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Falar sobre saúde mental, especialmente no campo, ainda exige um certo cuidado com as palavras. Curioso, porque não deveria ser assim. A saúde mental atravessa tudo: o corpo, as relações, o trabalho, a forma como existimos no mundo. Ela não é um tema à parte. Ela é base.
E, ainda assim, ao longo dos últimos anos, tenho percebido um padrão silencioso. Desde que levei essa pauta ao Leandro Fidelis, há mais de dois anos, o que mais escuto são confidências quase sussurradas: “precisamos falar mais sobre isso”. Vindo de pessoas, empresas, entidades, instituições. Todos reconhecem a urgência, mas poucos se sentem confortáveis para expor, para assumir, para sustentar essa conversa em voz alta.
Talvez porque falar de saúde mental ainda nos coloque diante da nossa própria vulnerabilidade. E isso, para muitos, é desconcertante.
Hoje, na Festa de Nossa Senhora da Penha, enquanto me preparo para participar da missa, revisito também esse lugar interno. A data, celebrada sempre no domingo após a Páscoa, carrega fé, tradição e um senso coletivo de pertencimento. Este ano, ela caiu em 13 de abril.
Participei da romaria, a Romaria dos Homens, que já há muito tempo é também das famílias e, entre mais de um milhão de pessoas, caminhei sozinha. Sozinha, mas não isolada. Caminhando, rezando, tentando compreender melhor essa dimensão que nos habita: a humana e a divina. Sempre fui uma pessoa aberta às diferentes expressões de fé.
Sou católica e respeito profundamente os evangélicos, espíritas, candomblecistas, budistas … e aprendi, com o tempo, que mais importante do que a forma é a essência: acreditar em algo que nos transcende.
Talvez por isso eu admire tanto o Padre Fábio de Melo. Pela coragem de expor sua humanidade. Ele, que alcançou uma visibilidade imensa, não se esconde atrás dela. Ao contrário, escancara suas fragilidades, fala abertamente sobre sua luta contra a depressão, reconhece seus dias difíceis, e também seus caminhos de cuidado, inclusive com o apoio da medicação. Há algo de profundamente humano nisso. E, ao mesmo tempo, profundamente necessário.
Mas essa não é uma realidade exclusiva de figuras públicas. Muito longe disso.
No domingo, enquanto finalizava um projeto sobre saúde mental no campo, que, em breve, será apresentado a parceiros, recebi uma ligação. Daquelas que não parecem acaso.
Edna, produtora rural de Itarana, me ligou para compartilhar uma conquista. Uma vitória silenciosa, mas imensa. O marido, que enfrentava um quadro de depressão, está retomando a rotina. Voltando ao trabalho, indo ao banco, saindo de casa. Sozinho.
Para muitos, pode parecer simples. Para quem vive o processo, é tudo.
Edna já havia dividido sua história no programa “Elas no Agro”, do Senar, diante de milhares de mulheres. Falou sem filtros sobre os desafios, sobre o peso emocional, sobre o que significa caminhar ao lado de alguém em sofrimento. E ontem, ao me ligar, ela não queria apenas contar. Queria agradecer por ter sido ouvida em algum momento.
Às vezes, é disso que se trata o primeiro passo: alguém que escute.
Histórias como a da Edna nos lembram que não há vergonha em não estar bem. Que reconhecer isso é, na verdade, um ato de coragem. Que buscar ajuda, seja com psicólogos, psiquiatras, serviços públicos ou redes de apoio, é um movimento de cuidado, não de fraqueza.
No campo, onde tantas vezes o trabalho é solitário, onde as distâncias são maiores e o acesso à informação nem sempre é imediato, esse tema ganha ainda mais relevância. Muitas famílias enfrentam essas questões sem saber por onde começar.
Talvez o caminho inicial seja, justamente, o mais próximo: o município. A unidade de saúde, a assistência social, os profissionais que estão ali, acessíveis. Existe uma rede, ainda que, por vezes, invisível, que precisa ser ativada.
Depois de 15 anos à frente da Conexão Safra, esse entendimento se torna cada vez mais claro para mim. A nossa entrega precisa ir além da informação técnica, além da produtividade, além do mercado. Ela precisa alcançar quem está por trás de tudo isso.
O ser humano.
Aquele que está atrás da enxada, da roçadeira, do volante do trator ou do controle de um drone. Aquele que produz, sustenta, constrói, mas que também sente, sofre, precisa de apoio.
Vamos falar mais sobre saúde mental no campo. Com responsabilidade, com respeito, sem sensacionalismo, mas sem silêncio.
Porque não está tudo bem o tempo todo. E tudo bem reconhecer isso.
E, principalmente, porque ninguém precisa enfrentar isso sozinho.





