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Um dos principais sistemas que regulam o clima da Terra, a Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico, conhecida pela sigla em inglês Amoc, pode estar sob risco de enfraquecimento sem precedentes na história recente do planeta. O alerta vem de um estudo publicado na revista científica Nature Communications, que aponta que as mudanças climáticas ameaçam a estabilidade desse mecanismo essencial.
A Amoc funciona como uma grande esteira oceânica. Perto da superfície, ela transporta águas quentes das regiões tropicais em direção ao Atlântico Norte. Em profundidade, águas frias e densas retornam para o sul. Esse movimento redistribui calor pelo planeta e influencia diretamente padrões de chuva, temperatura e até a ocorrência de eventos extremos.
Segundo os pesquisadores, alterações nesse sistema sempre estiveram associadas a mudanças abruptas do clima global, como aquelas que marcaram o fim da última era glacial.
O que o estudo mostra
A pesquisa analisou a evolução da Amoc ao longo de todo o Holoceno, período iniciado há cerca de 12 mil anos. Os resultados indicam que, após oscilações no começo desse intervalo, a circulação oceânica se manteve surpreendentemente estável nos últimos 6.500 anos.
Essa estabilidade, porém, pode estar ameaçada. Ao combinar dados coletados diretamente no oceano com projeções dos principais modelos climáticos, os cientistas concluíram que o aquecimento global atual pode provocar um enfraquecimento da Amoc maior do que qualquer variação registrada nesse período.
Os dados de campo foram obtidos a partir de testemunhos de sedimentos marinhos coletados no Atlântico Norte. A equipe analisou a presença de dois elementos radioativos naturais, o tório-230 e o protactínio-231, que funcionam como indicadores da força da circulação oceânica ao longo do tempo.
“Esses elementos são produzidos continuamente na água do mar. Como cada um deles se comporta de forma diferente, a relação entre os dois registrada nos sedimentos permite reconstruir a intensidade da circulação do oceano no passado”, explica Cristiano Mazur Chiessi, professor da Universidade de São Paulo e coautor do estudo.
O que pode mudar no clima
Para transformar os dados dos sedimentos em estimativas concretas da circulação, os pesquisadores utilizaram o modelo climático Bern3D, desenvolvido na Universidade de Berna. A partir disso, foi possível estimar a força da Amoc em Sverdrups, unidade que corresponde a 1 bilhão de litros de água por segundo.
O estudo mostra que, desde cerca de 6,5 mil anos atrás, a circulação se manteve em torno de 18 Sverdrups. As projeções indicam que, se as emissões de gases de efeito estufa continuarem elevadas, esse valor pode cair de forma significativa até o fim do século.
Um enfraquecimento da Amoc tende a provocar mudanças amplas nos regimes de chuva do planeta, especialmente na faixa tropical. América do Sul, África, além dos sistemas de monções da Índia e do Sudeste Asiático, estão entre as regiões potencialmente mais afetadas.
Risco para o norte da Amazônia
Um dos impactos mais preocupantes envolve o norte da Amazônia, justamente a porção mais preservada da floresta. Segundo o estudo, o enfraquecimento da circulação do Atlântico pode deslocar as chuvas equatoriais para áreas mais ao sul.
“Projetamos uma redução significativa das chuvas no norte da Amazônia, incluindo áreas do Brasil, Colômbia, Venezuela e Guianas”, afirma Chiessi. “Essa é uma região que ainda funciona como um refúgio de biodiversidade, o que torna o cenário ainda mais preocupante.”
Pesquisas anteriores já indicaram que enfraquecimentos passados da Amoc estiveram associados à substituição de florestas úmidas por vegetação mais sazonal nessa região. No futuro, esses efeitos podem ser agravados pelo desmatamento e pelas queimadas em outras partes da bacia amazônica.
Um possível ponto de não retorno
Os cientistas alertam que um enfraquecimento expressivo da Amoc pode representar um ponto de não retorno no sistema climático global. Embora haja consenso sobre a tendência de enfraquecimento, ainda não é possível afirmar se o processo já começou. O monitoramento direto da circulação oceânica teve início apenas em 2004, e os oceanos respondem mais lentamente às mudanças climáticas do que a atmosfera. “Ainda existe tempo para agir, mas as respostas precisam ser rápidas e coordenadas”, ressalta Chiessi.





