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Café brasileiro busca reduzir dependência externa e ampliar valor agregado

Tarifaço expôs vulnerabilidades comerciais, enquanto rastreabilidade, certificações e produção sustentável abrem novas oportunidades para o setor

Foto: divulgação

Matéria publicada originalmente 15/11/2025

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos acendeu um alerta na cafeicultura brasileira. A dependência de grandes compradores, as barreiras à entrada de produtos industrializados e a necessidade de maior presença institucional nos mercados internacionais estão entre os desafios do setor. Ao mesmo tempo, rastreabilidade, sustentabilidade, certificações e avanços na produção colocam o Brasil em posição favorável para ampliar a participação e o valor agregado no comércio global.

O cenário foi debatido durante a Semana Internacional do Café (SIC) 2025, realizada entre 5 e 7 de novembro, no Expominas, em Belo Horizonte. Representantes de entidades, cooperativas e empresas defenderam mais articulação entre os diferentes elos da cadeia e uma estratégia comercial mais ativa para enfrentar as mudanças no mercado.

Para Fabrício Andrade, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o tamanho e a diversidade da cafeicultura exigem alianças, mesmo quando existem posições diferentes dentro da cadeia.

“Precisamos de estratégias para entender os nossos objetivos, porque os desafios são muitos. A cadeia do café é muito grande e precisamos de alianças. Pontos divergentes são naturais. O importante é comunicar da mesma forma”, afirmou.

A representante da Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé), Natália Carr, avalia que o cooperativismo integra essa resposta. Segundo ela, a articulação entre produtores e organizações ganha importância diante das incertezas geopolíticas e das novas exigências ambientais.

“O cooperativismo faz parte da solução. Levamos à COP29 o nosso caso, com os protocolos que aplicamos. É fundamental estarmos bem alinhados. Passamos por um momento geopolítico que nos afeta muito e precisamos manter nosso protagonismo e pioneirismo”, disse.

Tarifa expõe dependência

O diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), Agnaldo Lima, compara o impacto da tarifa norte-americana aos efeitos provocados pela guerra entre Rússia e Ucrânia sobre as exportações brasileiras.

Antes do conflito, a indústria de café solúvel acumulava três recordes consecutivos de volume exportado. Rússia e Ucrânia ocupavam, respectivamente, a segunda e a sexta posições entre os maiores compradores do produto brasileiro. A guerra provocou a perda imediata de um mercado equivalente a cerca de 500 mil sacas por ano.

Nos Estados Unidos, o peso é ainda maior. O país representa aproximadamente 20% das exportações brasileiras de café solúvel e recebe perto de 30% dos embarques de café verde.

“O tarifaço trouxe apreensão e preocupação com um cliente que compra muito do Brasil. Precisamos perceber as outras possibilidades para não ficarmos tão dependentes dos Estados Unidos, mas não podemos abrir mão daquele mercado. São muitos anos de construção e de parcerias com empresas norte-americanas”, afirmou Lima.

Segundo ele, as próprias empresas dos Estados Unidos passaram a defender a retirada da tarifa por causa dos possíveis efeitos sobre os custos e a inflação no mercado norte-americano.

O episódio também ampliou a discussão sobre as dificuldades enfrentadas pelos produtos industrializados brasileiros. Enquanto o café verde encontra menos barreiras tarifárias, o solúvel paga taxas em diferentes destinos. A cobrança chega a 9% na União Europeia, 17% na China, 20% na Indonésia e 45% no México.

“Isso tira a nossa competitividade. O Brasil ainda usa pouco os acordos comerciais e deveria ter uma política de negociação muito mais agressiva. O tarifaço mostrou que precisamos andar mais rápido na abertura de outros mercados”, explicou.

Uma alternativa, de acordo com Lima, seria ampliar as negociações bilaterais. O Brasil poderia, por exemplo, reduzir barreiras para produtos de interesse de outros países em troca de condições mais favoráveis para a entrada do café solúvel brasileiro.

Presença nos mercados

A medida norte-americana também revelou a necessidade de aumentar a representação institucional brasileira nos principais destinos do café. Para Lima, países concorrentes mantêm estruturas permanentes de advocacia, negociação e defesa de interesses, enquanto o Brasil ainda atua de forma limitada.

“Precisamos estar presentes nos nossos mercados mais importantes, promover a imagem e a sustentabilidade do café brasileiro, usar a embaixada em Washington e ficar mais perto das autoridades. Quando veio o tarifaço, estávamos descobertos”, disse.

A proximidade com a National Coffee Association e com indústrias norte-americanas ajudou o setor brasileiro a reagir. Para o representante da Abics, essas relações devem ser mantidas, ao mesmo tempo que o país diversifica os destinos das exportações.

Produção sustentável ganha espaço

O avanço das exigências ambientais também traz desafios, mas pode abrir oportunidades. O Brasil passou a utilizar metodologias, bases oficiais e sistemas compartilhados para comprovar a origem do café e o cumprimento das normas ambientais e sociais.

Informações do Cadastro Ambiental Rural, documentos fiscais eletrônicos, registros de comercialização e dados ligados ao crédito rural ajudam a formar uma estrutura oficial de rastreabilidade.

Em um período de 12 meses, as vendas brasileiras de café para a União Europeia cresceram 42,8%, mesmo diante das discussões sobre o Regulamento Europeu de Produtos Livres de Desmatamento, conhecido como EUDR. No mesmo intervalo, a participação em valor dos cafés especiais, certificados ou submetidos a normas de sustentabilidade passou de 17% para 30%.

“Transformamos o desafio da nova regra em uma oportunidade. O Brasil consegue apresentar evidências verificáveis para que os importadores cumpram suas obrigações. Somos uma das origens mais preparadas para criar esses sistemas”, afirmou Lima.

Uma plataforma aprimorada em 2023 reúne 57 integrantes, entre cooperativas e empresas, e acompanha cerca de 260 mil cafeicultores. O sistema alcança 99% das exportações brasileiras destinadas à União Europeia, segundo os dados apresentados durante o evento.

Carbono exige metodologia tropical

O setor também procura avançar na construção de um mercado de carbono adaptado às características da agricultura tropical. A avaliação é que metodologias elaboradas em países de clima temperado consideram as emissões, mas nem sempre contabilizam corretamente o carbono retirado da atmosfera pelas lavouras e pela vegetação.

“No ambiente tropical, temos biomassa no solo todos os anos e fotossíntese durante todos os meses. Conseguimos um sequestro de carbono muito forte, que pode resultar em balanço negativo”, explicou Lima.

Projetos conduzidos em Minas Gerais e no Espírito Santo apontaram que determinadas áreas de café retiram da atmosfera mais carbono do que emitem. O próximo passo, segundo ele, será estruturar plataformas capazes de transformar esse resultado em créditos de carbono.

Além da possibilidade de criar uma nova fonte de receita, o setor quer evitar que metodologias internacionais classifiquem a cafeicultura brasileira apenas como emissora. Essa interpretação poderia gerar novas cobranças para a entrada do produto na União Europeia caso o agronegócio seja incorporado futuramente ao mecanismo europeu de ajuste de carbono na fronteira.

Força produtiva do Brasil

Para Pedro Ronca, da Plataforma Global do Café, o país reúne escala, diversidade e capacidade de adaptação. A organização atua em seis países que concentram cerca de 70% da produção mundial de café.

“A cafeicultura brasileira é realmente muito forte. As evoluções do nosso modelo produtivo são impressionantes. A agricultura regenerativa reúne conhecimentos antigos em uma linguagem atual para responder às mudanças climáticas”, afirmou.

Ronca destacou ainda que a atividade gera renda para produtores de diferentes portes. Segundo ele, a preservação das áreas de proteção permanente e das reservas legais também integra a capacidade produtiva e ambiental da cafeicultura brasileira.

Certificação não é apenas para grandes produtores

As certificações representam outra porta de entrada para mercados mais exigentes. O especialista Pedro Malta explica que esses protocolos funcionam como ferramentas de gestão e podem ser adotados por propriedades familiares, médias ou grandes.

“A certificação traduz os anseios do consumidor para o varejo e para a indústria de alimentos. Isso se transforma em um conjunto de regras e procedimentos. É uma oportunidade de acesso ao mercado, à informação e à tecnologia”, afirmou.

Entre os modelos disponíveis estão o Fairtrade, voltado ao comércio justo, o Código Comum da Comunidade Cafeeira, conhecido como 4C, e o Rainforest Alliance. A escolha depende do mercado que o produtor pretende atender e das exigências das empresas compradoras.

Malta afirma que a certificação pode aumentar a renda no médio e no longo prazo. O ganho ocorre tanto pela melhoria da administração da propriedade quanto pelo acesso a empresas, tecnologias e segmentos que pagam mais por produtos com origem e práticas comprovadas.

Espírito Santo amplia relevância

O Espírito Santo ocupa posição estratégica nessa transformação. O estado é o principal fornecedor nacional de matéria-prima para a indústria de café solúvel, cuja composição utiliza aproximadamente 80% de canéfora, grupo que inclui o conilon e o robusta.

Esses cafés apresentam rendimento industrial entre 15% e 18% superior ao arábica na extração de sólidos solúveis e cafeína, segundo Lima. O aumento da qualidade e da produtividade nas propriedades capixabas também contribuiu para melhorar o produto industrializado.

“O que precisamos comprar é qualidade com quantidade e ter mercadoria disponível. O Espírito Santo produz arábica nas montanhas e tem uma tecnologia magnífica no conilon. É uma joia rara”, afirmou.

Embora ainda não lidere a produção brasileira de café solúvel, o estado está próximo dessa posição e possui três unidades industriais. A proximidade entre lavouras, fábricas e portos amplia a competitividade, assim como o tratamento tributário concedido às indústrias instaladas no território capixaba.

O custo da matéria-prima, contudo, exige atenção. Se o conilon produzido no Espírito Santo ficar mais caro que o robusta do Vietnã, as indústrias brasileiras perdem competitividade diante de concorrentes com acesso a café mais barato.

“Quando a indústria perde mercado, quem também perde é o produtor brasileiro. Estamos todos entrelaçados”, ressaltou Lima.

Para ele, o avanço da produção capixaba ajuda o Brasil a garantir o fornecimento, conquistar novos compradores e agregar valor ao café. A melhoria da BR-101, especialmente no trecho de acesso a Linhares, permanece como uma demanda para reduzir gargalos logísticos e acompanhar o crescimento da cadeia.

Sobre o autor Fernanda Zandonadi Desde 2001, Fernanda Zandonadi atua como jornalista, destacando-se pelo alto profissionalismo e pela excelência na escrita de suas reportagens especiais. Tem um conhecimento aprofundado em agronegócio, cooperativismo e economia, com a habilidade de traduzir temas complexos em textos de grande impacto e relevância. Seu rigor e qualidade na apuração e narração de histórias do setor garantiram que seu trabalho fosse constantemente reconhecido pela crítica especializada, o que a levou a conquistar múltiplas distinções e reconhecimentos em premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos

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