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A publicação do Plano Clima pelo governo federal não impacta apenas políticas públicas e metas de redução de emissões. Para o agronegócio, setor diretamente exposto a eventos extremos, escassez hídrica e mudanças regulatórias, o plano reforça que riscos e oportunidades climáticos afetam geração de valor, competitividade, acesso a crédito e custo de capital.
Com metas projetadas até 2035 e alinhamento à Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira, o Plano consolida o entendimento de que riscos climáticos devem ser tratados como riscos econômicos e financeiros, com impacto direto nas cadeias produtivas do agro, nas exportações e na relação com investidores e instituições financeiras.
Em paralelo, normas recentes da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Conselho Monetário Nacional (CMN), Resolução CVM nº 193/2023 e Resolução CMN nº 5.185/2024, determinam que companhias abertas e instituições financeiras divulguem informações materiais sobre riscos e oportunidades relacionados ao clima. Como o agro depende fortemente de crédito bancário e financiamento estruturado, a exigência tende a irradiar efeitos também para empresas do setor, inclusive aquelas inseridas em cadeias exportadoras.
Para Ana Luci Grizzi, especialista em governança de clima e natureza, o avanço regulatório e o novo panorama de políticas públicas evidenciam que o dever fiduciário dos administradores engloba a avaliação estruturada dos riscos climáticos, inclusive para empresas do agro.
“O Plano Clima consolida internamente a meta internacional assumida pelo Brasil para gestão de gases de efeito estufa, atribuindo ações específicas a setores produtivos dentro dos planos setoriais. No caso do agro, isso significa impactos diretos na competitividade internacional, no acesso a mercados e no custo de financiamento. Clima deixa de ser tema reputacional e passa a ser fator estratégico de negócio”, afirma.
O que muda na prática para o setor
Embora as resoluções produzam efeitos obrigatórios a partir de 2027, o período atual é considerado decisivo para adaptação. Segundo Ana Luci, empresas precisam evoluir da divulgação pontual de relatórios de sustentabilidade para uma estrutura integrada de governança climática, especialmente em setores com alta exposição a riscos físicos, como o agronegócio.
“Cumprir as novas exigências não significa apenas publicar um relatório. Significa mapear riscos climáticos, avaliar impactos financeiros, estruturar planos de transição e garantir que essas informações sejam validadas internamente e auditadas de forma independente.”
No agro, isso envolve identificar riscos físicos, como eventos extremos, secas prolongadas e enchentes, e riscos de transição, como mudanças regulatórias, exigências de mercados compradores e precificação de carbono. Também inclui avaliar como esses fatores impactam produtividade, fluxo de caixa, acesso a crédito e custo de capital.
O Código do IBGC recomenda que o conselho supervise o processo de reporte e que comitês de auditoria e sustentabilidade validem tecnicamente as informações antes da aprovação final. Para empresas do agro com operações estruturadas ou acesso ao mercado de capitais, essa governança tende a ganhar centralidade.
Relatos financeiros de sustentabilidade e responsabilidade dos administradores
Com a obrigatoriedade de relatos financeiros de sustentabilidade para companhias abertas e bancos, as competências atribuídas aos conselhos de administração e seus comitês passam a abranger também a integridade e materialidade de dados climáticos. Eventuais descumprimentos podem ensejar penalidades administrativas no âmbito da CVM e do Banco Central, além de potencial responsabilização futura, em linha com tendência global de aumento de litígios climáticos.
“Hoje, a governança climática integra o dever fiduciário dos administradores. No agro, isso é ainda mais sensível, porque o setor está na linha de frente dos impactos físicos e também das exigências de mercado”, afirma Ana Luci.
Antecipação como estratégia competitiva
Para a especialista, o momento é de preparação estratégica.
“O Plano Clima sinaliza a direção da política pública brasileira. Empresas do agro que alinharem estratégia, governança e transparência a essa agenda estarão em melhores condições de acessar capital, manter competitividade internacional e dialogar com investidores e compradores globais.”
Com a consolidação da agenda climática no país, os relatos de sustentabilidade deixam de ser acessórios e passam a integrar decisões estratégicas. Para o agronegócio, o desafio agora é estruturar processos capazes de transformar risco climático em gestão eficiente, mitigando exposição e preservando competitividade.





