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O climatologista Carlos Nobre, um dos principais nomes da ciência brasileira e referência internacional nos estudos sobre Amazônia e mudanças climáticas, avalia que o Brasil precisa se preparar rapidamente para os impactos de um possível El Niño forte. Segundo ele, ainda será necessário aguardar os próximos meses para confirmar a intensidade do fenômeno, mas o risco de um evento de média a forte intensidade já exige atenção de governos, setores produtivos e população.

“Sem dúvida, teremos um El Niño. As previsões indicam que o fenômeno já deve começar no mês de junho. Mas será a partir de junho e julho que saberemos qual intensidade esse El Niño poderá atingir no segundo semestre deste ano, afetando praticamente todo o Brasil e estendendo-se até os primeiros meses de 2027”, afirma Nobre.

O alerta ocorre em um momento em que os principais centros internacionais de monitoramento climático apontam avanço das condições favoráveis ao El Niño no Pacífico Equatorial. O Centro de Previsão Climática da NOAA, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, estima 82% de chance de o fenômeno se formar entre maio e julho de 2026 e 96% de probabilidade de persistir entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. O boletim também indica que há chance combinada de cerca de dois terços para um El Niño forte ou muito forte no trimestre de novembro de 2026 a janeiro de 2027.

Apesar disso, Nobre pondera que ainda não é possível cravar se o evento será um Super El Niño. Para ele, a maior probabilidade neste momento é de um fenômeno de intensidade média a forte, com possibilidade de se tornar muito forte. “Algumas pesquisas, inclusive, já começam a analisar se este poderá ser o El Niño mais forte do registro histórico, mas essa questão ainda não pode ser afirmada com certeza. De qualquer forma, o risco de ser um El Niño forte é grande, e este é um ponto muito importante para nos prepararmos rapidamente nos próximos meses”, diz.
A preocupação do climatologista é agravada pelo contexto do aquecimento global. Nobre lembra que os anos recentes estiveram entre os mais quentes do registro histórico e que o excesso de energia retido no sistema climático tem aquecido também os oceanos. Como o El Niño nasce do aquecimento anormal das águas do Pacífico Centro-Leste Equatorial, esse cenário pode intensificar os efeitos do fenômeno.
“Enquanto persistir o aquecimento global, e certamente será por não menos do que séculos, nós temos que estar preparados para o fato de que os El Niños, em média, vão ficar mais fortes”, afirma, salientando que eventos extremos como ondas de calor, chuvas excessivas, secas, rajadas de vento, incêndios florestais e ressacas tendem a ganhar intensidade em um planeta mais quente.
O meteorologista Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), também avalia que ainda é cedo para definir a intensidade do fenômeno. Segundo ele, a estação de transição reduz a confiabilidade dos modelos climáticos, e não é possível classificar um evento apenas pela observação da temperatura da massa de água do oceano.
“É prematuro falar qualquer coisa em relação à intensidade do El Niño somente observando a temperatura da massa de água do oceano, especialmente agora, durante a estação de transição”, explica Sampaio, também apontando que, a partir de junho, os modelos tendem a ficar mais confiáveis, permitindo uma leitura mais precisa sobre a evolução do aquecimento no Pacífico.
Agências internacionais
O boletim da NOAA mostra que as condições atuais ainda são neutras, mas com sinal de alerta para El Niño. As temperaturas da superfície do mar no Pacífico Equatorial central e leste estão próximas ou acima da média. Nas últimas medições semanais, as anomalias chegaram a 0,5°C na região Niño 3.4, uma das principais áreas usadas para monitorar o fenômeno, e a 1,3°C na região Niño 1+2.
Para que o El Niño esteja configurado, no entanto, não basta o aquecimento da superfície do oceano. É preciso que esse aquecimento persista e venha acompanhado de resposta da atmosfera, como o enfraquecimento dos ventos alísios, que sopram de leste para oeste ao longo da Linha do Equador. Essa mudança altera a circulação atmosférica e interfere no regime de chuvas e temperaturas em diferentes partes do planeta.
Impactos no Brasil
No Brasil, os impactos variam conforme a região. O El Niño costuma favorecer a seca no norte e no leste da Amazônia e em parte do Nordeste, principalmente no primeiro semestre. No Sul, o fenômeno está associado ao aumento das chuvas, especialmente na primavera. No Sudeste e no Centro-Oeste, pode contribuir para temperaturas acima da média e episódios de ondas de calor.
Para Carlos Nobre, o problema é que o país está hoje mais vulnerável do que em décadas passadas, mesmo diante de fenômenos de intensidade semelhante. A perda de vegetação nativa, o desmatamento, a ocupação irregular de encostas e margens de rios e a redução da cobertura vegetal nas cidades ampliam os riscos associados ao calor extremo, à seca e às chuvas intensas.
“Sim, o Brasil está mais vulnerável aos El Niños hoje do que no passado, mesmo para fenômenos com a mesma intensidade”, afirma, explicando ainda que cidades com pouca vegetação podem registrar temperaturas muito superiores às de áreas arborizadas durante ondas de calor, o que aumenta riscos à saúde, especialmente entre populações mais vulneráveis.
Na Amazônia, Nobre alerta que a seca associada ao El Niño pode reduzir a umidade do solo e intensificar o calor. No Nordeste, o fenômeno pode agravar períodos de estiagem. No Sul, chuvas excessivas podem elevar o risco de enchentes e deslizamentos, principalmente em áreas onde a vegetação foi retirada e onde há ocupação de encostas ou margens de rios.
O climatologista também destaca que a combinação entre El Niño, aquecimento global e fragilidade territorial impõe um desafio urgente de adaptação. Isso inclui planejamento urbano, recuperação de vegetação, proteção de encostas, preparação da defesa civil, gestão de recursos hídricos e atenção a setores como agricultura, energia e abastecimento de água.
Para Nobre, a preparação não pode esperar a confirmação de um Super El Niño. O risco de um evento forte, em um país mais exposto a extremos climáticos, já deveria ser suficiente para mobilizar respostas preventivas. “Nós temos que estar preparados agora para todo tipo de fenômeno e todo tipo de evento meteorológico. Daqui para frente, nós temos que nos preparar porque eles sempre virão com mais força”, afirma.





