não podemos ficar isolados. Então, a interação é muito importante”, disse.
Para ela, falar abertamente sobre o tema também é uma forma de utilizar a comunicação para aproximar quem sofre de possíveis caminhos de ajuda. Ao encerrar sua participação no Lidera Cast, Kátia reforçou que perceber mudanças de comportamento e oferecer acolhimento pode representar o começo de um caminho para a busca de ajuda.
“A qualquer sinal de depressão, de ansiedade que o produtor, a produtora, que a família rural esteja apresentando, é preciso buscar ajuda. Às vezes, uma conversa já é um ponto de partida. O cuidado com o outro é um grande ponto de partida.”





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