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Colocar um cafeeiro inteiro dentro de uma câmara e acompanhar como ele reage ao calor em diferentes fases de desenvolvimento. Controlar a chuva para avaliar a resposta das plantas. Levar equipamentos ao campo para investigar o que acontece na lavoura. Essas possibilidades fazem parte da estrutura que o Espírito Santo começou a montar em fevereiro deste ano para transformar pesquisas em orientações de manejo diante dos desafios climáticos.
O experimento ainda depende de equipamentos em construção, mas começa a traduzir uma necessidade que chegou à pesquisa capixaba. Em um momento em que as condições climáticas se tornam, ano a ano, mais adversas, os cientistas precisam de estrutura para reproduzi-las, medir seus efeitos e testar possíveis respostas.
Hoje, essa investigação encontra um limite físico. Um dos sistemas disponíveis à equipe alcança, no máximo, 40 graus e não comporta plantas grandes. E, pelos últimos verões, fica claro que essa temperatura já não é exceção e períodos ainda mais quentes devem ser levados em consideração. A restrição dificulta, portanto, estudos com culturas perenes, aquelas que permanecem por vários anos no campo, como o café.
É nesse espaço que, entre as perguntas dos pesquisadores e as ferramentas disponíveis para respondê-las, começa a tomar forma o AgroResilience, primeiro Centro Temático do Espírito Santo com foco específico em adaptação climática e sustentabilidade do agronegócio. Coordenado pelo Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) o Centro reúne 19 projetos e amplia a infraestrutura para estudar a adaptação da agricultura ao calor, à seca e à irregularidade das chuvas.
A Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) aprovou R$ 7,1 milhões para a iniciativa. O investimento, que contempla equipamentos, ambientes de experimentação, bolsas e espaços de capacitação funciona no Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação Norte (CPDI Norte), em Linhares. Café canéfora, pimenta-do-reino, mamão e abacaxi são as quatro culturas prioritárias nos primeiros três anos do projeto, iniciado em fevereiro de 2026. Pesquisadores, extensionistas e consultores estudam o funcionamento das quatro culturas e a resposta aos tratamentos.
A proposta reúne pesquisas que já estavam em andamento e cria condições para novos estudos. Ela busca aproximar o conhecimento sobre o funcionamento das plantas das decisões que o agricultor precisa tomar, da escolha do material genético ao momento de adubar ou aplicar um produto.
Coordenadora do Centro Temático, a engenheira agrônoma, mestre e doutora em agronomia e fisiologia vegetal, pesquisadora no Incaper e professora universitária, Sara Dousseau Arantes, também é responsável por oito dos projetos e explica a dimensão do desafio.
“Não existe uma única tecnologia capaz de resolver esse problema. Precisamos entender como a planta responde ao calor e à falta de água, identificar genótipos mais tolerantes, melhorar o manejo da irrigação e do solo, desenvolver alternativas para reduzir perdas de água, testar bioinsumos, aperfeiçoar sua aplicação e avaliar como a nutrição pode aumentar a capacidade das plantas de suportar condições adversas.”
O clima em cena
As três câmaras climáticas previstas para o centro terão estruturas semelhantes a contêineres. O espaço permitirá acomodar plantas de maior porte e avaliar o efeito das temperaturas em diferentes fases do desenvolvimento. A equipe também prevê simular condições de chuva para estudar respostas das culturas e ajustes no manejo.
Esse conjunto de estruturas para modulação climática tem investimento estimado em R$ 1,5 milhão. Ao controlar as condições do experimento, os pesquisadores pretendem aprofundar a investigação sobre quais plantas toleram melhor os estresses ambientais e quais práticas ajudam a reduzir seus efeitos.
O projeto inclui viveiros, casas de vegetação para estudos com seca induzida, sala de crescimento para cultura de tecidos e laboratórios. Equipamentos portáteis também permitirão levar as avaliações às propriedades rurais, conectando os experimentos controlados ao que acontece na lavoura.

Parte dos equipamentos nacionais já chegou. Segundo Sara, as câmaras estão em construção, com previsão de entrega em até seis meses, contados da informação prestada à reportagem. A aquisição dos equipamentos importados, por sua vez, aguarda liberação de importação via Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Enquanto a infraestrutura avança, os projetos associados continuam nas áreas experimentais e nas propriedades. O centro passa a reunir trabalhos sobre fisiologia vegetal, melhoramento genético, nutrição, irrigação, bioinsumos e sistemas de cultivo.
“Antes, muitas dessas pesquisas aconteciam em projetos individuais. O AgroResilience permite conectar esses trabalhos, compartilhar infraestrutura, pesquisadores, estudantes, áreas experimentais e conhecimento, criando massa crítica para responder a questões muito mais complexas”, afirma Sara.
Um dos resultados relatados pela pesquisadora vem dos estudos sobre manejo do cafeeiro sob calor. Nos experimentos, o uso de protetor solar para plantas no momento definido pela pesquisa contribuiu para reduzir a perda de folhas e melhorar a eficiência fotossintética, relacionada ao aproveitamento da luz pela planta.
Segundo Sara, o primeiro ciclo de produção registrou aumento de 25 sacas por hectare nas condições avaliadas. A equipe já trabalha na difusão desse resultado. A validação do plano de manejo para calor envolve experimentos em Linhares e São Mateus.
Outra frente estuda o manejo foliar e radicular, voltado às folhas e às raízes, em Linhares, Sooretama e nos municípios baianos de Itamaraju e Eunápolis. Esses trabalhos partem de um problema que nem sempre exige criar um produto. Muitas vezes, a pergunta é como usar melhor uma tecnologia já disponível.
Sara identifica um descompasso entre algumas práticas adotadas no campo e as mudanças nos sistemas de produção. Ela cita o calendário de adubação do café canéfora. Recomendações associadas ao início das chuvas surgiram em um contexto no qual o agricultor dependia da água que vinha do céu para dissolver fertilizantes sólidos e disponibilizar nutrientes às plantas.
Hoje, propriedades contam com irrigação, aplicação de adubos pela água e fertilizantes com diferentes características. Ainda assim, segundo a pesquisadora, há produtores que mantêm interrupções na adubação sem considerar as necessidades da planta durante o enchimento dos frutos e a recuperação após a colheita.
O objetivo é elaborar planos que orientem quando e em quais condições uma prática pode ajudar a enfrentar o calor, favorecer o crescimento das raízes ou melhorar a formação dos frutos. A recomendação depende tanto da tecnologia quanto da resposta da planta.
Do mar às lavouras

A bióloga Janyne Soares Braga Pires, de São Mateus, investiga parte dessas respostas. Doutoranda, ela realiza pesquisas em propriedades de Linhares e São Mateus e trabalha com bioestimulantes à base de algas marinhas.
Seus estudos incluem as algas Ascophyllum nodosum e Kappaphycus alvarezii, simulação de estresse e produtos conhecidos como protetores solares para reduzir os efeitos do calor no cafeeiro. O interesse está em compreender como esses recursos podem contribuir para o desempenho das plantas diante de condições ambientais adversas.
Pires situa seu trabalho dentro de uma entrega coletiva. “Um ponto que considero muito importante é que o Centro reúne diferentes áreas de conhecimento em torno de uma entrega comum, que são os planos de manejo. Então, os resultados da minha pesquisa podem contribuir com uma parte desses planos, ajudando a definir estratégias para que as culturas enfrentem melhor condições ambientais adversas, mantendo seu desempenho fisiológico e produtivo”.
No conjunto dos 19 projetos, há também pesquisas com bioinsumos para induzir tolerância à seca e ao calor no mamoeiro e estudos para selecionar precocemente materiais de abacaxi resistentes à fusariose e tolerantes aos dois estresses climáticos.
A seleção de genótipos, plantas com determinadas características genéticas, constitui outra frente do centro. A equipe pretende aprofundar o conhecimento sobre quais materiais se adaptam melhor a diferentes condições e como essa resposta se relaciona com a produção.
É uma investigação que precisa considerar o lugar onde a planta vai crescer. Na entrevista, Sara resume uma das lacunas que mobilizam o grupo.
“Então qual é o material genético que eu devo plantar em Colatina? Nós não sabemos. Não temos parâmetros climáticos que se ligam à produção.”
Pimenta na pesquisa
Na pimenta-do-reino, uma das perguntas começa pela estrutura que sustenta a planta. A agrônoma Francine Bonomo Crispim Silva, de São Mateus, compara o cultivo em estacas de eucalipto com o uso de tutores vivos, plantas que servem de suporte à pimenteira.
Mestranda, ela desenvolve avaliações em São Mateus, Sooretama, Linhares e Pinheiros. O estudo acompanha aspectos do funcionamento das plantas, de sua anatomia, da produção e das respostas bioquímicas para compreender como a cultura se comporta em cada sistema.

O trabalho integra uma linha que busca estratégias de manejo capazes de reduzir os efeitos dos estresses ambientais e melhorar a produtividade. Para Silva, a estrutura compartilhada amplia as análises que pode realizar e o contato com pesquisadores de outras especialidades.
“Eu consigo ter contato com diferentes perspectivas sobre um mesmo problema, o que amplia meu senso crítico e me permite fazer análises mais completas”.
A ligação com o Incaper também coloca a extensão rural dentro do percurso da pesquisa. Além de produzir conhecimento, a proposta prevê validá-lo em condições reais e construir orientações que possam chegar ao agricultor.
“Para mim, isso é muito importante na formação de uma pesquisadora: conseguir fazer uma pesquisa de qualidade, mas também enxergar como aquele conhecimento pode solucionar um problema real da agricultura”, afirma Silva.
Muitas perguntas
Janyne e Francine estão entre os 39 bolsistas vinculados ao AgroResilience. O orçamento do projeto prevê aproximadamente R$ 978 mil em bolsas, com participação de estudantes, profissionais de apoio técnico e pesquisadores em diferentes etapas da formação.

A rede reúne Incaper, Ufes, Faesa, UVV, Universidade Federal de Alfenas e Universidade Federal de Lavras, além de empresas e equipes de extensão rural. Na elaboração da proposta, o grupo conseguiu 87 apoiadores no Espírito Santo, entre organizações de agricultores, cooperativas, instituições de ensino e pesquisa e empresas.
O compartilhamento da estrutura permite apoiar estudos de parceiros. Na Ufes, trabalhos do professor Edney Leandro da Vitória investigam tecnologias de aplicação de bioinsumos. A questão envolve definir como fazer o produto chegar à planta na dose, no momento e nas condições adequadas. Já pesquisas do professor Adriano Alves Fernandes tratam do uso desses insumos na nutrição vegetal.
A colaboração alcança ainda o Instituto Federal Baiano, no campus de Teixeira de Freitas. Com o professor Dionei Lima Santos, a rede apoia estudos sobre cobertura do solo, técnica conhecida como mulching, para reduzir a perda de água na cultura do mamão. Também há trabalhos sobre a interação entre essa cobertura e diferentes cultivares de maracujá. Para Sara, a possibilidade de atender a diferentes estudos muda o alcance do investimento.
“Um pesquisador que tenha uma boa pergunta ou uma nova tecnologia para testar pode encontrar no AgroResilience equipamentos, áreas experimentais, parceiros de outras especialidades e apoio para levar aquele estudo até condições reais de campo.”
Financiamento

A estrutura começou a sair do projeto depois de uma aprovação que, inicialmente, não trouxe dinheiro. O AgroResilience e outros dois centros capixabas passaram pela avaliação de mérito da chamada nacional de Centros Temáticos de 2024, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), mas não receberam recursos federais.
A Fapes assumiu o financiamento das três iniciativas, com R$ 22,4 milhões do Fundo Estadual de Ciência e Tecnologia (Funcitec). O aporte permitiu iniciar a implantação dos centros ligados ao Incaper, à Ufes e ao Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes).
Rodrigo Varejão, diretor-geral da Fapes, explica a decisão. “Aproveitamos a oportunidade de contar com projetos maduros, já aprovados em chamada nacional, para impulsionar essas iniciativas com recursos estaduais. Esses projetos dialogam diretamente com as metas do Espírito Santo e contribuem para preparar profissionais capixabas para atuarem como protagonistas nos grandes desafios do nosso desenvolvimento”.
Além do AgroResilience, o investimento contempla o Nova-IA Indústria, que prevê aplicar inteligência artificial à transformação digital sustentável do setor industrial. Entre as frentes estão estudos sobre substituição do carbono por hidrogênio na produção de aço e impressão 3D a laser com ligas alternativas.
O Centro de Transformação Digital da Pesquisa, Extensão e Inovação Acadêmica da Ufes, o CenTopeIA-UFES, completa o conjunto. A proposta inclui computação de alto desempenho, inteligência artificial, ampliação da conectividade e construção de um data center para apoiar pesquisa e inovação.
Resultados
No agro, o apoio da Fapes alcança um conjunto mais amplo de pesquisas. Segundo dados fornecidos pela Fundação, 246 projetos receberam financiamento nos últimos cinco anos, um investimento superior a R$ 83 milhões, que envolveram 2.706 profissionais, entre bolsistas e pesquisadores. Desse total, 56 projetos tratam do café.
As ações incluem parcerias com a Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag) e financiamento com recursos do Funcitec. Abrangem café, fruticultura, pecuária, aquicultura, pesca, grãos, recursos florestais, solos, água e desenvolvimento socioeconômico rural.
Professor e pesquisador da Ufes, Fábio Luiz Partelli conta com o apoio da fundação há mais de dez anos. Segundo ele, os recursos para custeio, equipamentos e bolsas permitem dar continuidade a pesquisas que vão do preparo do solo e do plantio à genética e à nutrição das plantas.

Entre os resultados, Partelli cita estudos sobre o ponto de colheita do café e o parcelamento da adubação, com informações mais precisas sobre as necessidades nutricionais ao longo do ano. Suas pesquisas também resultaram no registro de sete cultivares de café, grande parte com apoio da Fapes.
Para Ana Paula Candido Gabriel Berilli, doutora em Genética e Melhoramento de Plantas e professora do Ifes de Alegre, a formação de profissionais é parte desse processo. Ela destaca a oferta de editais que alcançam estudantes da iniciação científica júnior ao pós-doutorado e avalia que esse apoio estimula a permanência na carreira científica.

No AgroResilience, a execução prevista até janeiro de 2029 estabelece o primeiro período de trabalho de uma estrutura concebida para continuar servindo a diferentes pesquisas. Sara aponta a busca por novas parcerias e fontes de financiamento como caminho para manter o sistema em funcionamento.
As câmaras climáticas, quando chegarem, ampliarão as condições de testar o cafeeiro, o mamoeiro e outras plantas diante de situações que os pesquisadores precisam compreender melhor. Depois de cada experimento, haverá outra etapa, avaliar se a resposta se mantém no campo e em quais circunstâncias ela pode orientar o produtor.





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