El Niño muda mapa de riscos para o início do plantio no Brasil

Excesso de chuva pode interromper os trabalhos no Centro-Sul, enquanto calor e precipitações irregulares exigem cautela no Matopiba e em áreas do Centro-Norte

soja
Foto: Freepik

O início do plantio da safra 2026/2027 exigirá estratégias diferentes entre as regiões brasileiras. Enquanto o Centro-Sul pode enfrentar excesso de chuva, áreas do Centro-Norte devem registrar temperaturas elevadas e precipitações irregulares. No Matopiba, a demora na regularização das chuvas poderá atrasar a semeadura e reduzir a janela ideal para as culturas.

A avaliação é do Giro Agroclima, da Climatempo. A semeadura da soja começa na maior parte dos estados produtores após o fim do vazio sanitário, principalmente em setembro. No Sul, os produtores também iniciam o plantio do milho primeira safra.

O El Niño modifica a circulação atmosférica e amplia os contrastes climáticos no país. No Centro-Sul, que abrange o Sul, o Sudeste e parte do Centro-Oeste, a previsão aponta maior frequência de chuvas e volumes acima da média em alguns períodos.

A umidade pode favorecer a recuperação do solo e o estabelecimento inicial das lavouras. Entretanto, a chuva excessiva dificulta a entrada das máquinas, aumenta o risco de erosão, favorece doenças e provoca a perda de nutrientes por lixiviação.

Nas áreas mais úmidas, os produtores precisam verificar as condições de drenagem e escolher cultivares adaptadas ao ambiente local. O acompanhamento de doenças também deve começar nas primeiras fases das culturas.

No Centro-Norte, o calor intenso e a irregularidade das chuvas tendem a elevar os riscos de estresse térmico e hídrico. Mesmo com o avanço da estação chuvosa, podem ocorrer intervalos prolongados sem precipitação, prejudicando a emergência e o desenvolvimento inicial das plantas.

O Matopiba, região formada por partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, merece atenção especial. A regularização das chuvas pode demorar, o que reduz a janela de plantio e aumenta a possibilidade de falhas na emergência e necessidade de replantio.

Por isso, a Climatempo recomenda que o produtor não inicie a semeadura com base apenas na primeira chuva. A decisão deve considerar a umidade do solo e a previsão de uma sequência mais consistente de precipitações.

Preparo do solo reduz riscos

O preparo do solo ganha importância diante dos contrastes provocados pelo El Niño. Uma estrutura adequada permite absorver melhor a água durante as chuvas intensas e conservar a umidade nos períodos de estiagem.

O produtor deve avaliar a compactação, corrigir limitações químicas e físicas e manter a cobertura do solo. A palhada reduz a evaporação, preserva a umidade, protege a superfície contra o impacto direto da chuva e ajuda a conter a erosão.

A escolha das cultivares também precisa acompanhar as condições previstas para cada região. Em locais sujeitos a calor intenso e precipitações irregulares, a orientação é buscar materiais tolerantes ao estresse térmico e hídrico, além de observar a compatibilidade do ciclo com a janela de plantio.

Nas áreas mais úmidas do Centro-Sul, o produtor deve priorizar cultivares com bom desempenho nessas condições e reforçar o controle de doenças.

Milho exige atenção desde o início

No Sul, o excesso de umidade pode afetar as fases iniciais do milho primeira safra. O ambiente úmido favorece determinadas doenças e estimula novos fluxos de emergência de plantas daninhas.

O monitoramento de pragas deve começar nos primeiros estádios da cultura. Ataques nesse período podem comprometer o estabelecimento das plantas e reduzir o potencial produtivo da lavoura.

A Climatempo também recomenda escalonar o plantio. A medida ajuda a distribuir os riscos climáticos e evita que toda a área atravesse uma fase sensível sob as mesmas condições adversas.

Fenômeno pode avançar até 2027

Os modelos climáticos citados no Giro Agroclima indicam que o El Niño deve continuar se fortalecendo ao longo do segundo semestre de 2026 e permanecer atuante pelo menos até o início de 2027.

A maior intensidade está prevista entre a primavera e o verão, período que coincide com boa parte do ciclo da safra. Os efeitos sobre a distribuição das chuvas e as temperaturas, portanto, devem ganhar força durante o desenvolvimento das lavouras de verão.

As projeções mais longas apontam que o fenômeno poderá enfraquecer e chegar ao fim entre o outono e o inverno de 2027.

No Sudeste, a retomada das chuvas deve ocorrer gradualmente. A frequência e o volume das precipitações tendem a aumentar durante outubro e novembro, mas a distribuição ainda poderá variar entre as diferentes áreas.

O Sul de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro podem registrar melhora antes do norte e do interior mineiro. Mesmo com o avanço da estação chuvosa, o El Niño poderá manter períodos de calor e intervalos maiores entre as chuvas.

Diante desse cenário, o produtor precisará acompanhar continuamente as previsões, preparar o solo, selecionar cultivares adequadas e ajustar o calendário. Os riscos mudam de uma região para outra, mas o planejamento será determinante em todo o país.

Sobre o autor Fernanda Zandonadi Desde 2001, Fernanda Zandonadi atua como jornalista, destacando-se pelo alto profissionalismo e pela excelência na escrita de suas reportagens especiais. Tem um conhecimento aprofundado em agronegócio, cooperativismo e economia, com a habilidade de traduzir temas complexos em textos de grande impacto e relevância. Seu rigor e qualidade na apuração e narração de histórias do setor garantiram que seu trabalho fosse constantemente reconhecido pela crítica especializada, o que a levou a conquistar múltiplas distinções e reconhecimentos em premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos

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