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Nas estufas de Venda Nova do Imigrante, nas Montanhas Capixabas, uma velha vocação agrícola começa a ganhar sotaque de juventude. De um lado, rosas de seis cores são cultivadas para abastecer igrejas, decoradores e comerciantes de diferentes regiões do Espírito Santo. De outro, orquídeas saem praticamente todos os dias para compradores que chegam a levar dezenas de plantas de uma só vez. Por trás das produções estão dois jovens agrônomos que fizeram o caminho inverso de muitos colegas. Depois de estudar na mesma universidade federal, em Viçosa (MG), voltaram para a propriedade das famílias para empreender no campo.
“Sempre tive a vontade de empreender e, como minha família tem propriedade rural, ficou mais fácil dar esse passo para o empreendedorismo”, resume Rafael Cola.
A história dele e de Lucas Falqueto ajuda a revelar um movimento talvez mais importante do que o surgimento de dois novos negócios. A dupla está apostando na floricultura justamente quando Venda Nova tenta recuperar uma tradição que já colocou o município entre os nomes importantes da produção de flores no estado. Rafael escolheu as rosas, cultura que marcou o passado do município. Lucas investiu nas orquídeas, segmento no qual a região Serrana mantém uma tradição ainda mais antiga.
O timing também é simbólico. A primavera de 2026 começa oficialmente em 22 de setembro, às 21h05, no horário de Brasília, segundo o Incaper. Nas Montanhas Capixabas, a estação tem médias de temperatura máxima entre 24°C e 26°C e mínimas entre 15°C e 16°C, enquanto a precipitação média fica entre 350 e 400 milímetros no período. É justamente para essa virada de estação que Rafael está preparando a lavoura de rosas, estimulando a brotação com resíduo de cogumelo em substituição ao esterco e buscando elevar a produtividade.
A novidade não é dois jovens produzindo flores e, sim, uma atividade tradicional que começa a receber uma nova geração de empreendedores com formação superior em agronomia, conhecimento técnico, uso de redes sociais, diversificação de espécies e planos de aproximar produção, comercialização e turismo rural. Rafael e Lucas enxergam nas flores não uma atividade complementar, mas um negócio capaz de crescer dentro das propriedades familiares.
Cola encontrou as rosas ainda durante a graduação na UFV. Um amigo, cuja família também cultivava a flor, apresentou a ele as dificuldades e as vantagens do negócio. A escolha acabou se encaixando em uma memória agrícola de Venda Nova. A “Capital Nacional do Agroturismo” já foi reconhecida pela produção de rosas e pelo fornecimento para diferentes pontos do Espírito Santo.
Depois de formado, Rafael também teve a oportunidade de trabalhar profissionalmente no maior produtor de flores do estado, localizado no próprio município, experiência que ajudou a transformar o interesse pela cultura em negócio. “Como eu já sabia do histórico de Venda Nova como região produtora, sabia que o clima era propício para a cultura e resolvi investir no plantio de rosas”, conta.
Embora reconheça que as temperaturas médias locais aumentaram nos últimos anos, o produtor considera que as noites mais frias e o clima ameno das montanhas continuam favoráveis à produção de rosas de qualidade.
“Apesar da temperatura média de Venda Nova ter aumentado nos últimos anos, essa temperatura mais amena da região, associada com noites com temperaturas mais baixas, é um fator crucial para se produzir rosas com qualidade”, afirma Cola.
O manejo, porém, exige precisão. Poda correta, colheita no estágio exato de abertura do botão, classificação por tamanho, embalagem e conservação em câmara fria para prolongar a vida comercial de um produto altamente perecível.
A produção já tem destino definido. As rosas são colhidas três vezes por semana e chegam a igrejas, decoradores e comerciantes que fazem a distribuição para diferentes partes do estado. “Contamos com seis cores diferentes, sendo realizada a colheita três vezes por semana, visto que, se os botões abrirem muito, não há comercialização deles”, explica, para quem a expectativa para a primavera é a melhor possível.
Rafael Cola ainda trabalha em escala de expansão e vê espaço para incorporar outras flores à propriedade. “Eu espero que essa retomada do cultivo de rosas em Venda Nova seja só o início de um novo ciclo para a floricultura na região”, afirma.
Orquidicultura
Lucas Falqueto percorreu uma trajetória diferente, mas chegou a uma conclusão parecida. Ele voltou para a família depois da faculdade e passou inicialmente cerca de um ano trabalhando com o tio, o orquidófilo Aloísio Falqueto, em um laboratório de mudas. Paralelamente, começou a conhecer, dentro da propriedade dos pais, todas as etapas necessárias para transformar uma muda de orquídea em uma planta florida pronta para o mercado.
A iniciativa nasceu em um contexto delicado. Em 2022, o pai de Lucas descobriu uma leucemia, hoje controlada com tratamento. Depois de décadas trabalhando pesado na agricultura, especialmente com abacate, citros e café, a família decidiu buscar uma atividade que exigisse menos esforço físico. Uma antiga granja foi aproveitada para a construção de uma pequena estufa, e o tio Aloísio passou a fornecer mudas de orquídeas. O que começou como uma alternativa para reduzir o peso do trabalho rural acabou se transformando em uma nova empresa familiar.

A orquidicultura, contudo, cobra paciência. Lucas explica que o retorno não é imediato. Dependendo da planta, o investimento feito hoje pode levar dois, três, quatro ou até cinco anos para começar a se converter em produção comercial significativa. “O processo é demorado, né? Você investir em orquídea hoje, o retorno começa daqui dois, três, quatro, cinco anos”, afirma.
Depois de testar substratos, adubos e diferentes formas de manejo, a família conseguiu adaptar principalmente as Phalaenopsis às condições de Venda Nova, município de clima mais frio e úmido do que o ambiente considerado ideal para essa espécie. “A gente foi se adequando, estudando os melhores substratos, fizemos vários testes com vários substratos e adubo diferentes, e a gente até que acertou na mão”, relata.
O resultado começou a aparecer de forma mais consistente no ano passado. Lucas ampliou a divulgação pelas redes sociais e passou a utilizar Instagram e TikTok como ferramentas de comercialização. Hoje, segundo ele, entre 80% e 90% do mercado é formado por compradores do entorno da região Serrana e do Sul do Espírito Santo, além de clientes da Grande Vitória. “Hoje constitui grande parte do meu mercado pessoas que compram no atacado até 40 flores de uma vez e levam para revender”, detalha.
A demanda crescente já está mudando o tamanho do projeto. Lucas começou com uma estufa, passou a trabalhar com duas e planeja construir a terceira e a quarta até o fim do ano. A intenção é ampliar a produção de Phalaenopsis e entrar com mais força nas Cattleyas, espécie que já tem produtores em Venda Nova, mas para a qual, segundo ele, ainda existe mercado. O próximo passo é transformar também as redes sociais em vitrines de venda, com comercialização on-line e transmissões ao vivo.
Há ainda uma terceira frente nos planos do jovem produtor, o turismo. Falqueto quer que as próximas estufas tenham espaço para receber visitantes, permitindo que turistas conheçam o cultivo, comprem as plantas diretamente na propriedade e associem a experiência da floricultura ao roteiro turístico das montanhas, especialmente ao fluxo impulsionado pela Pedra Azul. “Nos próximos orquidários eu vou fazer um espaço para receber turista, para a pessoa vir, visitar e comprar no local”, projeta. É uma estratégia que combina produção agrícola, venda direta e experiência turística, três atividades que podem aumentar o valor de cada planta sem depender exclusivamente do atacado.
Profissionalização
O movimento dos dois agrônomos ocorre dentro de uma cadeia que já tem peso considerável no Espírito Santo. O Incaper informa que 17 municípios se destacam na produção de flores, em uma atividade que ocupa 163 hectares e gera mais de 8.000 empregos em toda a cadeia produtiva, movimentando mais de R$ 10 milhões por ano. A instituição destaca ainda o potencial da floricultura como alternativa de geração de renda para famílias rurais.
Dados divulgados pelo Sistema Faes/Senar-ES ajudam a dimensionar esse universo. Segundo informações baseadas no último levantamento do Incaper, ainda de 2018, cerca de 900 agricultores estavam envolvidos com o cultivo de flores no estado. O Senar-ES mantém, inclusive, formação profissional específica em floricultura e plantas ornamentais, com conteúdos que incluem manejo, substratos, irrigação, controle de pragas e doenças, produção e comercialização.
O histórico é ainda mais revelador quando se olha para Venda Nova. O Incaper registra o município entre os polos capixabas de produção de orquídeas e aponta que o Espírito Santo possui uma tradição pioneira nesse segmento desde a década de 1950. Em 2017, o instituto informava que assistia mais de 400 agricultores familiares floricultores no Estado e destacava Domingos Martins e Venda Nova do Imigrante justamente pela produção de orquídeas.
O Senar-ES tem tratado a floricultura como uma atividade que demanda profissionalização, assistência técnica e capacidade de gestão. Desde 2015, o programa de Assistência Técnica e Gerencial da entidade já atendeu propriedades em diversas culturas, incluindo a floricultura.






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